Junho especial: Contos NUPEanos – “Curvas batimétricas e outros afetos”

Olá, pessoas! Continuamos com nosso junho especial de Contos NUPEanos aqui no blog!

Se você não sabe muito bem o que está acontecendo, resolvemos convidar cinco autores para escreverem sobre: Relacionamentos. Isso mesmo, aberto assim. E fugindo ao sentido clássico da palavra e do imaginário homem-mulher-cis-hétero-branco-padrão-humano sempre que possível. Porque acreditamos que não só relacionamentos românticos clássicos como namoros/ casamentos/ coisas-com-pessoas/ etc são importantes e merecem ser celebrados nas nossas vidas. No final do mês vamos (tentar!) lançar um e-book com todas as histórias reunidas pra você que tem preguiça de ler no blog quer guardar essas histórias pertinho do seu coração.

babump

A Lavínia Rocha esteve por aqui na semana passada falando sobre o relacionamento da Valentina com seus cabelos, Sofia Soter, Fábio Kabral e Vitor Castrillo ainda vêm por aí, e hoje Alliah nos traz um conto em forma de newsletter para falar de Ísis, Agni, Jake, Lira e outras multiplicidades.

 

Curvas batimétricas e outros afetos

Alliah

 

De: Ísis Indigo <isisindigo@gluon.com>

Data: 26 de maio de 2016 23:13

Assunto: Bathus #07: Curvas batimétricas e outros afetos

 

Preciso de uma caneca nova. A antiga – um modelo arredondado de vidro azul simulando uma poção de mana – encontrou seu fim quando escapuliu dos meus dedos e se espatifou no chão da cozinha enquanto eu tentava enxotar uma abelha. Nesses últimos dias tenho usado uma caneca branca de cinquenta anos da Eletrobrás que eu resgatei do fundo do armário e veio parar aqui não lembro de qual parente flutuante. Sei que é pirraça dos meus neurônios, mas o café não tem o mesmo gosto.

Em meus ouvidos durante essa semana inteira, tenho repetido The Wanderer, de Jana Winderen. Uma composição dos sons de fitoplânctons e zooplânctons das águas atlânticas do Pólo Norte ao Equador gravada com hidrofones, que me acalma e me ajuda a concentrar na leitura de artigos. O termo plâncton vem do adjetivo grego planktos (πλαγκτός), wanderer, que podemos traduzir como algo/alguém que perambula. Criaturas vagabundas de caminho errante, como os planetas, do grego planítis (πλανήτης), que receberam esse nome porque o pessoal desde o segundo milênio antes de Cristo achava que os pontinhos luminosos que se moviam no firmamento eram estrelas inquietas, errantes.

Passei a olhar para o céu à noite e imaginar plânctons espaciais comendo luz e filtrando nutrientes cósmicos.

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Era manhã cedo de segunda-feira quando Agni me encontrou ainda de pijamas chorando no sofá da sala.

Ela tinha acabado de voltar de uma corrida, uma visão sempre deslumbrante, sua camiseta grudada no top com o suor brilhando sobre a pele, seus cabelos crespos amarrados no topo da cabeça e o Fitbit Surge abóbora disputando o centro de atenção com o Adidas verde-água. Em dois segundos, ela estava ajoelhada na minha frente, com meu rosto entre suas mãos, enxugando as lágrimas e perguntando o que tinha acontecido. Eu tentei explicar sobre a garrafa branca de 42 Below que alguém da Matilha (nosso grupo de amigos que costumava morar junto – é uma longa história que conto noutra newsletter) deve ter esquecido da festa de ontem, e como eu deveria ter sido capaz de me livrar da vodka sem maiores problemas, mas os dois dedos de bebida restantes visíveis dentro da garrafa me sugaram para um buraco negro de memórias pré-sobriedade e eu tive um ataque de pânico e “não precisa se justificar”, ela me acalmou.

Agni pegou a garrafa, andou até a área de serviço e arremessou a 42 Below pela janela. Eu só ouvi o barulho do vidro se espatifando contra a parede de concreto do prédio vizinho, que está com a construção interditada, e os cachorros da vizinhança largarem a latir numa reação em cadeia.

“Cê podia ter só esvaziado a garrafa na pia”, comentei fungando quando ela voltou triunfante e Agni deu de ombros dizendo que assim ela exorcizava os demônios do apartamento.

A gente vai precisar quebrar a louça toda, pensei. E desatei a rir sozinha até ela me apertar num abraço melecado de suor dizendo que eu precisava de transferência de calor humano (ou um incentivo para tomarmos banho juntas) e me inundar de conforto com um sorriso iluminado.

Eu me senti em expansão, como se aquele conforto dentro do meu peito fosse um sentido novo.

Vocês leram aquele artigo da Rose Eveleth sobre como mulheres praticam bodyhacking há tempos (tendo o DIU como exemplo mais forte) e não recebem crédito por isso? É de cair em perspectiva quando lemos sobre minúsculos ímãs inseridos na ponta dos dedos como se fossem grande coisa (o que eles são, na verdade). Ímãs estão entre meus materiais favoritos. Esses implantes – neodímio 52 são os mais comuns – podem parecer banais em termos de funcionalidade, mas adicionam um novo sentido à nossa percepção, como a habilidade de sentir campos magnéticos e interagir com objetos que seriam inertes à nossa atenção. A espanhola Moon Ribas falou num TEDx que se percebeu ciborgue depois de sentir na pele um terremoto à distância (através de um sensor que envia uma vibração ao braço sempre que um terremoto é detectado no planeta). Eu só posso imaginar como nosso senso de si, dos limites do nosso corpo e da nossa identidade devem ser alterados quando estamos em conexão com os movimentos sísmicos da geologia de um planeta inteiro. Titânicos, mas não invencíveis. Vulneráveis, acredito. Abertos à imprevisibilidade, simpáticos a seus tremores e completamente seguros de sua resistência.

Foi assim que me percebi na presença de Agni quando ela me acolheu depois que eu escapei do meu pai aos 18 anos. E na última segunda-feira, com o episódio da garrafa de vodka.

Talvez por isso Agni não tenha se dado bem com Lira no começo, embora seja raro outros parceiros e parceiras causarem alguma briga entre a gente. Mas é esse o cerne da questão. Outros parceiros e parceiras não permaneciam tempo suficiente para criarem raízes, beberem da mesma terra e alterarem a ecologia do nosso relacionamento.

Sei que já fiz breves comentários sobre Lira nas edições passadas dessa newsletter e recebi algumas notas curiosas em resposta – notas que vocês mandaram em desculpas antecipadas antes de perguntar quem é Lira? na última linha do e-mail. Entendo o cuidado que vocês têm ao me pedir detalhes sobre o que escrevo aqui. Mas como comentei na edição inaugural da Bathus, eu escrevo com o consentimento dos envolvidos e demais NPCs têm seus dados alterados para não serem identificados. Assim como Agni, Lira concordou em ter nossas relações compartilhadas nesses textos. Mas para falar de Lira, preciso primeiro falar de Jake.

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Em setembro de 2014, eu escrevi um post sobre um namoro virtual que tive na adolescência. Eu tinha uns 14 pra 15 anos e frequentava uma lan house perto do colégio pra jogar MMOs e papear em salas de chat inapropriadas para minha idade. Numa dessas salas eu conheci j-the-arkhonte, alguém que compartilhava meus gostos por tragédia grega (Prometeu Acorrentado era um fascínio tão bumerangue em nossas conversas quanto o fígado devorado do herói), filmes gore (quanto mais horror criptozoológico, melhor) e bubbaloo de hortelã (ou banana, nosso segundo favorito). Depois de nos esbarrarmos em salas diferentes e nos reconhecermos por logarmos sempre com os mesmos nicknames – eu usava palas_atena porque na época jogava numa campanha de RPG em que o panteão grego lidava com uma invasão alienígena durante a Guerra do Peloponeso – migramos para o MSN e ali desenvolvemos uma estranha intimidade à distância com muito texto, pouquíssimas fotos e nenhuma webcam. Ele me contou que seu nome era Jake, tinha 16 anos e morava em Recife. O avatar de Jake era um desenho em grafite da cabeça de um guerreiro coberta por um capacete de chifres espiralados em curva e relevos corrugados por linhas duras. Bem diferente do rostinho fresco que vi na primeira foto que ele me mandou: pele queimada de sol, cabelos castanho claro lisos e bagunçados, caídos sobre os olhos caramelo espremidos por um sorriso largo, os dentes traçados pelo fino metal de um aparelho fixo, e o topo de seu peito descamisado aparecendo, magrelo, com os ombros descascando. Eu sorria abobalhada sempre que olhava praquela foto. Nosso namoro nunca saiu do virtual e durou uns dois anos até nos afastarmos, propulsionados pelas forças naturais da web enterrando chats e messengers velhos enquanto evitávamos redes sociais e o vestibular monopolizava nossa atenção. Sem falar das outras pessoas com quem estávamos ficando – nosso namoro virtual nunca foi fechado.

Escrevi todos esses detalhes e mais no meu post de 6.283 palavras. Quase meia hora de leitura que eu tinha certeza que só atenderia às curiosidades de dois ou três pingados (assim como essa newsletter, que é um satélite do meu umbigo e só tem 121 assinantes e 62% de taxa de abertura). Então quando eu vi em minha inbox, uma semana depois do post ser publicado, um e-mail com o assunto “Oi, aqui é o Jake!”, meu coração parou. E foi ressuscitado num pulso elétrico logo que eu abri a mensagem e li no 3º parágrafo: “O que eu quero mesmo é te dizer que o Jake não existe. Quero dizer, eu era o Jake, mas eu não sou Jake. Meu nome é Lira. Quando nos conhecemos em 2004, eu não era um menino de 16 anos, eu era uma menina de 14.” Em anexo, como prova, a mesma foto do rapaz descamisado e sorridente de anos atrás. Lira insistia que não havia mentido além do gênero e da idade (sua família era mesmo de Recife e ela havia saído de casa aos 19 e mochilado pelo país) e terminava o e-mail propondo que nos encontrássemos pessoalmente, já que agora ela morava no Rio dividindo um apartamento com um amigo em Laranjeiras. Eu topei sem pensar duas vezes (ou justamente por não pensar duas vezes), trocamos perfis de Facebook e marcamos no café de uma livraria (lugares públicos, certo? Onde posso sair gritando ou me defender com uma edição capa dura de Moby Dick).

Naquela tarde quente de sábado, saí de casa com antecedência para não dar tempo de conjurar desculpas de última hora. O ar-condicionado da livraria estava quebrado e as pessoas se abanavam com encartes, papéis dobrados, livretos compridos, resmungando sobre desodorantes e geleiras derretendo. Andando entre estantes de volumes reluzentes de design e pequenas vitrines com e-readers, reconheci Lira numa mesinha do café. A mesma pele queimada de sol, os mesmos cabelos curtos e lisos num castanho claro luminoso. Vi sua boca pintada de lilás e suas pernas cruzadas nos calcanhares, pés em sapatilhas douradas, shorts jeans desfiados e uma blusa rosa-goiaba caída no ombro esquerdo, pose e respiração imperturbáveis pelo calor. Ela lia As Cidades Invisíveis, de Calvino, visão insólita transpirando um personagem recém-escapado das páginas do livro. E ali eu hesitei, com minha ansiedade escorrendo pela espinha, as mãos ajeitando as mangas dobradas da camisa, meus 26 anos como uma roupa que não me cabia mais num redemoinho hormonal de 15. Só chega e dá um oi, pensei, não tem como começar errado com “oi”. Só que eu não sabia como dar um “oi” que não saísse esquisito, falho – eu temia que minha garganta fosse me trair como a voz desafinada de um moleque na puberdade – então eu disse apenas um familiar “Jake”. Ela levantou os olhos do livro e respondeu “Atena” com um sorriso que deu pane no cabeamento neural da minha memória. O antigo avatar de grafite parecia uma relíquia anacrônica agora, atravessado no tempo, incongruente com a mulher diante de mim. Ainda nem havíamos começado a conversar e eu já estava de lança e escudo desarmados aos seus pés. Mais tarde ela me contaria que aquela primeira foto era de seu irmão, Guilherme. “Mas o aparelho nos dentes era igual ao meu.” E o sorriso aberto de espremer os olhos também, observei.

Eu quis reatar aquela intimidade descontinuada, tecer as pontas soltas em novas tapeçarias. Me deixei levar pelo éter de familiaridade com Jake & Lira, simultâneos, entremeados, irresistíveis; incapaz de processar a frustração de todas as perguntas duras que queria fazer, todas as satisfações que queria arrancar, vozes engasgadas numa dor e numa raiva que eu só viria a expressar depois de já termos começado um novo relacionamento.

No dia seguinte ao nosso reencontro, apaguei o post do blog.

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Eu não gosto muito de ficar em casa se puder vadiar por aí, mas me aninho toda entre as cobertas quando o frio bate de repente nessa espiral dantesca que é o clima carioca. “Vem cá e me esquenta,” Lira me chamou num dia gelado desses, de blusão de manga comprida e os cabelos escondidos sob um gorro verde, seus traços andróginos se sobressaindo em suas sobrancelhas retas, naturais. Eu subi na cama e sentei em seu colo. Ela arranhou minhas coxas de leve sobre a legging. “Cê tá parecendo o Jake,” falei rindo, e ela corou e escondeu o rosto no meu pescoço. Senti seus braços apertarem, colando meu corpo no dela. “Que foi?”, perguntei, e ela só sacudiu a cabeça e deu um suspiro que parecia conter uma legião de significados. Antes que eu pudesse questionar mais alguma coisa, ela me puxou num beijo que me deixou sem ar e não demorou muito para tirarmos as roupas e esquecermos do frio.

No limiar do sono – seus olhos fechados, voz baixa e dedos traçando geometrias abstratas na minha barriga – ela me contou sobre Guilherme. Sobre a proximidade que ela tinha com seu irmão mais velho, os fins de tarde em que ele tocava violão cantando Chico Science e The Cure com Lira acompanhando num canto nem sempre muito afinado, a colônia amadeirada que era seu cheiro característico, as noites em claro jogando Ragnarok e correndo na manhã seguinte para fazer algum dever de casa esquecido, a troca de confidências sobre suas molecagens rua afora e fugas da vigia dos pais, e como ele costumava falar que estudaria paleobotânica e se tornaria um acadêmico de respeito, mas queria mesmo era abrir uma pequena floricultura com espécies nativas da Amazônia e quem sabe um espaço cultural anexo com muita música e cor. Lira me contou como ele desapareceu na virada do ano, de 2003 para 2004, depois de sair com um grupo de amigos e ninguém teve mais notícia nem dele, nem dos outros meninos. E como ela chorou e chorou e chorou até esvaziar toda a dor, desespero e esperança de seus olhos. E como ela passou a habitar algumas identidades virtuais do irmão – os avatares em jogos, os usernames em salas de chat e messengers, o rosto sorridente na primeira foto que recebi de Jake – e as melodias arranhadas no violão que ela não sabia tocar e o que restava da colônia aplicada com economia atrás das orelhas antes de dormir.

Eu lamentei a perda de Guilherme através da perda de Jake, embora Jake nunca tenha se desintegrado com a revelação de Lira, pois ele ainda vivia sob a pele dela e entre meus carinhos quando eu não sabia quem dos dois respondia aos meus beijos quando gênero se fazia irrelevante no escuro.

Quando ainda estávamos no comecinho da relação, eu nunca soube explicar essa dinâmica para Agni, que se preocupava em entender se eu não estava me ancorando numa fantasia adolescente que só me machucaria. Mas não havia em mim ilusão que me ancorasse, apenas a certeza de um estado de desejo em fluxo. Turbulência. Afeto em diferentes profundidades, como as curvas batimétricas que desenham o assoalho do mar e demarcam os níveis do terreno, curvas que eu toquei com as pontas dos dedos no relevo do quadro que construímos numa tarde de julho de 2015, em nossa primeira viagem a três num fim de semana. No dia anterior tínhamos assistido um vídeo sobre as obras de arte ecológicas de Maya Lin e como ela materializava o curso de rios. Na manhã seguinte resolvemos fazer nosso próprio contorno tridimensional (queria poder dizer que foi puro impulso criativo, mas a verdade é que um transformador explodiu na rua e ficamos sem luz por horas). Passamos o dia inteiro cobrindo uma placa fina de isopor com pregos, alfinetes e agulhas, seguindo o rascunho que Agni desenhou de uma lagoa que ninguém lembrou de anotar o nome. Os primeiros trinta minutos foram entusiasmados e barulhentos, tagarelávamos sobre aleatoriedades para preencher o espaço entre os pinos de metal, até diminuirmos de ritmo e encontrarmos uma frequência mais atenta, mais meditativa. Perto de terminar nossa escultura, estávamos com as costas e os braços doendo, suor escorrendo pelas têmporas e em completo silêncio. Quando o último alfinete encontrou seu lugar fechando o círculo externo, soltamos uma tríade de gemidos e suspiros de alívio. Nem tanto pelo resultado, mas pela plena satisfação de completar a tarefa com nada além de nossa própria respiração como trilha sonora e a intimidade que ali se fez espessa.

Naquela noite caímos as três na mesma cama pela primeira vez.

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Enquanto eu tava na mesa da cozinha escrevendo esse texto no notebook, Agni me gritou da sala perguntando se eu tinha um pincel mais fino – cerdas macias, cabo preto, Tigre, remanescente de uma tentativa fracassada de aprender aquarela. Levantei e tive que parar por um instante para absorver o cenário diante de mim: Lira apagada de sono no sofá, deitada com os braços dobrados sob a cabeça, de shorts de pano vermelho e uma camiseta surrada com o rosto de Grace Jones; e Agni ainda com a roupa do dia de trabalho no estúdio de tatuagem (calça jeans e um crop top amarelo) sentada no chão da sala, no epicentro de uma zona de recortes de papel, potinhos de tinta, tubos de cola e uma edição de Sandman aberta, preparando a máscara para seu cosplay de Mazikeen. Agni e Lira vão para um evento novo de cultura pop esse fim de semana, enquanto eu estarei num barco no meio do Atlântico pesquisando um hotspot de sereias afetado por acidificação. Sinto uma culpa horrível com a inquietação que não consigo espantar ao deixar esse arranjo doméstico para trás. Temo alguma tragédia, como presságio antes de me lançar ao mar, oráculo de minha própria insegurança – não de me perder nas águas, mas de voltar e encontrar outra realidade, um entre-mundos em que não me encaixo mais.

“Eu não sei como você e a Agni ainda não entraram em combustão espontânea sincronizada”, disse Laura durante um jantar de reunião da Matilha meses atrás. Às vezes eu esqueço que não sou criatura encantada e outras pessoas são capazes de assistir o que se desenrola entre nós três quando não estamos a sós. Sete anos atrás quando éramos cinco estudantes soltos e selvagens morando num espaço pequeno demais, eu achava que discussões eram apenas preliminares pra trepar e acordar com os pulsos feridos das camisetas mal amarradas de improviso. “Pode ficar pesado quando a coisa cresce”, admiti. Pelo menos uma almofada já saiu voando pela varanda (e eu desci correndo pra pegar de volta porque custou quase 100 reais – um modelo redondo estampado com bolas coloridas que eu só comprei porque me lembra de Yayoi Kusama). Falar sobre meu relacionamento com Agni incendiava os ânimos, mas mencionar Lira era polarizar a mesa. “Se ela tiver incomodada com a Agni, ela que se adapte ou dê o fora. Vocês têm história, Ísis, com agá maiúsculo,” Jonas falou num tom irritado, quase ofendido. Um comentário fast-food ao ego nos primeiros três segundos, mas que soa profundamente cruel logo depois. Não é justo erguer esse ultimato e isolar as expectativas de Lira quanto aos afetos que trocamos, como se eu e Agni não tivéssemos nosso próprio cabo-de-guerra possessivo quando o peito aperta e a percepção se anuvia.

Ainda não sei do que chamar o que temos, wanderers, três nessa configuração inconstante, errática, que se alinha com precisão num dia e desanda para fora de órbita em outro numa navegação caótica, nosso próprio problema dos três corpos – insolúvel pelas proposições de Newton ou pelo cronômetro marinho de Harrison. Sei dos beijos de Agni que me bebem inteira, demorados entre as quatro paredes do meu quarto ou desesperados numa garagem no terraço do shopping. Sei de Lira se aninhando em meu peito quando dormimos no meio da madrugada, as roupas de Jake esparramadas pelo chão. Não sei da rosa-dos-ventos e dos faróis para me guiar pelo que sinto de mais verdadeiro por essas duas. Mas sei que essas reflexões marítimas me levaram a ler um artigo sobre longitudes planetográficas para esquecer dos metros de nós que tenho para folgar, e já está perto de dar meia-noite, então vou parar essa newsletter por aqui.

 

Até a próxima curva,

Ísis.

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Alliah é escritora, artista visual, queer, pessoa trans de gênero fluido (qualquer pronome), e feminista interseccional. Você pode encontrá-la em Alliahverso.

 

Comentários
Tassi

Tassi (também conhecida como Taissa Reis) é tradutora, agente, produtora editorial, leitora crítica, organizadora (de livros e da vida dos outros) e blogueira. Ainda tem muito a aprender sobre a vida, mas hoje gosta de escrever para o NUPE e dar mais RT do que tweetar no @tassitassi

  • Saoki

    Maravilhoso <3

  • Laís Helena

    Achei bem criativo narrar o conto em forma de newsletter (e o próprio enredo em si é bem criativo). Parabéns!

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