It – A Coisa (2017) – Crítica e Análise

O trailer de IT – A Coisa me deixou com algumas expectativas antes de ver o filme. Esperava um terror trash clássico, com muitas homenagens à minissérie e com muitos jumpscares e momentos gore. Apesar do inegável carisma de Bill Skarsgard como Pennywise, ele é ofuscado pelos outros elementos do filme, como a dimensão emocional dos personagens principais – e seus medos, traumas e neuroses.

Desde a primeira cena, é possível perceber que existe algo muito errado na cidade de Derry. Os adultos parecem apáticos, e ninguém realmente faz nada em relação às crianças desaparecidas. Mesmo os pais de Bill, o protagonista, não parecem se mobilizar para entender o que aconteceu com o seu filho mais novo, Georgie, misteriosamente desaparecido em um dia chuvoso. A dinâmica e o carisma dos personagens do Clube dos Perdedores é um dos pontos altos do filme. As sete crianças que se unem para resolver o mistério dos desaparecimentos, e acabam descobrindo uma verdade aterradora, um monstro chamado A Coisa, que se alimenta o medo e da violência dos habitantes de Derry. Cada criança é um universo particular, e cada uma deles enfrenta o seu próprio monstro na vida diária – o luto, o racismo, o bullying, o abuso sexual. A mitologia do filme consegue unir muito bem esses demônios pessoais e a figura do palhaço, que se torna uma metáfora poderosa para entender como as pessoas podem ser tão cruéis umas com as outras.

A atmosfera de nostalgia do filme também é muito interessante, e assim como o recente sucesso Stranger Things (2016), da Netflix, ele é muito bem sucedido em recriar a década de 80 para uma audiência contemporânea. A decisão de manter a trama na década de 80 (mesmo alterando a idade dos personagens, porque no livro original eles já são adultos na década de 80 e crianças na década de 50) foi muito interessante, porque acredito que o filme perderia muito caso se passasse em 2017. A decisão de dividir o filme em duas partes, e trabalhar com uma narrativa linear, ao contrário do livro, que alterna o ponto de vista dos personagens enquanto adultos e enquanto crianças, é compreensível. O livro de Stephen King, que baseou o filme e a minissérie de 1990 de Tim Curry, tem mais de 1000 páginas, e a minissérie conta com três horas. Se alguns dos personagens parecem subutilizados no novo filme, com certeza isso se agravaria com a narrativa não-linear. Apesar dessa alteração, o filme parece uma história inteira, e o espectador não sente que existe algo faltando.

Pra mim, um dos personagens que foi melhor trabalhado no aspecto emocional foi o protagonista gago Bill, que é mobilizado pela perda de Georgie, seu irmão mais novo, e parte em uma jornada à la Joyce Byers para entender o desaparecimento do caçula, na esperança de conseguir encontrá-lo vivo. O filme conseguiu retratar o impacto que o luto teve em sua personalidade, e seus surtos quase suicidas de heroísmo e determinação pareciam fruto do desespero, e ficaram naturais na trama. Além disso, Beverly Marsh, a única garota do grupo, é extremamente bem trabalhada. Um dos meus medos era que o filme caísse na armadilha da minissérie, reduzindo-a a “namoradinha do grupo” e interesse romântico de Bill e Ben. O filme foi pela direção oposta, e retratou Bevvie como uma jovem mulher corajosa e gentil, sempre disposta a ajudar aqueles em perigo, e muito determinada em descobrir a verdade sobre “A Coisa”. A sua história pessoal com certeza é a mais pesada, empatada com a de Bill, no qual ela enfrenta abuso sexual e slutshaming por parte das pessoas da cidade. As cenas em que ela interage com seu pai foram, pra mim, as mais assustadoras do filme e o momento no qual ela corta o cabelo é uma das cenas com o maior peso emotivo do filme. A relação de amizade dela com os meninos do grupo é muito doce, e a crush que dois dos personagens têm nela se desenvolve de forma natural e em nenhum momento parece forçada.

Um dos pontos negativos foi que alguns dos personagens ficaram pouco explorados. Queria saber mais sobre a família de Ben, que sofre bullying por ser gordo e que é obcecado por resolver o mistério da cidade. Ele possui uma personalidade muito cativante, mas senti que o filme poderia ter trabalhado melhor a história dele. Da mesma forma, fiquei muito frustrada com os personagens Stanley, Mike e Richie. Richie foi reduzido a um alívio cômico. Embora na obra original ele também seja um personagem engraçado e tagarela, sua relação ruim com a família é muito importante para entendê-lo, e isso foi deixado um pouco de lado. O filme também se ausentou na discussão sobre antissemitismo e racismo que permeiam, respectivamente Stan e Mike. São aspectos importantes para os personagens, e acredito que em tempos em que o conservadorismo está aumentando, seria importante que o filme se posicionasse sobre essa temática. Na livro de Stephen King, Henry Bowers, o bully psicopata da cidade, é abertamente racista e utiliza termos pejorativos para se referir a Stan e Mike. Embora eu entenda a posição do filme em cortar essa parte fora, acredito que isso teria adicionado mais complexidade ao filme, fazendo uma crítica sobre eventos como a marcha nazista ocorrida em Charlottesville em Agosto.

Ainda assim, It – A Coisa é com certeza um dos melhores filmes que vi esse ano, e com certeza o mais complexo filme de terror a sair desde Babadook e A Bruxa. A delicadeza entre as cenas de puro terror gore e o terror emocional vivido pelos personagens é algo difícil de traduzir para a câmera, ainda mais num filme de duas horas. Recomendo fortemente, tanto para fãs do Stephen King quanto para aqueles que não são familiarizados com a obra do autor.

Comentários
Cherry B.

Super-heroína à beira de um ataque de nervos. Quando não está salvando o mundo, costuma ler (quase) todo tipo de livro e HQ, assistir filmes da década de 80 e consumir quantidades perigosas de sorvete. Atualmente, luta contra o seu arquiinimigo: a universidade.Contatos: @wickedbeatrice, beatrizlmorais@gmail.com.

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