A idade dos milagres, Karen Walker
Número de páginas: 216
Selo: Paralela
Desde que a velocidade de rotação da Terra começou a diminuir, os dias ganham cada vez mais horas. A gravidade começa a se alterar levemente, os pássaros começam a desabar dos céus, as baleias morrem nas praias aos montes, as marés saem do controle. Enquanto alguns tentam se adaptar as mudanças, outros continuam manter a vida como era antes da Desaceleração. Júlia tem onze anos quando essas mudanças começam a ocorrer e além de ter que se adaptar a tudo isso, se vê as voltas com dilemas típicos da adolescência, uma crise no casamento de seus pais e seu avô que fica cada vez pior.
Pedi esse livro para resenhar para a Companhia das Letras porque adorei a premissa. Mostrar o cotidiano de uma garota no meio de uma catástrofe desse tamanho não é tarefa fácil, mas Karen Walker conseguiu fazê-lo muito bem. O início do livro me lembrou um pouco de quando aconteceu os atentados de 11 de Setembro, porque quando aconteceu, ninguém realmente sabia o significado daquilo. Eu tinha onze anos na época, como a Júlia, e a forma como os colegas da escola reagem ao anúncio da desaceleração foi bem parecida com a forma como meus colegas reagiram depois dos atentados.
Ninguém realmente sabia as consequências daquilo. Ninguém sabia a causa. Eu nem sabia que o World Trade Center era um prédio! A única coisa que tínhamos certeza era que tinha sido algo grande.
É mais ou menos assim que Julia se sente quando ouve a primeira notícia da desaceleração, embora seja óbvio que a Terra começar a girar mais devagar traga consequencias muito piores do que uma guerra ou ter que tirar os sapatos para passar num scanner antes de entrar num avião.
Não há explicação para o fenômeno, então não comece a ler buscando por ela. A proposta aqui é mostrar como a vida continua, mesmo nas situações mais adversas. Mesmo com medo, mesmo com a possibilidade do mundo acabar no dia seguinte, a vida continua com seus altos e baixos. As pessoas continuam a viver e a morrer da mesma forma, não importa o que aconteça. Pessoas se apaixonam, pessoas traem, pessoas fazem chacota das outras, pessoas desaparecem, pessoas mentes, pessoas dão presentes… Algumas coisas são constantes na vida, por mais que uma catástrofe tenha acontecido.
E a forma como a autora aborda isso, com Julia contando a história de quando tudo começou, é extremamente sensível. O livro é em primeira pessoa, no ponto de vista dela, e os relacionamentos dela com as pessoas ao seu redor são muito bem explorados. Adorei os personagens e como os dramas foram se desenrolando naturalmente, me fazendo manter um ritmo de leitura muito bom. Além disso, quando você se importa com os personagens, fica louco para saber o que vai acontecer com eles.
Estou tendo muita dificuldade para falar sobre esse livro objetivamente porque acabei de identificando com a Julie por vários motivos e não quero dar spoilers para vocês, então vou me focar em outra coisa. É muito interessante como A Idade dos Milagres consegue conciliar essa coisa de “coming-of-age” com o fim do mundo como conhecemos. Durante a narrativa são citados vários dos efeitos que a desaceleração causa no mundo, de mudar a duração dos dias e das noites à mudança do polo magnético terrestre. Isso afeta a natureza como um todo e, é claro, os humanos não estão fora dessa. Uma das tramas principais do livro envolve a adaptação biológica a dias extremamente longos e foi uma das coisas que mais gostei no livro (mas, shh, são spoilers!).
Se eu pudesse descrever esse livro com uma palavra seria bittersweet. Em português seria algo como “agridoce”, mas essa palavra não tem exatamente o mesmo significado. Em A Idade dos Milagres, ao mesmo tempo em que você tem pequenas coisas boas acontecendo, você também tem coisas ruins. Mas a melhor parte é saber que Julie ainda é nova e embora o mundo esteja cada vez mais louco, ela ainda tem muito tempo pela frente (se tudo der certo!) (mas, ei, vamos ser otimistas!!!).
Classificação Final: Quatro pássaros despencando do céu.
Page 1 of 2 | Next page
