A falácia do escritor de verdade – um pequeno grande desabafo

WordBase

“Escreva. Escreva todos os dias. Arranje tempo para escrever. Escritor de verdade sempre tem tempo para escrever. Escrever é esforço contínuo, é rotina, é avançar um pouquinho por dia para conseguir um bem maior, no formato de noventa ou cem mil palavras. Não importa o quanto doa, não importa o quanto você sofra: apenas escreva. Depois se preocupe com qualquer outra coisa.”

Se você é um escritor profissional, ou almeja ser um, provavelmente já esbarrou com esse discurso em algum dos manuais de escrita que deve ter lido para estudar um pouco sobre dicas de criação. Se profissionalizar significa sofrer e andar em um caminho de pedregulhos pontiagudos para atingir um bem maior.

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Isso tem, em certa medida, me incomodado e me gerado crises ansiosas. Porque, sabe, eu realmente gosto de escrever. Talvez seja a minha coisa preferida ao lado de uma barra de chocolate meio amargo e um café com leite bem forte. Escrever faz com que eu me sinta bem, mesmo que o que eu escreva não seja necessariamente uma história de unicórnios saltitantes em uma estrada de açúcar cristalizado.

Mas aí tem essa coisa gigantesca e cheia de complicações chamada vida, e ela cobra o seu preço. Principalmente quando você tem que abdicar de algumas coisas para dar mais atenção a outras. E, atualmente, tenho abdicado de sentar na frente do Word e colocar uma palavra do lado da outra para compor uma história daquelas que eu gostaria de ler. Não porque eu queira, veja bem, mas porque não tenho escolha.

E isso, pouco a pouco, tem me consumido.

Todos os ecos dos manuais de escrita que li ficam reverberando na minha mente. “Você deveria estar escrevendo! Você tem que arranjar tempo para escrever! Você não é um escritor de verdade se não escrever todos os dias, se não se sacrificar pelo bem maior da escrita, se não perder noites de sono e não beber litros de café para se manter acordado! Produza, produza, produza!”

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*tocando Eye of the Tiger*
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*tocando Eye of the Tiger*
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Nop. Sem ideias.
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Cérebro. Vazio. Inútil.

Não sou romântico a ponto de achar que a escrita é inspiração divina e não trabalho árduo. Mas ando ponderando muito nos últimos tempos e também cheguei à conclusão de que não sou tão idiota a ponto de pensar que, para ser um escritor de verdade, eu precise sofrer. Sofrimento está contra tudo o que considero a parte boa de escrever: compor cenários e personagens, descobri-los pouco a pouco, conhecê-los e contar a história em que eles estão inseridos.

Sei que isso é um processo muito particular de cada um, mas gosto de me divertir enquanto escrevo, mesmo que eu escreva coisas tristes. Se divertir não quer dizer ser a Pollyana dos livros e achar que tudo vai ficar bem, mas sim dar aquele sorrisinho de canto de boca depois de escrever um parágrafo particularmente bom.

E tento fazer isso das mais diversas maneiras. Por isso gosto tanto de metas. Funciono muito bem compondo tabelas no Excel para pequenas coisas que faço. Traço metas de quantos livros vou ler no ano, quantos episódios de seriado pretendo ver durante a semana, quantos filmes quero ver por mês, quantos finais de semana posso sair para que o salário não acabe e eu entre no cheque especial, quantas palavras quero escrever por dia.

E, de todas essas pequenas metas, escrever é a única que me frustra profundamente quando não consigo alcançá-la. Ficar sem assistir série? Ok, minha pasta já está cheia mesmo. Sair um final de semana a mais e ter que gastar um pouco menos? Tudo bem, a gente ajeita o orçamento. Mas não conseguir escrever?

MEU DEUS DO CÉU, EU ME ODEIO, O MUNDO VAI ACABAR, EU SOU UM INCOMPETENTE, ESTÁ TUDO DANDO ERRADO, O QUE QUE ESTÁ ACONTECENDO COM A MINHA VIDA? *respira em um saquinho de papel*

Você pode falar: “ah, Lucas, mas dessa sua lista aí, escrever é a única coisa que realmente dá trabalho”, o que não deixa de ser verdade. Todas as outras coisas que faço são atividades passivas “por prazer” e escrever é a única “obrigação” ativa da caixinha de metas. E a palavra obrigação traz consigo aquele peso de coisa que deve ser cumprida, não importa se você esteja feliz ou não ao executá-la, se você tem ou não tempo/disposição/cabeça para fazê-la. Você tem que fazê-la e ponto final. Do contrário, você é um incompetente.

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Vou escrever todas as palavras que conheço! Retângulo. América. Megafone. Segunda. Bunda.

Só que já existem muitos tem que na minha vida atualmente. Tenho que trabalhar de 9h às 17h, tenho que pegar 1:30h de trânsito na ida e 1:30h de trânsito na volta do trabalho, tenho que estudar, tenho que compor a minha dissertação de mestrado, tenho que arrumar meu quarto, lavar o banheiro, lavar a louça, tenho que ir à academia, tenho que dormir o mínimo necessário para que meu corpo mantenha suas funções biológicas. E olha que minha vida ainda é relativamente confortável, porque tenho o privilégio de morar com meus pais e não ter inúmeras obrigações de alguém que mora sozinho, por exemplo.

Todo esse bolo de obrigações, falta de tempo e disposição fizeram com que a escrita ficasse cada vez mais de lado no meu cotidiano. Mas não quero me torturar pensando no que eu poderia estar abdicando para conseguir escrever, porque já abdico de muita coisa para que a minha vida funcione. Não quero sofrer de ansiedade por não estar conseguindo produzir, não quero ter inveja de quem faz textos maravilhosos uma vez por semana e os disponibiliza no Medium para todo mundo compartilhar e dar likes. Aprendi a duras penas e mantras internos que cada pessoa tem uma vida diferente, rotinas diferentes e obrigações diferentes. Que algumas pessoas têm sim mais tempo do que outras e podem escrever mais e melhor do que eu posso nesse momento. Hoje, eu simplesmente não consigo manter o hábito diário e ininterrupto de escrever sem sofrer com isso. E está tudo bem não escrever todo dia, sabe?

Escritores são diferentes. Dizem que o Stephen King escreve duas mil palavras por dia e escreve um livro como Novembro de 63 (cerca de mil páginas) em mais ou menos um ano; Donna Tartt escreveu O Pintassilgo, que tem praticamente o mesmo tamanho, em dez anos. Nenhum dos dois deixa de ser um escritor pelo tempo que demoraram para escrever suas histórias. Nenhum é melhor do que o outro ou mais profissional do que o outro pelo tempo que levaram para que suas histórias ficassem prontas.

No fim das contas, acho que o que quero dizer com esse texto é: não sofra. Sofrer não é legal. Tente escrever sempre que puder, e se não puder escrever todo dia, está tudo bem. Você não é menos profissional se demorar um pouco mais escrevendo sua história. Você não é menos escritor ou menos capaz se só consegue escrever no domingo de tarde. Ou se não consegue escrever por um mês porque está cheio de coisas para fazer. No fim das contas – e isso é uma opinião muito particular, da qual você é livre para discordar – escrever é sobre se divertir em um processo louco que ninguém entende muito bem como acontece. E a jornada deve ser tão deliciosa quanto o final.

[Escrevo esse texto que você está lendo, a propósito, no meu trabalho, quando deveria estar respondendo a uma caixa de doze e-mails pendentes (hoje o movimento está tranquilo), revisando uma penca de artigos científicos de saúde, lendo sei lá quantos artigos em inglês, português e espanhol para o mestrado, finalizando um frila (atrasado), me preocupando com a dieta, planejando minhas refeições antes da academia, indo para a academia, escrevendo minha dissertação (o prazo está estourando!), tentando ter uma noite de pelo menos seis horas de sono (porque, pff, quem precisa de oito horas mesmo?), e ainda tentando ser minimamente sociável para não perder meus amigos para as obrigações cotidianas da vida.]

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Comentários

2 ideias sobre “A falácia do escritor de verdade – um pequeno grande desabafo”

  1. Vc basicamente descreveu o livro da Elizabeth Gilbert, Grande Magia. Ela se questiona porque tanta gente acha que escrever é algo em que você tem que sofrer. E ela conta sobre Harper Lee, que depois do sucesso de O Sol É Para Todos, simplesmente viajou, deixou de escrever por um bom tempo, foi viver outras coisas.

    A gente não deve sofrer no processo criativo. Isso é balela e uma maneira de tirar das pessoas o poder de criar. E criar, não necessariamente, é só escrever. Gilbert conta outros casos como o livro dela que nasceu após cuidar do jardim de casa ou do autor de teatro que depois de um fracasso voltou a criar após um período pintando as bicicletas dos filhos e dos amiguinhos deles da rua.

    Quando estava fazendo o meu mestrado, também me senti culpada por não mais escrever ou ler, ou ver séries. Mas isso é só uma fase. É temporário e ele requer sua atenção. Portanto, relaxe. Dê prioridade às coisas urgentes e escreva quando sentir vontade, não com um contador de palavras ao lado. Eu mesma não consigo escrever todo dia, mas tem dias que escrevo cinco mil palavras.

    Apenas curta o momento. Sem pressa. =)

  2. Um texto muito bacana, Lucas! É verdade, escrever tem que ser uma coisa prazerosa, sem sofrimento (ou só com um pouquinho) e nãod everíamos nos cobrar. Bom, a verdade é que deveríamos compreender a real diferença entre ter como meta escrever “todos os dias” e nos angustiar por não fazê-lo e ter como meta escrever regularmente, realisticamente (nem sempre o texto literário em si… planos e flashes às vezes) para praticar e compor nem que sejam os compassos de uma sinfonia. Mas a gente aprende com insights como esse que você teve. No mais… gosto do seu trabalho e te acho um grande cara, além de colega bibliotecário. Sei que o que produzir, muito ou pouco, vai ser bacana.

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