Semana Esther: O que é o câncer?

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O post de hoje foi feito pela Nath, que é minha amiga, da Val e da Carol (do post de ontem!). A Nath terminou biologia, fez um mestrado relacionado à câncer e sistema imunológico e hoje faz um doutorado na área de doenças auto-imunes! Ou seja: ELA É UMA CIENTISTA!!!

No Brasil assim como no mundo, o número de casos de câncer tem aumentado a cada ano. A última estatística feita no mundo, em 2008, estimou que ocorreram 12,7 milhões de casos de câncer com 7,6 milhões de mortes nesse ano. Isso demonstra que há uma grande magnitude pros casos de câncer no mundo, e, pela sua grande proporção e alta taxa de mortalidade, essa doença é considerada um problema de saúde pública.

Mas, afinal, o que é o câncer?

A capacidade de regeneração de um tecido só é possível graças à possibilidade de células se dividirem quando existe algum dano. Por exemplo, quando você corta sua mão, células daquela região na pele e nos tecidos adjacentes irão receber uma mensagem para iniciarem divisões celulares, gerando mais células e recuperando o tecido anterior. Porém, essa capacidade de regeneração de um tecido é algo extremamente controlado dentro do corpo humano. Isso significa que, em condições normais, uma célula só vai entrar em divisão celular se ela receber sinais externos que claramente determinem isso. Por outro lado, caso alguma célula comece a se comportar de forma alterada, outros tipos de sinais externos podem também determinar que essa célula morra. Ainda, quando ocorrem alterações muito dramáticas em componentes da célula ou na sua forma de atuar, seus próprios controles internos podem levá-la à morte. Sendo assim, no corpo humano, células ficam a todo tempo susceptíveis a sinais como “produza substâncias”, “inicie divisão”, “pare de dividir” ou “morra”.

A necessidade desse controle fica clara quando analisamos que o corpo humano é 4617formado por diversos tipos de células e tecidos, os quais possuem características e funções muito variadas, mas que precisam atuar em conjunto para que todo o corpo funcione. Dessa forma, os controles da atividade das células em um tecido estão presentes no corpo para garantir que ele se mantenha em um funcionamento normal. Quando ocorre algum tipo de mudança das necessidades corporais, as funções de cada célula podem ser alteradas por esses mesmos comandos e, ao fim do estresse, com outros tipos de comandos o corpo pode restaurar seu padrão normal de funcionamento.

O desenvolvimento do câncer ocorre justamente por causa de problemas no controle das células e em uma independência delas com relação aos seus sinais externos. Dessa forma, a grande característica de uma célula cancerígena é poder se dividir continuamente, ignorando os sinais externos e internos de “pare de dividir” ou “morra”. Essas células sem controle de divisão irão gerar células-filhas com o mesmo problema, gerando um agrupamento de células defeituosas, o tumor.

TWISTinCancerFig2Acredita-se que o câncer pode se desenvolver em uma sequência de etapas que podem ser colocadas em uma escala de “malignidade”. Nessa escala, o primeiro estágio seria a alteração de um pequeno grupo de células com capacidade elevada de divisão. Ao longo do tempo, tais células vão acumulando alterações, de forma que geram um grupo organizado de células alteradas, mas que fica preso ao seu local de origem. Isso é o chamado tumor benigno. Caso essas células continuem a se dividir, elas podem com o tempo adquirir a capacidade de sair desse local de origem e invadir novos tecidos, processo que é chamado de metástase. A possibilidade de invadir novos tecidos é uma das principais características de um tumor maligno, o câncer.

Essa escala de desenvolvimento do câncer é uma previsão de como esse processo pode ocorrer, mas já se sabe hoje em dia que em nem todos os casos de câncer isso é verdadeiro. Além disso, é importante lembrar que não necessariamente um tumor benigno se tornará um maligno. Existem inúmeras etapas nesse processo, a maioria ainda não conhecida, de forma que ainda não é possível determinar qual o resultado final.

Essa situação em que uma célula começa a ignorar sinais externos e agir por conta própria pode acontecer por diversos motivos. O principal e mais descrito deles é a ocorrência de mutações no DNA das células. Essas alterações ocorrem de forma aleatória e muitas vezes em regiões onde não existe a presença de genes. Entretanto, quando ocorrem em genes específicos, podem alterar o funcionamento de uma proteína essencial ao funcionamento da célula, e essa é a explicação de diversas doenças que possuem base genética. No caso do câncer, é bem descrito que diversas proteínas que controlam as repostas aos comandos “divida”, “pare de dividir” ou “morra” estão alteradas, permitindo que as células ajam de forma desregulada de seus comandos. Como os sistemas de controle das células são sobrepostos (há diversos circuitos que atuam caso algum falhe), na realidade é preciso que ocorra mais de uma alteração para que a célula se torne cancerígena. Isso explica (em alguns casos!) porque o câncer é muito associado à idade da pessoa.

Como diversos eventos diferentes podem ocorrer para que o mesmo resultado final seja o câncer, ele é na realidade considerado um conjunto infinito de doenças. E isso explica também porque pode ser tão difícil encontrar tratamentos completamente eficientes para o câncer. Conforme se estudam tratamentos mais específicos (e com isso, menos invasivos e com menos efeitos colaterais), também reduzem os números de pessoas que podem se beneficiar desse tratamento.

Neutrófilos sistema imunológico.Hoje em dia se sabe que no desenvolvimento do câncer, existe forte influência do sistema imune do indivíduo. Para relembrar, o sistema imune é o conjunto de células e funções no corpo que atuam para evitar que as pessoas desenvolvam doenças. Porém, em vez de ser capaz de identificar todos os possíveis microrganismos/corpos estranhos que podem entrar no corpo humano, o sistema imune trabalha com base em uma diferenciação do próprio/ não próprio. Assim, desde que começam a se desenvolver na infância, as células do sistema imune são “treinadas” a não atuarem contra suas células semelhantes, mas a atuarem contra células e corpos estranhos. Como as células cancerígenas demonstram muitas características que são diferentes das células normais, era de ser esperar que o sistema imune fosse combatê-las. De fato, na grande maioria dos casos, isso ocorre. Células alteradas são formadas frequentemente no corpo e são eliminadas pelo sistema imune. Porém, em alguns casos, devido a alguma situação local especifica, células cancerígenas podem passar despercebidas pelo sistema imune. Ao longo do tempo, com o desenvolvimento do tumor, essas células podem inclusive obter a habilidade de liberar substâncias que inibem a atividade do sistema imune ou que fazem com que ele aja em favor do desenvolvimento do câncer.

cancer-pulmaoAlém da inibição do sistema imune pela célula cancerígena, outra relação entre esses dois componentes é a indução do câncer pelo próprio sistema imune. Quando ocorre uma infecção ou algum estresse local, as células do sistema imune são “convocadas” a esse local para resolver o problema. Em condições normais, essas células se aglomeram nos locais de problema, o resolvem e vão embora. Nesse processo, são liberados diversos sinais para coordenar a atividade do sistema imune e do tecido onde ele está atuando, e alguns dos sinais liberados frequentemente são do tipo “entre em divisão”. Caso algumas células nesse local já estejam em algum passo de transformação, ou se essa situação se mantém por muito tempo (nos casos de doenças com inflamação crônica), isso pode levar as células locais a responderem de forma alterada constantemente, configurando um tumor.

Sendo, assim, muito se tem estudado sobre as relações entre o sistema imune e o câncer. Esse ainda é um campo em crescimento dentro do estudo do câncer, porém é uma abordagem muito promissora. Nesse campo, a tentativa é justamente compreender como ocorrem essas interações entre células cancerígenas e o sistema imune, tanto na visão de indução do câncer quanto na visão de inibição do sistema imune. Esses estudos visam, em um resultado final, encontrar pontos específicos nessas interações que possam ser manipulados com o uso de drogas e, com isso, criar novas terapias para o tratamento do câncer.

A Ciência é incrível!!!
A Ciência é incrível!!!
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Bell

Codinome de Bárbara Morais, autora da Trilogia Anômalos. A quantidade de ideias que tem é inversamente proporcional ao seu tempo para fazê-las. Gosta de números tanto quanto gosta de letras - e jura solenemente não fazer nada de bom (enquanto estiver nesse blog).

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