O Cidadão Incomum, de Pedro Ivo

15203226_1206987516061091_2006007959383776375_nEra pra ser uma noite comum na vida de Caliel quando ele descobre que pode voar. Não há respostas, e as perguntas de sempre deixam de fazer sentido. Em velocidade estendida, perto da Lua, ele contempla a cidade que se move em três dimensões. Seu corpo, no entanto, flutua à revelia do tempo – ao menos, de como o conhecemos.

As cores estão diferentes. O clima. O cheiro. Criaturas rastejam pelas sombras do centro da cidade. O sangue circula em câmera lenta pelas veias de Caliel, mas não se trata apenas de poderes e transformações físicas, não, isso seria simplificar essa história. É preciso olhar mais de perto, para o lado de dentro, onde se constrói um homem. Só assim é possível ouvir a dor e a angústia de Caliel em seus passos quebrados pela metrópole.

E aí, beleza? Aqui é a Leticia, e para a minha primeira resenha aqui no NUPE, vou falar sobre o livro O Cidadão Incomum, do Pedro Ivo, que acabou de ser lançado pela Conrad Editora nesta edição toda bonitona, olha só:

O Cidadão Incomum

o meu ainda é autografado <3
o meu ainda é autografado <3

Imagine você, uma pessoa normal, vivendo sua pacata vida, com todas aquelas coisinhas que envolvem ser adulto: descolar trabalho, pagar boleto, adiar consultas médicas e torcer pra não morrer, enfim. Até que, um dia, você descobre que tem poderes. Este parece ser o mote de qualquer história de super-herói, certo? Então, o que torna esse cidadão incomum tão… incomum?

Super-girl

Bem, na verdade, Caliel é um cara bem comum. Jovem (mas nem tanto), que pula de trabalho em trabalho (nenhum deles fixo) e não sabe muito bem o que quer da vida. Assim como vários new-adults por aí.

“Tinha pra mim que viver resumia-se a quase morrer todos os dias. Lidar com o fim das coisas. Eu quase morria quando algum relacionamento acabava. Quase morria quando não conseguia atingir as expectativas do meu diretor ou do meu chefe. Quase morri quatro vezes quando repeti de ano no colégio. E existe coisa mais próxima da morte do que o sono? Eu quase morria todos os dias. Nunca tinha plena segurança de que iria acordar sendo a mesma pessoa do dia anterior. Na maioria das vezes, acordar era um parto.” (p. 14)

Been there.

A gente não consegue ver muito da personalidade dele no início do livro, e eu acho que o autor fez isso de propósito – é absurdamente fácil se identificar com um protagonista que se apresenta como uma folha em branco. E isso dá um potencial absurdo para que a gente projete nossas expectativas nele.

Além do mais, a história se passa bem no meio da pauliceia desvairada.

Depois da descoberta dos poderes – que incluem voar, perceber os sentimentos de outras pessoas e emanar uma luz brilhante das mãos…

booyah
booyah

… Caliel também precisa descobrir o que fazer com eles. Então, ele decide fazer uso de todo o seu potencial para o bem: decide se tornar um herói. Só que heróis também cometem erros.

Essa é a premissa d’O Cidadão Incomum: o surgimento de um super-herói paulistano, a partir de um cara normal, e todas as tretas que aparecerão em seu caminho. Mas nenhum super-herói está completo sem o seu sidekick, que neste caso é o melhor amigo do Caliel, Eder. Que, por sinal, é meu personagem preferido do livro, justamente por ele ser mais que só um sidekick engraçadinho. Sim, tudo bem, todo mundo tem aquele amigo meio nerd que faz piada de tudo, e Eder – Ed, para os íntimos, rs – é o personagem que mais me fez rir lendo o livro. Mas ele também é a voz da razão da dupla, que tenta colocar um pouco de juízo na cabeça do Caliel, apesar de ajudá-lo em quase todas as suas loucuras. É um amigo leal, embora tenha seus defeitos, que acaba tendo um papel importante no desenrolar dos eventos.

E que eventos, senhoras e senhores! As cenas de ação são super bem escritas, de ritmo ágil, com a dose certa de tensão. Tem pancadaria, nerdices e dilemas morais – tudo que um livro de super-herói de respeito deve conter. Na verdade, a história poderia ser muito bem adaptada para os quadrinhos, por exemplo. O que faz todo o sentido, afinal o Pedro Ivo também é cartunista.

O projeto editorial do livro é bem legal – a capa mostra o traje de super-herói de Caliel, e as aberturas de capítulos tem fotografias de São Paulo. A única coisa que me incomodou foi o papel branco, mas é porque estou acostumada a ler livros com papel Pólen, mais amarelado, que incomoda menos os olhos (especialmente lendo no sol). Mas, graficamente falando, o papel branco faz mais sentido com relação ao design do livro.

abertura dos capítulos
abertura dos capítulos

 

Caliel e seu traje fodástico
Caliel e seu traje fodástico
o papel branco dificultou um pouco a leitura
o papel branco dificultou um pouco a leitura

 

Confiram o book trailer!

Número de páginas: 240

Preço de capa: R$ 34,90

Classificação final: 5 grandes poderes que trazem consigo… grandes tretas

Comentários
Leticia Zumaeta

23 anos, escritora, leitora voraz, lufana, feminista e vinda diretamente da terra do dendê

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *