Estrelas Além do Tempo

Sabe aquele dia que você está em casa sem fazer nadica de nada e fala, “ah, vou ver um filme”. Seu próximo passo é, claro, buscar algo que lhe chame atenção. E, por acaso, você já viu alguma produção que trouxesse mulheres negras como o foco e, não só isso, mas que ainda questionasse o porquê da humanidade ainda não perceber que sua evolução acontece quando ela decide dar as mãos e caminhar lado a lado, sem distinção de gênero, cor ou classe? Uma película com esta proposta lhe chamaria atenção?

Presume-se que uma parcela significante de pessoas ficariam interessadíssimas.

Pois bem, adaptado a partir do livro ”Hidden Figures: The Story of the African-American Women Who Helped Win the Space Race”, escrito por Margot Lee Shetterly, o longa Estrelas Além do Tempo expõe, com muita lucidez, o trabalho feito por uma equipe de cientistas, formada por mulheres afro-americanas, ao ajudar o homem, durante a Guerra Fria, a chegar ao espaço. Mais precisamente ajudar a NASA, agência espacial estadounidense, a ganhar a corrida e passar a frente da agência russa.

O longa tem direção de Theodore Melfi (Um Santo Vizinho), conta com Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe nos papéis principais, e aparece listado entre os indicados ao Oscar 2017 em três categorias: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz Coadjuvante para Spencer. Ademais, levou o prêmio de Melhor Performance de um Elenco em um Longa-Metragem no Sag Awards 2017 (nos últimos anos, todos as produções que ganharam esta categoria no Screen Actors Guild também foram vencedoras do Oscar de Melhor FIlme).

Estrelas Além do Tempo estreia hoje em circuito nacional.

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O roteiro de Melfi e Schroeder adapta para a telona uma história que poucas pessoas tinham conhecimento de sua existência. Com certeza, um relato necessário para a história norte-americana sobre a força cruel do racismo nos anos 60 e, mais que isso, sobre como tantas barreiras e dificuldades impostas naquela época serviram para impulsionar mulheres a mudarem os seus destinos.

Bem, quando a tela se abre, a narrativa conduz o espectador pelos primeiros passos da pequena Katherine G. Johnson (Henson), no ambiente escolar. Ali, a pequerrucha já deixava a todos embasbacados quando se dirigia ao quadro para responder questões complexas de matemática. Sem demora, a câmera corta para o futuro e reavistamos Kaherine, agora adulta e acompanhada de duas outras mulheres. A esperta Dorothy Vaughan (Spencer) e também a atrevida Mary Jackson (Monáe). Um problema no carro que as levava ao trabalho as faz ficar à deriva na estrada, e logo são abordadas por um policial – daqueles que esbanjam o teor racista da época e se revelam incrédulos que uma agência espacial contratasse mulheres, ainda mulheres negras, para trabalhar em seus departamentos. Dali, a película inicia a tarefa de destrinchar o que cada uma faz e seguir um pouco de suas vidas. Katherine é a expert em matemática, Dorothy é a líder da equipe e Mary Jackson é a interessada em engenharia. O conflito de cada uma das personagens é criado a partir de seus engajamentos na sua área de trabalho. Katherine recebe a missão de equacionar os cálculos da trajetória orbital do voo dos astronautas e tem de lidar tanto com a desvalorização do sexo feminino por parte dos colegas, todos homens, como o preconceito pela cor de sua pele. Dorothy, como líder, se vê em plenas condições de assumir um cargo que já acredita ocupar e Mary Jackson se depara com a força da segregação racial quando precisa atender classes para se tornar engenheira, porém as mesmas são lecionadas apenas em escola para brancos.

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As protagonistas da trama, Katherine (Henson), Mary Jackson (Monáe) e Dorothy (Spencer).

O filme lida muito bem com as questões que levanta e o que acontece convenientemente não atrapalha sua reflexão. Ele tem um raciocínio sagaz e propõe mais do que se espera. Diz-se isto, pois em muitas das cenas há sim o branco praticando atos medíocres de racismo, porém, os negros não revidam na mesma moeda. Pelo contrário, sabem seu valor e o mostram, o que deixa tanto homens quanto mulheres brancas engolindo seu próprio veneno.

Pela folheada que dei no livro de Margot, vi que seus relatos não abrangem somente a história das mulheres negras ali. Mas também a das mulheres brancas. O roteiro peca nesse aspecto, pois inclui umas e exclui outras. Assim, de certa maneira, se mostra racista. No entanto, ao fazer isto ele também puxa o debate de que mulheres têm preconceito com a cor da pele de outras mulheres. Mas ainda assim, ele sugere que a união de brancos e negros é frutífera e necessária. Há cenas em que Dusnt e Spencer representam esse contexto com muito brilhantismo. Ademais, vemos Katherine apresentar seu relatório sobre o voo orbital de John Glenn (o talentoso e gaterrimo Glen Powell), e tanto Gleen como o diretor Al Harrison  (Kevin Costner), dão voz ao seu potencial. Mesmo que o interesse amoroso da moça tenha outro pensamento…

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“Eles deixam mulheres cuidarem desse tipo de co–“

Mahershala Ali, interpreta o pretendente de Katherine (Henson), o coronel Jim, mas também desliza quando o assunto é igualdade dos sexos

Melfi dirige seu elenco com precisão e consegue extrair dos atores uma interpretação viva e real. Aliás, sua condução é clara e não usa a mão de muitos adereços para vitimizar os personagens. Na verdade, ele consegue captar muito bem a força deles. Seus takes são pontuais e prendem o espectador.

Esse elenco é mágico e tem uma força muita natural. Taraji é magnânima em papéis onde é a mulher poderosa da área. Seu papel na série de tevê Empire taí para não me deixar mentir, mas aqui ela interpreta uma mulher muito mais inteligente do que poderosa. Octavia Spencer já se mostrou uma excelente atriz em milhares de filmes e foi indicada ao Oscar, todavia já tem um em sua instante por seu papel no emocionante Histórias Cruzadas‘(2011) e Janelle Monáe, que é cantora e estreia nos cinemas, tanto aqui como no também prestigiado Moonlight‘ dando um show de interpretação. Há destaque no filme também para Kevin Costner, Jim Parsons, Glen Powell e Kirsten Dusnt. Todos eles interpretam personagens que trabalham na NASA. Costner vive o diretor do programa espacial, Parsons é um dos cientistas responsáveis pela equação da trajetória dos astronautas, Powell vive o astronauta John Gleen e Dusnt interpreta a responsável por passar missões ao grupo de Dorothy.

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“Se você fosse um homem branco, você desejaria ser uma engenheira?”
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“Eu não precisaria desejar, eu já seria uma”

Mary Jackson (Monáe) não tem papas na língua para dizer ao supervisor o que pensa.

A película é embalada pela trilha sonora de um trio espetacular Hans Zimmer, Pharrel Williams e Benjamin Wallfish. Juntos eles formam uma sinfonia linda, mas é possível perceber a parcela de contribuição de cada um. Williams assina ainda a seleção de músicas que aparecem durante o filme.

Os figurinos escolhidos por Renee Ehrlich Kalfus é adequado ao mostrar uma moda sessentista e cheia de classe. Cada uma das três personagens, Katherine, Dorothy e Mary Jackson, ganham um guarda-roupa que define suas características, seja a classe, ou a força ou ainda a ambição que elas mostram ter. Mandy Walker apresenta mudanças plausíveis na fotografia dos ambientes. Mostra a frieza e o calor humano destacados pela segregação racial de um jeito bem empregado. O escritório da NASA, por exemplo, tem tom mais sóbrio e cinza já a sala onde a equipe de Dorothy trabalha vem em tons amadeirados e cores mais quentes. A edição acertada da produção é de Peter Teschner.

Hidden Figures, nome original do filme, já faturou cerca de 106.800.960 milhões de dólares nas bilheiras norte-americanas e tem competência o suficiente para agradar o público ao redor do globo.

Trailer

Ficha Técnica: Hidden Figures, 2016. Direção: Theodore Melfi. Roteiro: Alisson Shroeder e Theodore Melfi – Baseado no livro ”Hidden Figures: The Story of the African-American Women Who Helped Win the Space Race” por Margot Lee Shetterly. Elenco: Taraji P. Henson. Octavia Spencer, Janelle Monáe, Mahershala Ali, Aldis Hodge, Lydia Jewett, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Kimberly Quinn, Glen Powell. Nacionalidade: Eua. Gênero: Biografia, Drama. Trilha Sonora Original: Hans Zimmer, Pharrel Williams e Benjamin Wallfish. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Fotografia: Mandy Walker. Edição: Peter Teschner. Distribuidora: Fox Film do Brasil. Duração: 02h07min.

Avaliação: Quatro voos magnânimos ao redor do globo (4/5).

Hoje nos cinemas!

Vejo vocês por ai!

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B

Comentários
Barbara Kruczynski

Adotada pela família dos corvos, amante do som do banjo, devota de J.K.Rowling e fiel seguidora de Wes Anderson, a seu dispor ; )

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