Aviso: pode conter spoilers leves
“Pedro Bala, Professor, Gato, Sem-Pernas, Boa Vida e Dora são alguns dos integrantes do Capitães da Areia. Um grupo de jovens miseráveis que mora nas ruas e rouba para sobreviver. São perseguidos pela polícia e temidos pela burguesia, enquanto tentam sobreviver numa Salvador pobre dos anos 30″
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FELIZ SETE DE SETEMBRO! [OBS: na verdade, 8 de setembro. Eu demorei mais que o esperado com esse post.] [OBS2: Esse post era para ser parte integrante do Especial Nacional!]
Para comemorar essa data tão especial para o nosso país, eu decidi publicar uma resenha de um dos meus escritores favoritos de todos os tempos (e brasileiro): O Jorge Amado!
Um pouco de nacionalismo é sempre bom, não? Em geral, nós estamos tão acostumados a consumir cultura de outros países (especialmente dos Estados Unidos) que acabamos esquecendo das coisas que o próprio Brasil produz. Não há nada de errado em gostar do que é produzido no exterior, mas eu acho que se a gente desse mais atenção à produção nacional, coisas melhores seriam produzidas. Por exemplo, acho que depois do sucesso comercial de autores como o Eduardo Spohr e a Thalita Rebouças, muitos autores foram incentivados a escrever ficção por aqui. Virar um best-seller é finalmente um sonho que pode virar realidade para um autor brasileiro contemporâneo, e eu acho isso incrível.

Enfim, eu realmente adoro os livros do Jorge Amado. E Capitães da Areia era um livro que eu queria ler há muito tempo. É sobre uma gangue de crianças e adolescentes de Salvador que rouba para sobreviver. Eles vivem num trapiche (quando eu estava lendo, eu procurei no google o que significava: é uma espécie de cais. Aprendendo novas palavras: YAY!) e mal têm o que comer.
Cada um dos personagens possui uma característica única, e representam vários tipos que se podia encontrar na Salvador pobre dos anos 30. O que faz esse livro são os personagens, e é interessante analisá-los um a um. Infelizmente, eu acho que isso tomaria muito tempo e seria meio cansativo. Mas é importante refletir sobre o protagonista, Pedro Bala.
É um rapaz de quinze anos, loiro, com um talho no rosto. Essa caracterização me incomodou um pouco no começo. Isso porque 80% dos livros clássicos são contados de uma perspectiva de um homem branco, o que me irrita profundamente. Na verdade isso
acontece até hoje em dia, especialmente em seriados e filmes de catástrofe, em que os negros sempre morrem primeiro. Uma das explicações para isso é que como o filme precisa ser contado de uma perspectiva branca, é natural que os negros morram antes dos brancos.
Mas termina que o fato de ele ser branco não é o que o torna o líder do grupo. Para falar a verdade, ele não aparece mais no livro do que os outros personagens. Ele também é importante na trama porque é o que representa o lado político da obra. Ele é naturalmente um líder, e por ter convivido com a pobreza desde cedo, se torna mais tentado a seguir um caminho de esquerda. É importante ressaltar que nessa época, Jorge Amado era filiado ao Partido Comunista.
Outro personagem que chamou minha atenção foi o Sem-pernas. É o personagem mais pesado do livro. Como o nome sugere, é um garoto coxo, que foi espancado por policiais quando era criança. Amargurado, odeia tudo e a todos. Até mesmo seus amigos Capitães da Areia. Para ele, a única forma de suportar o mundo é sendo cruel com todo mundo.
Dá para reparar que ele foi inserido na história como uma forma de o Jorge Amado expressar que violência gera violência. Em seu íntimo, Sem-Pernas não é uma pessoa ruim, mas as circunstâncias em que cresceu o deixaram violento.
É muito clara a influência de pensamentos de esquerda no livro e é fácil perceber os sentimentos humanistas de Jorge Amado em relação aos Capitães da Areia. Eles não são retratados como vagabundos, e sim como vítimas. Existe até uma certa idealização do estilo de vida desses adolescentes, retratando-os como pessoas livres, genuínas.Em especial na hora em que a primeira garota integrante dos Capitães da Areia aparece, Dora. Ela é extremamente idealizada.
Uma das falhas do livro está aí. Vocês vão me achar chata se eu der uma de Britta (de Community) de novo?
Porque a Dora é exatamente o que poderia ser classificado como uma Faux Action Girl. Ela realmente não faz nada além de ser uma figura materna para o grupo, e ainda assim é referida como sendo incrivelmente corajosa. Mais corajosa até que outras mulheres que ficaram famosas por também serem bandidas. Acho que tem uma parte que o narrador compara Dora com outras crim
inosas da época, e diz que ela era dez vezes mais valente que qualquer uma das outras. Tudo isso sem uma prova concreta, porque ela não faz nada de extraordinário em nenhuma missão.
Isso me irritou bastante, mas não estragou o livro. Tirando esse lado idealizado, ela é uma boa personagem.
A narrativa do livro, aliás, é fantástica. Acho que tem alguma coisa de especial no jeito que o Jorge Amado escreve. Eu nunca fui a Salvador, mas ele descreve a cidade tão bem que é possível se sentir lá. Sério, eu lia os diálogos e imaginava os personagens falando com sotaque baiano, de tão bem escritos que eram.
A história não tem aquele formato tradicional de introdução-conflito-desenlace, dos romances tradicionais. Ela é contada em forma de anedotas, de um jeito que dá para sentir a aura de Salvador muito bem. Cada capítulo trata um personagem, e como todos eles são muito diferentes, você nunca se cansa. A linguagem também não é difícil, o Jorge Amado usa um vocabulário muito parecido com o do nosso dia-a-dia.
É um livro que merece ser lido por qualquer um, especialmente se você gosta de clássicos. Leiam clássicos! Eu ADORO livros contemporâneos, mas os clássicos sobreviveram tanto tempo porque… são bons, oras. (Claro que existem clássicos que são incrivelmente chatos, mas a chance de você se frustrar é menor do que com um lançamento que foi lido por sei lá, dez mil pessoas. Clássicos foram lidos e relidos por milhões, e ainda são mais baratos. Viva a Penguin Books e a expiração de direitos autorais! Yay!)
Classificação: Cinco trapiches


















Raíssa Lins
8 de setembro de 2012
Li Capitães da Areia há alguns anos (era litura obrigatória no colégio) e lembro que gostei muito! Moro em Recife e já fui algumas vezes a Salvador e, realmente, o livro passa muito bem essa realidade de meninos de rua que a gente vê em vários lugares por aqui e por lá. Não sei se é viagem minha, mas essa “estrutura” do livro me lembrou um pouco Peter Pan e os Meninos Perdidos (Dora X Wendy). Lembro pouco da história de cada um dos meninos, mas sei que adorei Professor e já está em tempo de reler um livro tão bom, né?
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Tatiana
6 de outubro de 2012
Olá Cherry,
Sempre visito o blog de vocês e,apesar de ter visto a resenha de Capitães da Areia há algum tempo, só agora li realmente.Nascida e criada na Bahia, li esse livro ainda na escola, por volta dos 14/15 anos. Gostei da sua resenha só não concordo muito com sua opinião sobre Dora. Como que uma adolescente, moradora de rua, sem esperanças e que cuida de um monte de meninos abandonados, pode não ser corajosa? Acredito que ser mãe exige muita coragem, “mãe adotiva” então, nem se fala. Para mim, ser mãe é uma prova de muita coragem, mesmo sem prova nenhuma disso. Tirando como exemplo minha mãe, nunca fez nada de extraordinário mas ela é minha heroína. Enfim, era só isso. Parabéns pela resenha, gosto muito de ver livros nacionais nos blogs. =)
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