Semana Esther: Minha mãe e o câncer de mama

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Olá leitores do NUPE!

Eu sou a Carol, amiga da Bárbara e da Valéria há muitos anos e da Dayse também, há menos tempo. Elas me chamaram para fazer um post nesse período temático da Esther. Eu estou inclusive lendo A Culpa é da Estrelas agora (acho muito “in” esse negócio de ler um livro no mesmo ano que ele é lançado hehe), o que é uma grande coincidência! Eu já peço desculpas, mas esse post vai ser um pouco grande.

Enfim, a minha mãe teve câncer de mama em 2011. Foi um ano de altas aventuras na minha vida! Eu comecei o ano já fazendo terapia porque estava um pouco triste demais e um pouco desiludida de alguns aspectos da minha vida. Então, acho que em abril, a minha mãe foi a mastologista, fez uma mamografia de rotina, um ano e quatro meses depois da última (ela fazia todo ano por causa da idade, sempre com resultados normais, só que com alguns cistos). Dessa vez, acharam uma coisa estranha, que era uma calcificação. Então pediram outro exame, uma punção. Pelo que eu entendo, eles retiram uma parte dessa calcificação com algo que parece uma agulha para verem do que se trata. Só esse exame já é desgastante, tem que usar um top apertado depois por uma semana e não pode dirigir por um tempo.

Eu e mãe
Eu e minha mãe!

Eu lembro que estávamos eu, ela e o meu pai na biblioteca da minha casa quando ela informou o resultado sorrindo, para não nos preocupar. Não adiantou, é claro, mas acho que isso mostra um traço de personalidade dela, ser sempre a que salva, ajuda, resolve os problemas, nunca a que os causa. A minha avó, mãe da minha mãe, também estava na nossa casa na hora. Minha mãe decidiu que não contaria para nenhuma das minhas duas avós, que já são bem velhinhas e segundo ela, não poderiam ajudar de nenhuma forma, só ficariam tristes e com piedade e ela achava que se elas adoecessem, teria sido por causa da notícia do seu câncer. Minha mãe não aceitou piedade. De ninguém. O engraçado é que mesmo assim, quando eu fui visitar a minha avó materna depois da cirurgia da minha mãe, ela perguntou sobre a minha mãe, e disse “Como está o peito dela?”. Tem coisas que é impossível esconder da mãe, né?

Depois do diagnóstico, começou a busca pelo médico que faria o tratamento. Ela foi a vários médicos, acho que foram oito no total, sendo alguns em São Paulo (a gente mora em Brasília). Eles eram unanimes em acalmá-la, dizer que não era grave e que esse tipo de câncer, quando diagnosticado no início, tinha as chances de cura muito aumentadas. Mas muitos deles discordavam sobre o melhor tratamento. Seria melhor fazer uma mastectomia que tiraria a necessidade de fazer um tratamento depois e tomar remédio? Mastectomia de uma ou duas mamas? Ou o melhor era tirar apenas uma parte, fazer radioterapia e tomar um remédio por 5 anos? Decidimos pela última opção (que era a menos radical e nos assustava menos) com uma médica aqui em Brasília. Não optamos pela mastectomia porque ela consiste na retirada do seio, com músculo e o que mais vier. Alguns médicos a tratam como mutilação, seus efeitos psicológicos tendem a ser maiores e esse tratamento era mais usada antigamente, quando não havia outras opções. A decisão foi tomada em conjunto, assim como todas as importantes da minha casa, sendo que a vontade dela teria um peso maior, obviamente.Outubro_Rosa_G

No dia da cirurgia, eu preferi não ir com ela ao hospital. Foram o meu irmão e a minha tia que ficaram lá o dia todo e eu e o meu pai viemos para casa. Eu lembro que comprei uma flor para dar a ela e outra para a minha tia. A minha expectativa era que ela visse a flor, agradecesse e me desse um abraço. A realidade foi que ela estava deitada e exausta e só olhou para mim, sorriu e voltou a fechar os olhos. Apesar desse choque, a cirurgia correu extremamente bem. Durante o procedimento, eles retiraram uma parte do tumor, fizeram testes e viram se precisavam tirar mais. No caso, não foi necessário tirar mais tecido.

Quando ela voltou para casa, um dia depois da cirurgia, tínhamos um monte de cuidados novos. Ela precisava de uma higienização específica na área da cirurgia, não podia mexer o braço esquerdo (a cirurgia tinha sido na mama desse lado) e não podia pegar peso. Ou seja, ela precisava de alguém para ajudar no banho, a se levantar e não podia mais fazer todas as tarefas da casa, como comprar de mercado e esquentar o jantar da família toda, o que tinha feito sozinha durante todos esses anos. Como eu era quem mais tinha tempo livre, assumi essas tarefas. Era bem cansativo, mas eu gostei, acho que aprendi muito nesse período, desde como escolher um abacaxi até como limpar um curativo com álcool 70. Fora isso, eu amadureci muito, passei a valorizar mais as tarefas de um “adulto” dono da própria casa e deixei de lado alguns sentimentos que não me apoiavam no momento.

Um sentimento engraçado que eu tinha era ciúme. Eu tinha ciúme das outras pessoas que queriam ajudar a minha mãe. Eu pensava “se eles começarem a ajudá-la, o que vai sobrar para eu fazer?”. Depois descobri que a ajuda de cada uma das pessoas que apoiavam mais de perto era única e insubstituível, e eu não precisava me preocupar com isso e sim ficar feliz por ver o quanto ela era querida! Não foi novidade, mas nesse momento, isso fez diferença.

flores-5143Depois de se recuperar da cirurgia, ela começou as sessões de radioterapia, uma radiação direcionada para uma área específica do corpo, principalmente para prevenir que o tumor volte, é um tratamento bem menos agressivo que a quimioterapia, que não foi necessária. E começou também a tomar um remédio para prevenção. Ela está totalmente curada, mas fica muito apreensiva toda vez que retorna à mastologista para exames de rotina e acompanhamento.

Um ano depois da cirurgia, ela precisou fazer outra punção porque encontraram calcificações no mama que foi operada. Isso poderiam ser uma consequência normal do tratamento ou um tumor. Eu só soube que ela ia fazer esse exame quando fui pegá-la na clínica, depois de ela já tê-lo feito. E então, quando ela me contou sobre isso, eu chorei. Pela primeira vez nesse processo todo. Eu não queria passar por aquilo de novo e principalmente achava que ela não merecia toda essa tensão novamente. Felizmente, os resultados mostraram que estava tudo bem! Ela ainda precisa fazer esses exames, só que com cada vez menos frequência, já que as chances de um câncer voltar diminuem conforme passa o tempo da cirurgia.

Eu acredito que experiências como essa mudam as dinâmicas e hábitos de uma pessoa ou até de uma família como um todo. A minha mãe passou a se cuidar mais, se preocupar com ela, e não só com os outros, se espiritualizar mais e, o melhor de todos para mim, passou a ser muito mais minha amiga! O processo nos aproximou muito e hoje temos uma confiança uma na outra que não existia e em nós mesmas também.

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Eu e minha Mãe na minha formatura, após tudo isso

Uma coisa interessante do câncer é que ele é visto como um super vilão, matador brutal, sentença de morte, sendo que no Brasil, ele nem é a maior causa de morte, como foi publicado em um estudo em outubro do ano passado (veja: http://zip.net/bmmwmC). Só que a população acha que é. Acho que isso se dá porque não sabemos a causa do câncer, e tudo que é desconhecido, assusta e também porque antigamente, não havia muito o que fazer, o câncer matava com maior frequência.

De qualquer forma, todos devemos nos cuidar bem, cuidar da nossa saúde (física e psicológica) e prevenir ao máximo as doenças sejam elas conhecidas e assustadoras ou não. Tendemos a projetar as doenças e males no outro, em algo totalmente fora na nossa realidade, mas isso não é responsável muito menos verdadeiro. Esses males podem acontecer com qualquer um, é comum que quando nos aconteçam, pensarmos “Por que eu?” sendo que a pergunta correta seria “Por que não você?” todos estamos expostos e vulneráveis a doenças e precisamos preveni-las. E o se você passar ou estiver passando por uma experiência ruim, o meu conselho é: tire o que de bom ela pode te dar, sempre existe algo! No nossa caso, nos cercamos de pensamentos positivos e pessoas que queriam o nosso bem verdadeiramente, isso tudo ajuda muito na superação!

Comentários
Colaborador

Volta e meia um ou outro amigo decide fazer um post especial para o NUPE. Fique de olho para saber QUEM exatamente é.

  • Cibele

    Parabéns pelo depoimento bem escrito e cheio de sensibilidade. Minha mãe também passou por isso e tudo nos uniu ainda muito mais. Que você, sua mãe e sua família possam aproveitar o máximo esse aprendizado e serem muito felizes o tempo que ficarem juntos!

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