Power Rangers, De Dean Israelite

 

Vamos começar sendo bem sinceros aqui: a gente não estava esperando nada por esse filme. Tá, não posso falar pelo resto do mundo, mas eu não estava esperando nada por Power Rangers. No máximo, um filme galhofa mal executado com efeitos especiais ruins, uniformes que mais parecem armaduras saídas de um sonho adolescente – principalmente as femininas, com aqueles seios marcados que ainda me incomodam – e uma tentativa de fazer as coisas soarem épicas com Power do Kanye West tocando ao fundo. Não me levem a mal: a DC já me deixou calejado de ter expectativas depois de Esquadrão Suicida, e hoje em dia prefiro voltar a ser o pessimista que sempre fui.

Meu irmão comprou ingressos na pré-estreia e eu estava com aquele sentimento de ISSO VAI SER TÃO RUIM, QUERO ASSISTIR PARA DAR UMAS RISADAS!, que foi se sustentando até que as primeiras críticas começaram a sair e as pessoas começaram a falar bem desse filme. Não falar bem do tipo “esse filme é tão absurdo e tão ruim que acaba sendo bom”, mas a falar de fato que o filme possuía qualidades no roteiro, na construção dos personagens, no andamento da trama e nas referências à mitologia dos adolescentes que salvavam a Alameda dos Anjos uma vez por semana. Então esta praga de expectativa começou a voltar a residir em mim, e fui ao cinema com a maior empolgação, cantarolando go go power rangers abraçado com a minha cabeça de ranger vermelho cheia de pipoca – que meu irmão me obrigou a comprar para levar para casa, sabe-se lá porquê.

E não é que o filme é excelente?!

Dirigido pelo sul-africano Dean Israelite, este filme tem duas missões: a de apresentar nossos queridos Guardas do Poder a uma geração mais nova e prestar homenagem à geração que cresceu roubando fivelas de cintos dos pais e gritando MASTODONTE, PTERODÁCTILO, TRICERÁTOPS, TIGRE-DENTE-DE-SABRE, TIRANOSSAURO antes de começar a se estapear em churrascos de família ou em uma tarde entediante de quarta-feira. E, nesse sentido, o filme é muito competente: mesmo em apenas duas horas de duração, conseguimos nos conectar com cada um dos cinco protagonistas, entender suas histórias e ter um panorama tridimensional de suas vidas. O próprio enredo é muito inteligente neste ponto, já que esses cinco adolescentes – que só se conhecem de vista pelos corredores da escola – precisam se conectar para que seus poderes sejam ativados. É uma excelente desculpa para que eles possam criar laços e explorar um pouco de suas histórias, o que não torna o andamento da trama maçante ou desnecessária.

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E é exatamente na química entre os cinco personagens e na forma como cada um deles é construído que o filme tem seu ponto mais positivo: estes são adolescentes reais e problemáticos, que podem muito bem ser apontados como pessoas ruins, mas que, no fim das contas, merecem ser os Power Rangers. Há uma nebulosidade maravilhosa em Jason e Kimberly, por exemplo, que são pessoas boas que já fizeram coisas ruins, seja porque estão em fase de descoberta, seja porque simplesmente não tomaram boas decisões; temos um Billy autista – a estrela do filme, sem sombra de dúvidas, com todas as suas peculiaridades e a sua falta de entendimento de piadas ou ironia –; temos um Zack que parece um completo inconsequente, mas que tem uma relação familiar muito bonita; e temos uma Trini enraivecida pelas expectativas que sua família tem sobre sua vida e como ela não consegue lidar muito bem com elas.

Outras coisas funcionam muito bem: o enredo, em si, é básico, mas interessante, sobre uma vilã que quer conquistar o universo porque está com vontade e é isso aí. A história utiliza elementos da mitologia da série original, como o Cristal Zeo, e acrescenta outros que se tornam muito bons dentro do contexto do filme, como a relação entre Zordon e Rita Repulsa e como os dois já se relacionavam no passado – que eu, sinceramente, não sei se faz parte da história original ou se foi uma adaptação para o novo filme. Zordon, inclusive, não é um mentor tão consistente ou zeloso; na verdade, está longe da figura paterna representada na série original. Assim como os Rangers, ele tem medo, é desconfiado e não acredita, à princípio, que aquele grupo de adolescentes possa salvar o Universo. Ele também passa por um processo de aprendizagem, mesmo que tenha, sei lá, uns cinquenta bilhões de anos.

As cenas de ação são maravilhosas, mesmo que não sejam primorosas. Ver a galera lutando contra os bonecos de massa e ver os Zords lutando contra Goldar valem o ingresso, se você está interessado só nas explosões e não está nem aí para o enredo. Rita Repulsa – em uma interpretação caricata de Elizabeth Banks – é uma vilã interessante, mas sem muito aprofundamento, e acho que a grande falha do filme é a de não ter explorado muito ela. Mas eu nem reclamo, porque esse filme tem tantas coisas positivas que uma coisinha negativa não me deixa triste.

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Sobre as referências: AI MEU DEUS, QUANTAS REFERÊNCIAS. O FANSERVICE FOI ÓTIMO, MUITO OBRIGADO DEAN ISRAELITE. Ver a Rita gritando FAÇA O MEU MONSTRO CRESCEEEEER, ver o Zordon falar “É hora de morfar!” ou ouvir o Alpha falando “AI AI AI AI AI” valeram ainda mais a experiência de assistir o filme. Ainda tem outras pequenas pinceladas mais sutis de referências, como o ponto fraco dos bonecos de massa, uma referência à lua, ver os lindos Jason David Frank e a Amy Jo Johnson em uma cenazinha e um cliffhanger QUE ME DEIXOU MALUCO na cena pós-créditos! Tudo isso tornou a experiência nostálgica ainda maior.

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Saí do cinema completamente satisfeito com o filme. Pensei que ele ia ser tão ruim quanto Esquadrão Suicida ou Batman vs. Superman, mas acho que vou deixar a falta de expectativas só para os filmes da DC mesmo, porque meus cinco queridos da Alameda dos Anjos não me decepcionaram. Espero que o filme consiga as sequências (Dean Israelite tem pelo menos mais cinco filmes planejados!!!) e que todas sejam tão boas ou interessantes quanto essa primeira história.

Trailer

Avaliação: Quatro bonecos de massa e meio (4,5/5)

Comentários
Lucas

Um bibliotecário que só sabe organizar a bagunça dos outros. Um comprador compulsivo de livros que viu nos ebooks uma maneira de encontrar espaço físico novamente em sua casa. Um consumidor ávido de música e uma das pessoas mais irritadas quando o termômetro marca mais de 25 graus celsius. Pode ser encontrado no twitter: @lucasdlrocha ou pelo email lucasdlrocha@gmail.com

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