Junho especial: Contos NUPEanos – “Conexões”

Hey, gente! Hoje trazemos mais um conto no mês de junho especial de contos no NUPE!

Se você não sabe muito bem o que está acontecendo, resolvemos convidar cinco autores para escreverem sobre: Relacionamentos. Isso mesmo, aberto assim. E fugindo ao sentido clássico da palavra e do imaginário homem-mulher-cis-hétero-branco-padrão-humano sempre que possível. Porque acreditamos que não só relacionamentos românticos clássicos como namoros/ casamentos/ coisas-com-pessoas/ etc são importantes e merecem ser celebrados nas nossas vidas. No final do mês vamos (tentar!) lançar um e-book com todas as histórias reunidas pra você que tem preguiça de ler no blog quer guardar essas histórias pertinho do seu coração.

gg

A Lavínia Rocha e Alliah já estiveram por aqui e Fábio Kabral e Vitor Castrillo ainda vêm por aí, mas hoje Sofia Soter nos traz uma história delicada e arrebatadora sobre as coisas que toda adolescente deveria saber, mas que ninguém nos conta.

 

Conexões

Sofia Soter

Já se conheciam há alguns anos quando ela teve a primeira epifania. Era a tarde de uma quarta passada vendo Netflix, e estavam apoiadas uma na outra na cama para dividirem melhor o computador. Cher Horowitz declarou estar majorly, totally butt-crazy in love with Josh e de repente o mundo girou. Ela se levantou, correu para o banheiro e botou a pizza e as descobertas para fora em uma contração única do estômago.

Por que ninguém tinha dito para ela que isso era uma possibilidade? Por que ninguém tinha dito que procurar um garoto que fizesse você se sentir assim não era exatamente o caminho? Por que ninguém tinha explicando que aqueles filmes românticos eram todos uma mentira, que você namorava caras e eles até eram legais, mas que o coração dava voltas por sua melhor amiga?

Era isso, não era? Todo mundo sabia que esses filmes eram um mito, todo mundo sabia esse segredo, um desses segredos que compõem o ser-garota-adolescente, que ninguém explica ou passa adiante, mas que todas parecem descobrir mesmo assim – que nem como amarrar o cabelo comprido em um coque no meio da aula, ou saber o que era ou não “coisa de garota”, ou reagir do jeito certo a um elogio, do jeito que faz os caras sorrirem pra você e não te olharem estranho. Que nem sexo, que era ok, era legal até, mas suado e rápido e cansativo, e que todo mundo dizia que era incrível; daquilo ela tinha certeza, tinha corrido para o Google naquela primeira noite para confirmar que esse suposto romantismo do sexo era um mito.

Mas naquela noite não tinha comentado nada sobre suas descobertas com ninguém (a mensagem para as amigas foi cheia de aparente empolgação e o nível apropriado de vergonha, o roteiro que ela já tinha visto as outras seguirem), da mesma forma como não comentaria agora sobre namorados e melhores amigas e essa ficção – a pior daqueles filmes todos. Afinal, a regra principal era não mencionar os segredos, não perguntar para ninguém, o maior faux pas possível para uma garota adolescente.

***

A segunda epifania veio um ano depois, em uma festa. Era o último ano de colégio, elas estavam bebendo um pouco-muito, doses de quem só conhece a vodka mais barata do mercado e nunca pediu uma bebida de verdade no bar. Então elas estavam bebendo e dançando, mesmo quase sem música porque o dono da casa ficava sempre paranoico quando fumava e tinha certeza de que som alto levaria os vizinhos a chamarem a polícia.

Mesmo assim, dançavam. Um pouco-muito perto, distâncias de quem bebe vodka barata e dança sem música e gosta da proximidade, do toque, do calor. Uma mão na sua cintura e a sala rodou, a outra mão no outro lado e as luzes se apagaram, o rosto tão perto e um beijo molhado e bagunçado e confuso – e o chão desapareceu, a música pareceu aumentar, o mundo sumiu, todos os clichês daqueles filmes, todas aquelas ficções. Segundos depois, o afastamento, um riso constrangido, e continuaram a dançar, os amigos rindo um pouco, fazendo piadinhas, esquecendo em dez minutos.

A terceira e a quarta epifanias vieram nos dias seguintes: o namorado dizendo que tudo bem, que garotas não contam, mais um segredo que todo mundo conhece, mas não explica; a justificativa muito racional e sensata, rabiscada e arrancada do canto do caderno na aula de geografia, que “não significa nada, é só o fim do colégio, é só o medo de nos afastarmos quando não estivermos mais ao lado uma da outra na sala todos os dias, é só o medo do futuro”. Ela achou razoável, compreensível, racional. Pareceu verdade, escrito com tanta convicção, tão ensaiado e pensado.

Continuou parecendo verdade nas próximas sete vezes em que algo aconteceu, dois beijos dançando em festas, três mais-que-beijos em banheiros em festas, dois bem-mais-que-beijos depois das festas, sem música e sem gente ao redor. Ela não sabia que a regra mudava a partir da oitava vez (mais uma dessas coisas que todos devem saber e nunca dizem, mais um segredo), que na oitava ela ouviria “acho que a gente devia parar” e “eu não sou, sabe, assim, eu não gosto assim dessas coisas” e “não é como se você fosse, sabe, assim, né? Você também não gosta dessas coisas”, que na oitava vez garotas passavam a contar e o namorado dava ultimatos.

***

O professor de história estava entregando as últimas provas enquanto ela abria o caderno para anotar lições mais importantes do que a matéria do vestibular, tentar fazer sentidos delas.

Uma lista de epifanias, de segredos, dos conhecimentos necessários para ser uma garota adolescente, das etapas que passo a passo levariam ao crescimento, das informações que tinha recebido do namorado, das amigas, dos sussurros no corredor. Se perguntou se todas as garotas da sala faziam o mesmo, se todas escondiam uma lista no meio do caderno, se todas precisavam estudar essas lições com o mesmo afinco, se todas erravam como ela.

Chegou ao final da lista, releu, rasgou a folha, amassou e escondeu no fundo da mochila. Mais tarde diria que o fez por perceber o absurdo de precisar estudar para ser quem era, mas, na hora, foi por vergonha, por medo da colega sentada atrás perceber o que era e rir dela, por medo de esquecer o papel ali dentro, emprestar o caderno para um amigo e ver seu segredo escancarado.

Encarou a folha em branco seguinte do caderno, a prova que o professor devolvera, o quadro negro, se perguntando se dava tempo de copiar alguma coisa da correção, de entender o que errara, de justificar a nota baixa para os pais ou encontrar uma desculpa para chorar uns pontinhos a mais. História, pelo menos, ela tinha certeza que o resto da turma também precisava estudar, copiar com afinco o que era dito, marcar as partes importantes do livro didático até páginas inteiras serem manchas amarelas. “HISTÓRIA: CONEXÕES”, gritava a capa do livro sobre a mesa. Conexões, conexões, conexões, todas elas entre séculos passados, nenhuma que ajudasse a resolver suas dúvidas.

***

As coisas continuavam (quase) como antes das epifanias.

A resposta certa para o ultimato do namorado era clara (“sim, claro, aquela foi a última vez, prometo, você sabe que eu te amo”), qualquer outra resposta significando coisas demais, mesmo que a decisão de a proferir tenha sido mais difícil, mesmo que os sussurros bêbados e cruéis de “era assim que ela fazia?” enquanto ele empurrava a mão entre suas pernas a deixassem desconfortável, mesmo que ele olhasse desconfiado toda vez que ela elogiasse alguma outra amiga.

A resposta certa para as dúvidas e angústias da amiga eram claras também (“não, não, a gente só tava muito bêbada, é normal fazer essas coisas de vez em quando, eu li na internet, e agora a gente tirou isso do sistema e tá tudo bem”), qualquer outra resposta abrindo portas impossíveis de fechar, mesmo que sua voz soasse exageradamente aguda e seu sorriso fosse obviamente falso, mesmo que elas mantivessem agora uma distância segura quando no sofá vendo séries, mesmo que fingissem não sentir a contração tensa do músculo sob qualquer mínimo toque, mesmo que as mãos se abrissem e fechassem como se não soubessem o que fazer de si sem poder tocar a outra.

Era o preço a pagar, a consequência óbvia e direta de sua transgressão, da violação do código implícito das relações humanas adolescentes, mesmo que ela não o soubesse antes. Qualquer outra resposta seria reconhecer sua estranheza, admitir seu fracasso nessa tentativa de normalidade, confessar que era só uma tentativa.

Mas o conhecimento das epifanias ainda a perseguia, mesmo que amassado e empurrado para o fundo da memória, como seu registro físico no fundo da mochila. Ela nunca mais relera suas anotações depois daquela aula de história, mas não conseguia se convencer a jogar fora a bolinha de papel e o choque elétrico de memória indesejada que ele transmitia ao mínimo toque. Passava o dia funcionando normalmente, seguindo as regras que já conhecia, fingindo que nada mudara, aceitando suas pequenas punições cotidianas. À noite, ao preparar a mochila para o dia seguinte de aulas, pegava a bolinha de papel, mirava na direção da lata de lixo, desistia, começava a desamassá-la, desistia, a segurava nas mãos por um, dois, cinco, dez minutos, as lembranças voltando uma a uma com clareza devastadora, desistia de tomar decisões, deixava-a cair de volta na bagunça da bolsa.

E de novo. E de novo.

***

Anos depois, contaria essa história com certa dose de humor e autodepreciação em mesas de bar, com seriedade em conversas na internet, com vulnerabilidade sincera entre lençóis, ao lado de mulheres que também sentiam ter perdido as aulas de como ser uma garota adolescente, ao lado de mulheres que fingiam melhor do que ela, ao lado até de uma das garotas com quem ela estudara, na época uma das aparentes campeãs no torneio diário da adolescência, hoje com inseguranças escorrendo pelos poros. Contaria essa história e ouviria tantas outras iguais, parecidas, inteiramente diferentes, seria tomada por uma nova epifania, que não entraria nem para a lista já perdida: o reconhecimento de que todo mundo estava só tateando e tentando encontrar os limites, sem segredos ou regras desconhecidas.

***

Mas ainda estamos na primeira dezena de epifanias, as que ainda cabem em uma lista, recitadas diariamente como um mantra. A lista virara um gráfico imaginário, conexões, como no livro de história, setas apontando contradições e consequências, indicando prioridades; equações mentais com incógnitas demais, e ela nunca fora boa com sistemas, então o resultado era fracionado e incompleto, que nem os que entregava na prova de álgebra torcendo para o professor pontuar pelo raciocínio.

A expectativa era sobreviver no marasmo da aparente normalidade até que o ano acabasse e torcer para que a formatura, o verão e a faculdade trouxessem as epifanias finais, as soluções para os problemas, o valor de x e y e z, como todos os filmes adolescentes que devorava em busca de pistas prometiam.

***

Chegou o final do ano, passaram as últimas provas, os primeiros vestibulares, quase dois anos desde a fatídica tarde de quarta da primeira epifania e alguns meses desde a última, o ritmo de normalidade finalmente restabelecido, ou pelo menos disfarçado, enfeitado com as emoções de fim de ano, com os anúncios diários dos professores e da comissão de formatura.

Ela já tinha um vestido, longo, simples, azul escuro, e os sapatos combinando, de salto baixo. Já trocara seus convites com amigos de outros colégios, apesar da total falta de vontade de frequentar aquelas outras festas. O dia chegou arrastando o peso das expectativas, acompanhado de uma montagem mental de memórias reais e cenas de cinema em looping. O celular apitando sem parar com mensagens empolgadas e fotos de vestidos e penteados e maquiagens, o calor do secador perto demais na cabeça, a exasperação de sua mãe com a dificuldade em passar maquiagem em uma filha que não parava de se mexer para olhar o telefone, um ânimo misturado em medo.

Foram juntos, rachando o táxi, ela e o namorado, e a amiga e uma outra amiga, qualquer possível tensão com o passado dissipada pelas especulações sobre a festa, pelas fofocas sobre gente que ela nem conhecia direito, por “você soube que…” e “será que fulano…?”. As expectativas pareciam corresponder à realidade, as primeiras horas da festa ocupadas por música alta, bebida, abraços apertados entre quase estranhos, confissões insípidas e desculpas vazias por todos os lados, da pia do banheiro ao meio da pista, um clima geral de superação, confraternização, pânico e esperança.

E um pouco-muito de álcool. Aquele mesmo pouco-muito conhecido, repetido, habitual, aquele mesmo pouco-muito que conduzia a caminhos familiares riscados com X vermelho nos gráficos mentais.

Foi assim que se encontraram, as duas, dançando juntas, dessa vez uma música alta de verdade, de fazer tremer as paredes, dessa vez esmagadas entre gente, tanta gente, dessa vez sem conseguir cantar ou falar. Mas o caminho continuava o mesmo, o pouco-muito perto mais para muito do que para pouco, as mãos na cintura, uma de cada vez, a vertigem, a câmera lenta, o beijo tão menos bagunçado, tão menos molhado, tão igualmente confuso.

Corta. Fim do filme. Correm os créditos, o final feliz consumado, a plateia sai sorrindo, aliviada.

Mas o beijo continua depois dos créditos, depois que a plateia já está comendo batata frita na lanchonete ao lado do cinema. O beijo continua, o beijo acaba, as consequências acontecem, tudo que o filme não mostra.

O beijo acabou como o primeiro: o afastamento, um riso constrangido. Mas o riso agora soava falso, tão diferente, e com ele veio um baque, a queda, o final inevitável da vertigem, um choque tão grande com o retorno àquele salão cheio de gente que ela ficou desnorteada, se perguntou por um instante o que fazia ali, quem eram aquelas pessoas, que música insuportável era aquela que ela ainda estava dançando – já sozinha. A confusão não durou mais do que dois segundos, a realidade voltando, os instantes depois de um sonho em que o que aconteceu foge, mesmo que o fantasma da sensação continue.

Veio então a última epifania, com ainda mais clareza do que a primeira, todos aqueles meses atrás, uma certeza tão forte, tão poderosa, tão profundamente verdadeira que, em vez de levá-la ao chão ou à náusea, a tornou sóbria de repente. As peças do quebra-cabeça se encaixaram naquele instante de sobriedade, a equação se resolveu com obviedade tão absoluta quanto quando o professor corrigia os exercícios no quadro e a resposta vinha rápida e simples. Ela sabia o que precisava fazer, e sabia também como acabar o próprio filme.

Atravessou a multidão, encaminhou-se até a porta. Pegou o táxi de volta sozinha.

Sofia_Soter_foto_Tatiana_Altberg-44

 

Sofia Soter é escritora, editora e tradutora. É cofundadora da revista online Capitolina, cujo livro organizou, do podcast Cuidado: garota!, e escreve para veículos online e impressos brasileiros e internacionais. Seu site é o sofiasoter.com.

 

Comentários
Tassi

Tassi (também conhecida como Taissa Reis) é tradutora, agente, produtora editorial, leitora crítica, organizadora (de livros e da vida dos outros) e blogueira. Ainda tem muito a aprender sobre a vida, mas hoje gosta de escrever para o NUPE e dar mais RT do que tweetar no @tassitassi

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *