Nem Um Pouco Épico

TRIGGER WARNING: Abuso e Empatia

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Trigger Warning (TW, ou ‘Aviso de Gatilho’ em uma tradução livre e literal) é um pequeno aviso sobre o conteúdo de um determinado material que pode, entre outras coisas, ativar memórias e causar algum efeito de estresse pós-traumático nas pessoas, o que vai desde um pequeno desconforto até um ataque de pânico. O termo surgiu no contexto dos blogs feministas, onde muitos artigos sobre violência sexual feminina eram escritos e colocados para discussão, como uma maneira de avisar aos leitores que, caso aquilo fosse incomodá-los, havia uma oportunidade para que a pessoa não o lesse.

Esse post é sobre 13 Reasons Why e outras coisas, vai ser MUITO longo e se você não se importar em ler, talvez ele faça mais sentido do que eu pensava que faria.

Todos temos algum problema, ou em algum momento da vida passamos por alguma situação que não conseguimos lidar sozinhos. Quando se é adolescente, estes problemas parecem que vão ser eternos e consomem todo o nosso ser. É algo explicado cientificamente, e se você viu a série da Netflix, 13 Reasons Why, principalmente o especial com os produtores e atores, você sabe disso. Pode parecer algo exagerado e uma informação desnecessária, afinal, todos já foram adolescentes e “eu não passei por isso” muitas vezes vem na cabeça de algumas pessoas. Se colocar na posição de alguém em sofrimento, é ignorar completamente o que VOCÊ sentiria e o que VOCÊ faria, é parar para pensar como aquela pessoa sente e o que ela faria. A empatia é algo muito complexo e nem sempre a gente consegue por em prática, mesmo achando que estamos.

Falando de forma mais pessoal, eu tenho ansiedade. Foi diagnosticada por um psicólogo. Eu não acho que tenha ansiedade porque comprei algo pelo correio e estou esperando ansiosamente a entrega. Eu sei que tenho ansiedade porque sair de casa é algo difícil, fazer trabalho em grupo é algo muito complexo, pensar no futuro é algo que dá muito medo e não passo um dia sem algum dedo da minha mão sangrar de tanto que eu descarrego a ansiedade neles. Mas quando algo acontece e minha reação é “anormal”, muitas pessoas do meu convívio diário só pensam que sou exagerada, que o que elas querem/fazem é algo simples e que eu provavelmente sou chata demais para lidar. Não estou falando isso pensando em “hey, olha pra mim, eu tenho problemas, coitada de mim”. Não. Estou falando itso porque é a realidade que EU conheço. A falta de empatia que sinto todos os dias. Eu posso ter faltado com empatia com muitas pessoas? SIM. Todos nós deixamos passar algo que possa afetar negativamente alguém. Ninguém é perfeito, ninguém é santo.

Este post surgiu de uma conversa com a Nath sobre 13 Reasons Why. A nossa percepção da série, pela nossa discussão, está muito diferente da maioria das pessoas e a gente sentiu que precisávamos por isso em um texto público. Vocês lembram dos “20 centavos”? Aquele protesto que as pessoas transformaram em “Não é por 20 centavos” e, com o efeito borboleta, como isso mudou completamente a história do nosso país? O que eu quero dizer com isso é: a nossa percepção das situações pode mudar MUITO as consequências dela.

Mas o que isso tem a ver com 13 Reasons Why? A repercussão da série e como cada um tem uma percepção diferente da história. Passei a semana inteira vendo dois extremos: os que amaram e acharam ela extremamente necessária e o completo oposto. Por que estamos vendo tanta discussão se a série é boa ou ruim?

Nós, eu e Nath, achamos a série importante, mas como todas as coisas, não é perfeita (e tudo bem, desde que esses problemas sejam discutidos). É necessário analisar o tipo de mídia que consumimos e nesses casos, é também necessário que a gente possa tentar entender o ponto de vista de pessoas que não concordam com a gente. A Nath leu o livro e me falou algumas diferenças já que eu não li, mas a impressão que nós tivemos foi que a divulgação da série acabou transformando uma história de abuso e assédio em uma história sobre bullying.

Bullying é sério demais e tem que ser explorado de uma forma melhor pela mídia, mas 13 Reasons Why é uma série que retrata as diferentes formas de assédio e os seus efeitos, especificamente na vida de adolescentes mulheres. A mesma temática não faria sentido se estivéssemos falando de um adolescente homem hétero, por exemplo, então falar que é sobre bullying acaba diminuindo o tema.

A partir de agora vamos fazer a nossa análise da série com spoilers:

O meu maior problema com a série foi o tamanho dela. Não era preciso 13 episódios de 50 minutos para contar a história e isso prejudicou MUITO o andamento e a veracidade das coisas. Demorar mais de uma semana pra ouvir nem 6 horas de áudio é muita coisa. A ideia de aumentar a história para ter uma segunda temporada, foi algo que atrapalhou muito o andamento e o entendimento de algumas pessoas sobre a história. Eu não acho que as fitas foram para CULPAR as pessoas, elas foram para justificar a escolha dela, do jeito dela, na percepção dela. Nenhum deles teve empatia pelos sentimentos dela, assim como ela não teve forças para ir atrás de ajuda de verdade. Ter transformado a história em episódios longos, arrastados e em busca de vingança, atrapalhou muito.

A segunda coisa que mais me incomodou, como já mencionado, foi a maneira que a Netflix escolheu pra divulgar a série: como um produto que fala sobre bullying e que TODOS tem que ver. Com pitadas de piadinhas desnecessárias no twitter. Comparar as fitas com mensagem de áudio no whatsapp NÃO é legal.

Tenho comigo que a maioria das pessoas acha que a história é sobre bullying e que a Hannah se matou por causa dos “porquês” e que se eles não tivessem tratado ela mal, ela estaria viva. Para mim, não só pela série, mas pelo documentário dos produtores e atores, a série é sobre abuso sexual e a falta de apoio e credibilidade que as pessoas que sofrem abuso têm na sociedade, mas se a gente parar pra analisar, a história que a Hannah conta nas fitas é sobre o assédio, as piadas, a falta de confiança dos outros e os abusos que ela sofreu nos dois anos retratados e como eles foram destruindo ela aos poucos:

  • – A foto da calcinha dela sendo divulgada e todo mundo acreditando no que o Justin disse, sobre ela ser fácil, e indo contra ela.
  • – A lista que deu origem aos outros abusos.
  • – O aperto na bunda na fila da conveniência.
  • – O beijo no verdade ou desafio, ela não tinha ideia de que a Courtney era lésbica nem queria aquilo.
  • – A perseguição do fotógrafo e a divulgação de uma delas como vingança por ter dito que não queria sair com ele.
  • – Caras querendo sair com ela por causa do rumor que a Hannah era “fácil.”
  • – As amigas não acreditando no que a Hannah disse e ajudando a espalhar rumores sobre sua reputação.
  • – Ter presenciado o estupro de uma amiga e não conseguir reagir.
  • – O próprio estupro.

A cada acontecimento é possível notar que a Hannah fica cada vez mais impotente. Ela não acredita que tem importância para a sociedade, ela não acha que as pessoas vão acreditar nela, porque já escolheram um lado da história pra seguir, ela não se vê como alguém que tem valor. Durante a cena de estupro, ela diz que ali ela morreu e saiu do próprio corpo. Em nenhum momento, desde a divulgação da primeira foto, até a morte, ela teve apoio. Ela nunca teve alguém que acreditasse nela, alguém que fosse atrás para perguntar se ela estava bem. Ela não se matou porque fizeram aquilo com ela, ela se matou porque não tinha ninguém com ela. Aquele momento que ela fala que estava sozinha, se sentindo vazia, é o momento mais importante da série, pra mim. É ali que está o porquê.

É importante destacar que a série (e, nesse caso, também o livro) não mostra nada sobre a vida da Hannah antes dela se mudar, mas ela apresenta sinais de que não está bem mesmo antes do primeiro por quê de suas fitas. É um aspecto importante de se levar em consideração, porque a série fala muito em procurar um culpado para o que aconteceu com a Hannah, mas não menciona problemas de saúde mental, como depressão, por exemplo. Fica subentendido, mas já que estão discutindo o suicídio de maneira tão aberta, é importante mencionar que quem se suicida muitas vezes se vê num beco sem saída, sem opções de como seguir em frente e, no caso da Hannah, tudo piora muito quando começam os casos de assédio verbal e físico.

A sociedade vê vitimas de abuso sexual como culpadas pelo acontecimento. Quantas vezes você não viu algum daqueles itens que eu botei ali em cima acontecerem só etse ano e serem divulgados nas redes sociais? Quantos comentários acusando a mulher de querer aparecer, de ter provocado, de merecer vocês viram? 13 Reasons Why foi divulgado no dia 31 de março, no mesmo dia que Susllem Tonani publicou a denúncia contra os assédios de Zé Mayer. Enquanto eu escrevo este post, o segundo lugar dos assuntos do momento do twitter, há horas, é #MarcosExpulso, por causa de abuso psicológico. Quantas pessoas defendendo os dois vocês não viram no twitter ou no facebook? Quantos Marcos, Zés, Bryces, Justins vocês não veem todos os dias se dando bem na vida? Eles têm o apoio. Eles não fizeram nada de errado. Eles são instintivos. Eles são homens.

Transformar 13 Reasons Why em uma campanha somente de bullying, pra mim, é perder o principal da história, porque é uma série que fala sobre problemas que são comuns a muitas mulheres, que ficam paralisadas diante de assédio, porque sabem como a sociedade vai reagir. A capa da Veja essa semana é sobre assédio. Os comentários no facebook são desses que a gente tem vontade de vomitar, porque a maioria das pessoas não apóia a vítima que denuncia o assédio quando acontece, mas também questiona as pessoas que demoraram pra contar sobre o que aconteceu. Vi uma vez, gente falando que tal pessoa precisava superar o estupro que sofreu quando era criança, porque já fazia tempo que tinha acontecido. Quantas vezes você não viu o mesmo nos comentários de alguma notícia? Se uma adulta já tem dificuldades de denunciar assédio e abuso, porque sabe como as pessoas vão reagir (de maneira nojenta e sempre culpando a vítima), imagine para uma adolescente, que acabou de se mudar, não tem amigos, que já tinha problemas anteriores e que está sendo atacada por pessoas que ela tentou confiar?

Por que eu acho o marketing da Netflix errado? Porque não são todas as pessoas que têm que assistir essa série. Ela precisa de um trigger warning MUITO mais forte do que os avisos escritos no começo dos últimos episódios. Ela precisa ser divulgada como uma série sobre como o abuso sexual destrói a vida de alguém inocente e como a sociedade é cúmplice de cada uma dessas mortes causadas por suicídio pós abuso.  Uma pessoa que sofreu abuso não pode ir assistir esta série achando que é sobre bullying escolar e se deparar com os abusos sexuais no meio do caminho. Não são todas as pessoas que têm depressão que a série vai ajudar, porque cada um reage de um jeito diferente. É importante que isso seja notado pela Netflix e por nós, quando vamos recomendar para algum amigo. Não são todas as pessoas que vão pegar o telefone e ligar pra uma linha de ajuda. Algumas vão ver, se identificar e sofrer mais do que já estão sofrendo, porque elas podem estar em uma situação parecida com a da Hannah: achando que estão sozinhas no mundo.

E isso é mais importante do que divulgar uma série para ganhar dinheiro. E é por isso que eu acho que a Netflix está errada no marketing, assim como estamos errados em falar para todos os colegas assistirem porque é uma série muito boa.

Se você leu até aqui, obrigada pela paciência e espero que entenda o que a gente quis dizer. E eu espero que entenda que não são todos que vão achar conforto na série. Não são todos que vão ver a história e perceber que tem que mudar o jeito de tratar as pessoas. Muita gente nem tá parando pra pensar nas coisas que já fez contra alguém.

Eu sinceramente espero que as pessoas assistam e vejam que o que a gente tem que levar desta série é que cada pessoa tem um jeito diferente de lidar com as situações da vida. Todo mundo tem algum sofrimento e a gente não precisa saber deles para tratar alguém bem. Não custa nada parar e demonstrar que aquela pessoa não está sozinha. Ninguém se afasta sem motivo de outra pessoa. Às vezes as pessoas se afastam de outra justamente por amarem demais e se acharem um peso, um problema a mais ou por acharem que aquela pessoa nunca poderia amá-la de verdade, afinal, ela não vale nada. Se colocar no lugar de quem é “estranho”, e perceber essas coisas e tentar ajudar, esta é a ideia que eu peguei da série e que espero que as pessoas peguem. Vamos deixar de ser “porquês” sem perceber.

Se você está se sentindo vazio e sem valor, por favor, converse com alguém.

Você NUNCA está sozinho.

http://www.cvv.org.br/ ou disque 141 no seu telefone.

Se você sofreu algum tipo de abuso sexual, por favor, DENUNCIE.

disque 100 no seu telefone.

Se você conhece alguma vítima, por favor, apoie essa pessoa.

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About Kah

Feliz, livre, confusa e solitária ao mesmo tempo. Sim, isso é uma música da Taylor Swift.

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