Vamos falar sobre Trigger Warnings?

Atenção: este post fala sobre temas que causam triggers (podem acionar gatilhos de ansiedade).

Nunca tive problemas com objetos cortantes. Nunca fui violentado. Nunca tive cicatrizes emocionais profundas por conta de alguma coisa que alguém fez ou disse comigo. Nunca precisei ser alertado sobre alguma coisa antes de vê-la, por medo de que o conteúdo pudesse, de alguma forma, fazer com que eu me sentisse mal ou reativasse memórias que deixei em um cantinho obscuro do cérebro, onde nunca mais quero ser obrigado a revê-las.

Mas isso sou eu, e não sou uma regra.

O assunto desse post pode ser um pouco sério demais, mas é um negócio que precisa ser discutido: vamos conversar sobre a necessidade de Trigger Warnings?

Ei, você pode se machucar aí.

Para quem não sabe, um Trigger Warning (TW, ou ‘Aviso de Gatilho’ em uma tradução livre e literal) é um pequeno aviso sobre o conteúdo de um determinado material que pode, entre outras coisas, ativar memórias e causar algum efeito de estresse pós-traumático nas pessoas, o que vai desde um pequeno desconforto até um ataque de pânico. O termo surgiu no contexto dos blogs feministas, onde muitos artigos sobre violência sexual feminina eram escritos e colocados para discussão, como uma maneira de avisar aos leitores que, caso aquilo fosse incomodá-los, havia uma oportunidade para que a pessoa não o lesse.

Mas o TW não se resume apenas a artigos. Desde livros a séries de TV, filmes, fotografias, peças de teatro, campanhas publicitárias e basicamente qualquer coisa que tenha uma audiência: tudo é passível de TW.

“Mas que frescura! Sério que isso é realmente necessário?”

Você realmente precisa perguntar isso, pessoa?

É extremamente necessário, e admito que demorei algum tempo para entender isso direito. Processos mentais são coisas extremamente particulares e ninguém sabe realmente como a mente de outra pessoa funciona. Conheço pessoas, por exemplo, com murofobia (fobia de ratos) e coulrofobia (fobia de palhaços), e a primeira coisa que eu pensava quando via aquelas pessoas se contorcendo de aversão quando viam uma simples imagem da coisa que as aterrorizava era “isso só pode ser piada”, porque na minha cabeça não era possível que alguém pudesse sentir tanto pavor de algo a ponto de se sentir fisicamente mal com isso. E aí eu ria e achava aquilo ridículo – o que provavelmente só fazia com que a pessoa se sentisse ainda pior, é claro – e era completamente babaca em relação àquelas situações, mas enfim percebi uma coisa muito importante: minhas regras não são universais.

Suas experiências não são universais!

A ideia do TW é tornar seguro um ambiente no qual milhares de pessoas com vivências completamente diferentes transitam. E todo mundo pode fazer a sua parte. Triggers são muito diferentes uns dos outros – como eu disse acima, até palhaços podem causá-los –, o que significa que é necessária uma sensibilidade imensa para conseguir lidar com essa pluralidade de assuntos que podem causar desconforto. Não é uma ciência exata, mas existem alguns assuntos que são notoriamente mais desconfortáveis do que outros. O Geekfeminism, no seu verbete sobre Trigger Warning em uma wiki, lista uma série de assuntos que podem ser triggering. São eles:

  • Descrições de situações reais de guerra, como a Guerra do Vietnã ou as operações norte-americanas no Afeganistão;
  • Descrições gráficas ou discussões extensivas sobre abusos, especialmente abusos sexuais ou tortura;
  • Descrições gráficas ou discussões extensivas sobre comportamentos autodestrutivos, tais como suicídio, ferimentos auto infligidos ou distúrbios alimentares;
  • Representações, especialmente prolongadas ou psicologicamente realistas, do estado mental de alguém que sofre abuso ou que passa por processos autodestrutivos;
  • Discussões sobre comportamentos ligados a distúrbios alimentares ou body shaming.

Uma coisa muito importante que também deve ser ressaltada é que o TW não exclui ninguém de uma discussão. Em última instância, o aviso de triggering é feito para que ninguém se sinta desconfortável ou seja pego de surpresa com o tema discutido, mas a pessoa que queira ler/ver/consumir o conteúdo daquilo tenha ciência de que pode ser um tema delicado. A diferença é que ela estará preparada para o caso de aquilo incomodá-la.

A questão do Trigger Warning gera alguns problemas. Por exemplo, estava lendo essa matéria do Guardian para montar esse post, e a autora é categórica ao afirmar que TWs não deveriam ser utilizados em ambientes acadêmicos, uma vez que podem causar problemas na discussão de um determinado texto ou livro. Há até quem fale que TWs são problemas porque podem trazer spoilers (!!!!) (por exemplo, um livro onde alguém se suicida não poderia trazer um TW de: ‘este livro trata de temas como suicídio’ porque atrapalharia a experiência de leitura – o que, para mim, não faz o menor sentido).

Spoilers são mais importantes que a saúde mental das pessoas? Han?

Acho que cabe a nós entender que as pessoas são diferentes e ponto final. Demorei muito tempo para perceber que não cabe a mim julgar os medos, as vivências e o que faz mal para os outros, mas finalmente aprendi e, mesmo que ainda erre muitas vezes – ninguém é perfeito – tento me policiar para lidar com tudo isso. Porque é um exercício diário que deve ser feito por todos.

Espero que esse tipo de pensamento se espalhe para todas as pessoas que escrevem conteúdos que outros leem, ou que tiram fotos que outros veem, ou que montam campanhas publicitárias que passam pelos olhos de dezenas de pessoas diariamente. Conteúdos triggering são perigosos, fazem mal e desencadeiam séries de emoções com as quais nem todas as pessoas conseguem lidar bem. Então acho que a gente poderia pensar duas vezes antes de achar que ‘tudo vale pela arte’ ou que as coisas não precisam ser problematizadas e podem simplesmente ser jogadas para todos, como se aquilo não pudesse machucá-las.

Sejamos um pouco mais sensíveis.

Abraços virtuais!

Comentários

Uma ideia sobre “Vamos falar sobre Trigger Warnings?”

  1. Assino embaixo: acho TWs necessários e, quando bem utilizados, podem ajudar muitas pessoas. O problema é que alguns TW são difíceis. Não dá pra gente adivinhar que uma pessoa vai poder se sentir mal com algo que geralmente não é visto como algo horrível (diferente de abuso sexual, assassinato, tortura, etc).

    Na minha experiência pessoal, sofri abuso por parte dos meus pais por anos. Abuso mental mesmo, onde eles me xingavam, tratavam mal, me ignoravam e basicamente fizeram coisas que eu até hoje não consigo perdoá-los. Tem gente que não merecia ter o direito de ter filhos. Mas o tema abuso infantil, ou pais abusadores, ou qualquer coisa do tipo, não me causa desconforto físico ou mental. No entanto, uma vez eu estava lendo O Sangue do Olimpo do Rick Riordan e tem uma parte onde o pai da Reyna joga uma cadeira nela.

    Fiquei paralisada com o livro na mão. Depois de um tempo, comecei a chorar incontrolavelmente. Na verdade, mesmo agora é difícil falar disso. *respira fundo*. Okay, basicamente, minha mãe fez isso comigo no pior dia da minha vida. Jogou uma cadeira em mim. E toda vez que eu vejo algo do tipo – o que não é comum, mas acontece – eu entro em pânico. Se só ler isso num livro foi péssimo, imagina só para uma pessoa cujo TW é comum em conversas, filmes, livros?

    É claro que eu jamais ia abrir um livro e ver: TW, pessoas que não gostam de cadeiras sendo atiradas podem se sentir desconfortáveis com a leitura. É difícil criar um ambiente 100% seguro, no fim das contas. Mas eu acredito que um TW com os temas mais recorrentes é necessário em todo tipo de lugar, desde debates na internet até na classificação indicativa de programas. Danem-se os spoilers.

    Gostei muito do post, keep the good job!

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