O Filme da Minha Vida, de Selton Mello

Não sei vocês, mas sempre que me perguntam quem é sinônimo de emoção e presença no cinema brasileiro dos últimos anos, só me vem em mente uma pessoa: Selton Mello (sem desmerecer o nosso excelente grupo de atores e diretores, claro). Mas digo isso, pois Mello encabeça uma lista muito querida de papéis inesquecíveis em filmes como ”O Auto da Compadecida, O Cheiro do Ralo, Lavoura Arcaica, Meu Nome Não é Johnny e O Palhaço”. Este último dirigido pelo próprio Mello e que fez sucesso não só com o público, mas também com a crítica, em 2011.

Além de ter participado de inúmeros projetos na tevê, que vão desde novelas a seriados, o ator ainda dirigiu o longa ”Feliz Natal” e a série ”Sessão de Terapia”, do canal fechado GNT. Agora, Selton volta aos cinemas com mais um trabalho imersivo e emocionante. A película ”O Filme da Minha Vida”, adaptação do livro ‘Um Pai de Cinema’ do chileno Antônio Skármeta.

Rodada inteiramente na serra gaúcha, a produção alavanca suspiros pela sua beleza visual e contagia pela ótima trilha musical. Também é certeira em cativar o espectador pela jornada delicada que o protagonista da história segue.

O elenco é formado por atores brasileiros, entre eles, Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Ondina Clais, Bia Arantes, Martha Nowill, Rolando Boldrin, o próprio Mello e conta com a participação ilustre do ator Vincent Cassel (Cisne Negro). Também acontece um cameo interessante do autor do livro, Antônio Skármeta.

O Núcleo familiar: Nicolas (Cassel), Sofia (Clais) e o pequeno Tony

A apresentação dos personagens é conduzida através da narração do protagonista, Tony Terranova (Massaro).  Ele vive em Remanso, no Rio Grande do Sul, com os pais, Nicolas (Cassel) e Sofia (Clais). Seu pai é um francês alto, alegre e cheio de vida que veio ao Brasil para uma visita e não conseguiu ir embora, após conhecer a bela, doce e encantadora Sofia.  É o que conta Tony sempre que fala da história de amor dos pais.

Um dia o garoto decide ir para capital estudar françês e se tornar professor, mas quando retorna descobre que Nicolas deixou o Brasil e sua família sem dar explicações. Meio ao trauma, Tony começa a lecionar na escola da cidade e tem de lidar não só com as poucas experiências do alunos como a sua também.

É difícil não se emocionar com a delicadeza que a trama passa.  O roteiro desenvolve bem os conflitos apresentados. E a edição brinca com passado e futuro ao mostrar a relação de Tony e Nicolas.

Por um lado vemos um filho em busca de respostas de um pai agora ausente, por outro, um homem iniciando sua vida adulta e tendo que lidar com questões sexuais e  sentimentais.

Tony (Massaro) e Petra (Linzmeyer)

O personagem de Massaro tem uma ligação forte com a família das irmãs Madera,  Luna (Linzmeyer) e Petra (Arantes), além do irmão caçula das duas, Augusto (João Pedro). E o desfechar  do filme mostra o porquê. Com Luna e Petra, existe talvez um clima de romance e ele quase flutua quando vê as duas – uma das cenas mais belas do longa. Já para Augusto, Tony é mais que seu professor de francês e o garoto fica muito satisfeito por isso.

Quando o pai de Tony decide ir embora,  o amigo da família Paco (Mello) começa a ter um papel importante na vida do professor. E, de certa forma, o grosseirão movimenta o longa com boas pitadas de comédia junto com a turma de Augusto.  O personagem é também mais esperto do que aparenta e tem um quê de vilão, mas por bem pouco tempo.

Selton dirigindo Massaro

Sem dúvidas, o destaque para atuação no longa é de Johnny e Vincent. Pois a relação de pai e filho é muito bem trabalhada ao mesmo tempo que ambos partem em suas jornadas pessoais. Johnny é um sonhador perfeito e Vincent um bon vivant. O rumo do personagem de Cassel, na verdade, sai do trilho da ‘ética e dos bons costumes’, mas faz refletir bastante sobre a existência de ”segundas chances”. Outros dois atores que trazem efeito e causa ao filme são Rolando Boldrin e Martha Nowill. O primeiro vive o maquinista de trem, e diria eu, um poeta da vida real, Giuseppe, e a segunda vive a prostituta Camélia, aquela que realiza os sonhos dos mais inocentes jovens de Remanso.

Já Bruna e Bia são pouco aproveitadas como atrizes e mais exploradas como ‘beldades’ e não precisa muito tempo de filme para que você descubra ‘os segredos’ de cada uma. A atriz que interpreta a mãe de Tony, Ondina Clais, também não tem uma construção forte e isso a deixa pálida ali.

Algo legal da trama é como ela revive os anos 60. Temos ali as ‘maria-fumaças’, as bicicletas e motocicletas, as cartas de amor, o rádio e, claro, o cinema. Tudo se relaciona com o personagem principal e vice- versa. Aliás, ele sabe bem como fazer uma sinopse e é bonito vê-lo incentivando a mãe e as amigas irem ao cinema.

Em resumo, ‘O Filme da Minha Vida” é um trabalho admirável de Selton Mello e equipe, desde os aspectos técnicos de fotografia, enquadramento, direção de arte a montagem e também trilha sonora, tudo se encaixa e tudo tem o porquê de estar ali. Portanto, não deixe de assistir!

Torcendo para que o MINC não deixe ele de fora da lista dos selecionados para a possível ida ao #OSCAR2018.

Trailer

Ficha Técnica: O Filme da Minha Vida, 2017. Direção: Selton Mello. Roteiro: Marcelo Vindicatto e Selton Mello – baseado na obra de Antônio Skparmeta ”Um Pai de Cinema”. Elenco: Johnny Massaro, Vicent Cassel, Bruna Linzmeyer, Ondina Clais, Bia Arantes, Martha Nowill, Rolando Boldrin. Nacionalidade: Brasil. Gênero: Drama. Trilha Sonora Original:  Plínio ProfetaFigurino: Kika Lopes. Fotografia: Walter Carvalho. Montagem: Márcio Hashimoto. Direção de Arte: Cláudio Amaral PeixotoDistribuidora: Vitrine Filmes. Duração: 01h53min.

AvaliaçãoTrês  maria-fumaças  e meia (3,5/5).

03 de agosto nos cinemas!

Vejo vocês por ai!

B

Comentários
Barbara Kruczynski

Adotada pela família dos corvos, amante do som do banjo, devota de J.K.Rowling e fiel seguidora de Wes Anderson, a seu dispor ; )

  • Marina

    Ótimo!! Tentem postar sobre Bingo também, por favor!!

  • Barbara Kruczynski

    Oi, Marina. Bingo é um dos melhores filmes da temporada.Mas falei dele em outro site! De qualquer forma, não deixe de assistir e prestigiar o nosso cinema nacional. Bjão

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