BONDE DAS MARAVILHAS: Mulher Maravilha

Mulher Maravilha (Patty Jenkins, 2017) é provavelmente a adaptação de quadrinhos mais esperada desse ano. Não só por ser a primeira vez que a super-heroína é adaptada para live-action em décadas, mas também por ser o primeiro filme solo protagonizado por uma heroína dessa nova leva de adaptações cinematográficas da DC (e da Marvel). Havia muita expectativa em cima desse filme, porque ele seria uma MUDANÇA NO JOGO, independente da sua qualidade. Há um grande viés em Hollywood para histórias escritas, dirigidas e protagonizadas por homens, principalmente no gênero de Filmes de Super-Heróis, e a escolha de uma diretora vencedora do Oscar para a direção desse filme deixou os fãs animados e ansiosos para conferir o resultado.

E o resultado foi:

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Mas vamos ao que interessa: Mulher Maravilha conta a história da amazona Diana, filha de Hypólita, a Rainha das Amazonas, que cresceu entre as histórias mitológicas do seu povo – desde o fato dela ter sido moldada do barro pela sua mãe e Zeus ter lhe dado a vida, até a história da missão primordial das Amazonas no mundo, que é manter a harmonia no mundo dos homens e impedir Ares de corrompê-los com a guerra. Diana é uma criança que cresce na ilha das amazonas com todas as regalias de uma princesa, mas sonhando com a batalha. E, quando a batalha vem, quando ela finalmente conhece a Guerra, entende o quão terrível ela pode ser.


O enredo do filme proporciona uma dinâmica excelente de uma mulher que cresceu rodeada por referências femininas fortes, com um bom relacionamento com a mãe e a tia, que acaba mergulhando de cabeça num início de Século XX cheio de protocolos e papeis sociais bem definidos entre homens e mulheres. Essa “inadequação” de Diana no mundo dos homens rende cenas maravilhosas e o seu relacionamento com os homens e mulheres “comuns” ao seu redor é fantástico. Eu assistiria a mil horas das aventuras de Diana tentando entender os protocolos sociais de um mundo diferente do seu e questionando tudo ao seu redor – principalmente o motivo pelo qual mulheres não podem fazer as mesmas coisas que os homens.

"Você não decide o que eu faço."
“Você não decide o que eu faço.”

Outro ponto importantíssimo de comentar sobre o filme é o quão acertada foi a escolha de ambientá-lo na Primeira Guerra Mundial. É uma guerra que não recebe a mesma atenção cinematográfica que a sua “continuação”, a Segunda Guerra Mundial, mas que foi tão terrível quanto, ou talvez ainda mais. Foi uma guerra brutal, que aconteceu somente porque as nações estavam loucas para experimentar as novas armas que a revolução tecnológica do fim do século XIX trouxe, uma guerra que aconteceu porque homens gananciosos queriam mais território para explorar. E, no meio do caminho, milhares de soldados e civis morreram de maneira brutal, nas trincheiras, nas cidades invadidas e tomadas, em todos os fronts.

E jogar Diana, que acredita na paz, na humanidade, na harmonia, em fazer o que é certo para salvar as pessoas, no meio dessa brutalidade gera as cenas mais intensas do filme. Eu me lembrei imediatamente de uma citação que gosto muito, do livro A Guerra não tem rosto de mulher, da Svetlana Aleksiévitch:

“A guerra ‘feminina’ tem suas próprias cores, cheiros, sua iluminação e seu espaço sentimental. Suas próprias palavras. Nela, não há herois nem façanhas incríveis, há apenas pessoas ocupadas com uma tarefa desumanamente humana. E ali não sofrem apenas elas (as pessoas!), mas também a terra, os pássaros, as árvores. Todos os que vivem conosco na terra. Sofrem sem palavras, o que é ainda mais terrível”

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A guerra que Mulher Maravilha nos mostra não é a guerra gloriosa, a guerra vitoriosa, a guerra glamurizada que vemos nos filmes dirigidos e interpretados por homens. Essa guerra é feminina – é uma guerra suja, cheia de mortes, de dor, de sofrimento. Nesse ponto, a direção da Patty Jenkins se torna essencial, pela sensibilidade que usa para retratar o desespero de Diana ao não conseguir ajudar todo mundo. Você não pode salvar todo mundo. Quantas vezes nos vemos em uma situação como essa? Em que vemos as injustiças do mundo e nos sentimos impotentes? Em que nos dizem exatamente essa frase?

Talvez seja isso que torna a personagem tão poderosa, tão esperançosa. Diana é uma amazona, uma criatura que não cresceu entre os “homens”, mas consegue encarnar tão bem toda a luz do ser humano que é muito difícil não se inspirar.

Tenta me dizer que eu não posso fazer alguma coisa. Só tenta.
Tenta me dizer que eu não posso fazer alguma coisa. Só tenta.

Mas… tinha que ter um mas, né? Apesar de tudo isso, o filme escorrega um pouco no fim. Para mim, pareceu que foram dois filmes completamente diferentes que foram costurados juntos e não houve uma coesão entre as partes. Também me decepcionei um pouco com alguns personagens que não foram muito bem utilizados, mas não foi nada que comprometa radicalmente a experiência em geral – eu inclusive já vi duas vezes desde a cabine de imprensa, na terça-feira!

Ah, antes que eu esqueça, mais duas observações importantes: eu ODEIO slow-motion em geral, mas nesse filme ele foi tão bem utilizado nas batalhas que foi de tirar o fôlego. Se você tem esse receio com filmes da DC e seu slow-motion característico, não tema. Outra coisa que adorei foi a diversidade em geral. Embora não haja uma grande diversidade de mulheres depois que Diana sai de Temíscira, fato que acredito ser bem compreensivo nesse caso por ela estar numa guerra, num local não-feminino, em um mundo de homens, foi fantástico ver no background uma interpretação do Império Britânico com pessoas de diversas etnias. A gente sempre tem que lembrar que em 1914-1919 foi o auge do colonialismo britânico e o império cobria grande parte do globo, fazendo com que Londres fosse uma capital efervescente com gente de todo o lugar. Isso aparece no filme e me deixou muiiito feliz! Além disso, o grupo central da Diana é composto por um escocês com estresse pós-traumático, um turco que sonha em ser ator e um nativo-americano que teve que fugir para a Europa para não perder tudo nos Estados Unidos. Todas essas nuances são mencionadas e importam para o enredo, o que é tão legal, sabe? E aquela preocupação que a gente teve de só ter amazonas brancas FOI INFUNDADA!!!! Inclusive tem uma amazona negra que tem mais de uma fala!!!111!!!

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Enfim, talvez o filme seja o empreendimento mais bem sucedido do DCU até a data, combinando uma história cheia de esperança e fé na humanidade com uma atuação divina da Gal Gadot e uma direção excelente. A execução das cenas de luta foi excelente e toda a dinâmica de Diana conhecendo a Humanidade foi divertidíssima de assistir. Mas não é um filme perfeito, por escorregar um pouquinho no final, que acaba nos lembrando que esse filme (infelizmente) se passa no mesmo universo de Batman V Superman.

Avaliação: Quatro laços da verdade (4/5).

(eu só queria uma desculpa para usar esse gif)
(eu só queria uma desculpa para usar esse gif)
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