Se prepare para o impacto de Mãe!, novo longa de Darren Aronofsky

Se você gosta de ir ao cinema e sair de lá entendendo todo e cada detalhe do filme que viu, sem fazer sua massa cefálica trabalhar um pouco, ‘Mãe‘ não é para você.

Escrita e dirigida por Darren Aronofsky, sim o mesmo realizador de Cisne Negro, O Lutador, Requiém Para um Sonho, Pi e entre outros, a película é mais uma de suas extravagantes e belas alegorias com teor sombrio e ultra psicológico que vem causando burburinho desde sua passagem pelo Festival de Cinema de Veneza, deste ano.

Pelas imagens prévias exibidas no trailer, se percebe que a trama é sobre um casal que passa a ter dificuldades de convivência com a chegada de estranhos ao seu lar. Porém, este é só o ponto de partida para tentarmos compreender o mundo repleto de dor e sofrimento da personagem de Jennifer Lawrence no longa. Ela que ainda contracena com: Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson e Brian Gleeson.

Com um estilo de narrativa próprio, diria até um pouco fabuloso, o roteiro de Darren chama a atenção para a representação que os personagens tem metaforicamente e a eles são dadas características ‘bíblicas’ que levam a um quadro muito mais simbólico e cria inúmeras interpretações.

Javier é um escritor. Um poeta. Ou seja, tem a função de criar – mesmo que sua inspiração esteja nula no momento. Ed Harris é um médico, um homem com defeitos e fraquezas. Ele chega a casa do poeta dizendo ter conhecimento de que o lugar era um ‘Bed & Breakfast’ – algo como nossas pousadas. Bardem não se importa e aproveita a oportunidade para ter gente em casa (a moradia não está próxima a nada e é a única residência por aqueles arredores). Posteriormente, a esposa sensualíssima do médico também bate a porta e é convidada a ficar.  Mais a frente os filhos do casal, vividos pelos irmãos Gleeson, também aparecem no local. Contudo, a jovem mulher do escritor vê toda a situação com estranheza e se chateia pela decisão do marido em deixar estranhos se hospedarem com eles sem requisitar sua opinião. Aliás, o espaço está sendo reformado por ela e também se torna inquietante com a presença dos visitantes.

Bardem vive um marido pouco afável e Lawrence é o reflexo da mulher que se doa por completo

A relação entre o poeta e a esposa é exibida de forma que o espectador perceba o ar superior de um Deus. Lawrence tenta estar ao seu lado e ser companheira, mas é rebaixada sempre. Não importa o que faça ou os talentos que tenha e segue como uma tola apaixonada (quem nunca?) realizando os caprichos do marido. Ele, por outro lado,  gosta daquele amor, mas pouco o retribui. Parece ausente e mais interessado em ter seguidores que propriamente sentir a experiência da vida a dois. A chegada de pessoas desconhecidas ali evidencia o quanto ele ama ser adorado por seu trabalho e seu deslumbre pela fama, já ela não compreende como o esposo não percebe a invasão que está ocorrendo e porquê deixa ocorrer.

O diretor diz que, na verdade, é o que está por baixo disso tudo que realmente importa e faz um paralelo dos seus personagens com alguns personagens bíblicos.

Os visitantes representariam assim: Adão (Harris), Eva (Pfeiffer), Caim (Domhnall) e Abel (Brian). Deus seria Bardem, Lawrence a mãe natureza e a casa em que eles moram a terra. A explicação faz muito sentido quando imagens ilustram a conexão que a personagem de Lawrence possui com a residência, mas olhando bem por cima, muita gente pode entender o viés do abuso emocional, tão comum nas relações amorosas. Ou quaisquer outro que a imaginação ousar comparar.

Quando Aronofsky também explica que escreveu a produção em estado profundo de desgosto com o atual cenário mundial surge uma outra camada para a trama. Uma que faz analogia a como o homem apenas usa e abusa do planeta terra e não dá nada em troca.O poluí, o explora, o desmata. Em como estamos politicamente e socialmente divididos. Em como só pensamos em selfies e etc.

Exemplo disto está nas cenas, já mais para o fim do longa, que demonstram uma invasão de fãs do poeta a sua casa. O grupo passa do limite e a habitação vira o pandemônio. Enquanto isto, a esposa, mãe e mulher, sofre e lamenta sozinha a desordem gerada no ambiente e à ela.

A  casa, ou ainda, a terra, é palco do apocalipse e tem direito até um tipo de encenação da ‘morte de cristo’. Mas que também se enviesa para aquela ideia SINISTRA onde ‘ter ou sentir um pouco do meu mestre pode me dar a força dele’.

Objetos como um diamante, as aparições constantes de um órgão humano e ainda um liquido amarelo que vemos a personagem de Lawrence tomar  trazem questões muito PERTURBADORAS e nos deixam com a pulga atrás da orelha. Aliás, é aqui que o título mãe começa a fazer mais sentido. Quando as luzes se apagam é impossível que tudo que fora visto não gere tremor e frustração.

Lindsay Graham e Mary Jensen são as responsáveis pela escolha desse cast magnifico. Jennifer Lawrence nunca passara por tanto sofrimento antes – a não ser no depressivo ‘Inverno da Alma’, longa que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar. A atriz consegue pedir empatia sem nem fazer força e conversa com a câmera praticamente o filme todo. É sempre um grande contentamento ver Javier Bardem atuar e em ‘Mãe!’ ele faz jus ao criador enigmático e a um homem que busca notabilidade. Ed Harris é sinônimo de presença marcante. E suas transições entre um homem viril e doente ficam evidentes conforme a trama o exige.  Os personagens dos irmãos Gleeson também trazem conflito, principalmente, Domhnall que chega igual a cantora Ludmilla: CHEGANDO E BAGUNÇANDO A ZORRA TODA.

O figurino despojado de Lawrence a distancia de todos os personagens presentes, mas a impregna de características de uma mulher simples e abraça o simbolismo da mãe natureza. Os outros todos desfilam trajes que simbolizam uma sociedade mais classuda. As cores quentes dominam a fotografia, mas são as neutras que ditam a tensão do encerramento do filme.

O ranger, o clack, o barulho do vento, das pedras se movendo, das portas de abrindo, dos passos, das pessoas falando ao fundo. Esta é a trilha sonora de Mãe!. Aronofsky faz isto para indicar naturalismo e servir de ênfase a inúmeros momentos de dramáticos ali. Em entrevista a revista Vanity Fair, o compositor e ganhador do Oscar Jóhann Jóhannsson , dito cujo que assinaria a trilha, diz que a escolha é acertada pois dá mais beleza a mensagem artística que o diretor quer transmitir. E olha o impacto é realmente perturbante.

O que falar de uma direção que provoca, instiga, te faz refletir e deixa você pensar o que quiser? Muitos diriam que isto invalida todo o trabalho. Alguns que engrandece. Mas que tal pensar em como ela agrega? Afinal, este não é um filme que fará você sair do escuro do cinema sem aprender nada. E a edição reforça as intenções da direção.

Trailer

Ficha Técnica: Mother!, 2017. Direção e roteiro: Daren Aronofsky . Elenco:Javier Bardem, Jennifer Lawrence, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson e Brian Gleeson. Nacionalidade: EUA. Gênero: Drama, Suspense. Figurino: Danny Glicker. Fotografia: Matthew Libatique. Castingy by:Lindsay Graham e Mary Jensen. Edição:  Andrew Aisblum.  Distribuidor: Paramount Pictures. Duração:0202min. 

 Não recomendado para menores de 16 anos

Avaliação: Três antídotos para a renovação  e meio ( 3,5/5).

21 de Setembro nos Cinemas!

Vejo vocês por ai!

 

 

 

B

Comentários
Barbara Kruczynski

Adotada pela família dos corvos, amante do som do banjo, devota de J.K.Rowling e fiel seguidora de Wes Anderson, a seu dispor ; )

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *