“Saba passou a vida inteira na Lagoa da Prata, uma imensidão de terra desértica assolada por constantes tempestades de areia. O lugar não a incomoda, contanto que o irmão gêmeo, Lugh, esteja por perto.
Quando, porém, uma gigantesca tempestade chega trazendo quatro cavaleiros de mantos negros em seu rastro, a vida que Saba conhece chega ao fim: Lugh é raptado e ela tem que embarcar em uma perigosa jornada para resgatá-lo.
Repentinamente jogada na realidade selvagem e sem lei do mundo além da Lagoa da Prata, Saba não consegue pensar no que fazer sem Lugh para guiá-la. Por isso, talvez a maior surpresa seja o que descobre sobre si mesma: é uma lutadora incansável, uma sobrevivente feroz e uma oponente perspicaz. Com a ajuda de um audacioso e atraente fugitivo e de uma gangue de garotas revolucionárias, Saba se torna a protagonista de um confronto que vai mudar o destino de sua civilização.

Com ritmo arrasador, ação constante e uma história de amor épica, Caminhos de sangue é uma aventura grandiosa ambientada em um mundo futurista e violento. ”

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Uma coisa que me irrita nos críticos literários, aqueles de revistas e jornais como a Publisher Weekly e do New York Times, é aquela mania de procurar substitutos para livros famosos. Por muito tempo, procuraram um substituto para Harry Potter. Vários livros foram interpretados mal por causa disso, inclusive o clássico Seis Signos da Luz, que, aliás, é bem mais antigo que o próprio Harry Potter. Na tentativa desesperada de tentar ganhar tanto dinheiro quanto a produtora dos filmes de HP, alguns livros foram adaptados “errado”, isso é, tiveram o roteiro completamente alterado para se tornar mais palatável para audiências maiores. Tipo o que aconteceu com A Bússula de Ouro.
Depois, veio aquela história de Crepúsculo. Vieram aquela enxurrada de livros com uma proposta similar: histórias de amor com vampiros, anjos, e até zumbis. A “febre” mais recente com certeza é Jogos Vorazes, e o livro que estão tentando meio que “empurrar” como substituto lá fora é o Caminhos de Sangue, ou Blood Red Road, em inglês.
Eu não gosto dessa história de comparação, apesar de que, querendo ou não, ajuda o livro a ser lido. E pra mim, quanto mais pessoas lerem, melhor.

Mas enfim, se você está esperando uma cópia de Jogos Vorazes… não é bem isso. A história flutua entre o distópico e o pós-apocalíptico, e o aspecto de crítica social/política não é tão marcante quanto em Jogos Vorazes. Existe um sistema de pão e circo para acalmar a população, mas esse não é o cerne do livro, como no livro da Suzanne Collins.

Caminhos de Sangue não é um livro sobre sobrevivência. Saba poderia ter sobrevivido se simplesmente deixasse o seu irmão de lado e continuasse sua vidinha na Lagoa da Prata, procurando por água e comida. Mas ela decide ir para muito longe, até o palácio do rei, para recuperar seu irmão. Soa meio brega, mas querendo ou não, é um livro sobre família e sacrifício. Nesse sentido, a relação entre Saba e Lugh é muito similar a de Katniss e Prim.

Saba, a protagonista, é… FIERCE. Eu gostaria de pensar em outro adjetivo, mas acho que “forte” e “chutadora de bundas” não é específico o suficiente. Ela é do nível que tem um CORVO de estimação, gente. Não apenas um corvo, mas um corvo chamado Nero. Como o imperador que botou fogo em Roma.
Quão incrível é isso?
Ela é maravilhosamente bem construída. Eu vi algumas pessoas reclamando no Goodreads que ela tratava a irmãzinha dela muito mal (o que é verdade) e que ela se tornou um saco depois que ela conheceu o interessa amoroso, o Jack (o que não é verdade).
Antes de tudo, eu gostaria de adicionar que eu detesto quem acha que só porque a protagonista é forte não quer dizer que ela não possa ter interesse romântico.
Sim, ela estava procurando pelo o irmão. Não, isso não quer dizer que é SÓ ISSO que ela vai fazer no livro inteiro, porque se fosse, a história seria um saco.
Parece que existe uma obsessão com heroínas sem defeitos na literatura YA. Parece que algumas pessoas querem que as protagonistas sejam apenas projeções de virtudes e qualidades, e não pessoas de verdade. Talvez seja por isso que existe muito ódio direcionado a essas personagens, simplesmente por elas não serem perfeitas.
E o pior, quando elas não tem defeitos aparentes, logo são taxadas de mary sue. O público sempre espera um padrão que é impossível de ser alcançado.
Eu digo isso porque eu AMEI a Saba, apesar dos mil defeitos. E ao mesmo tempo vi muita gente insatisfeita com o personagem. Com certeza, o pior defeito dela é colocar o irmão gêmeo num pedestal, mas sem isso, não teria livro. Ela CRESCE durante a trama, passa a tratar sua irmãzinha bem melhor, e no final se dispõe a fazer sacrifícios por ela.
O mais importante, pra mim, é que o personagem se modifique no final da trama. Que ele cresça. E isso aconteceu em Caminhos de Sangue. A Saba do começo é radicalmente diferente da Saba do final. E isso que torna a personagem interessante, e real.

Agora, vamos para a parte mais legal, na minha opinião: a escrita do livro. Quem já teve a oportunidade de folheá-lo, mesmo em inglês, percebeu que tudo é escrito como se fosse falado oralmente. Saba não é escolarizada, e portanto o livro é inteiro é cheio de erros de concordância, ortográficos e abreviações como “tava” ao invés de “estava”. Por exemplo, na história inteira, quando são usadas formas no gerúndio, é sempre escrito algo como “ele tava trazeno o cavalo” ao invés de “ele estava trazendo o cavalo”. E isso não apenas nos diálogos, e sim e TODA a narrativa. Outra questão interessante são os diálogos. Não existem marcadores como  travessões e aspas. As falas vão direto na narrativa, apenas com “fulaninho falou isso” para mostrar que foi um diálogo.
Mesmo assim, a história é tão boa que você consegue prestar atenção nos diálogos mesmo assim, e os erros gramaticais são facílimos de se acostumar. Muita gente pode ter preconceito, mas eu acho que o livro não seria o mesmo sem esse fator.
É uma história honesta.
O tipo de livro que te faz lembrar porque você gosta de ler. Eu consegui até me acostumar com o fato que a narradora sempre usa artigo quando vai se referir a alguém, ficando um parágrafo cheio de “O Lugh disse aquilo” ou “Eu penso no Pai e como ele cantava pra mim”. Isso me irrita BASTANTE, como vocês puderam ver na resenha de Os Gêmeos. Sinceramente e sem querer ofender ninguém, eu acho que qualquer com a mente um pouquinho aberta consegue se acostumar com a linguagem de Caminhos de Sangue.

A distopia é muito bem encaixada, e olha que eu não sou fã do gênero. Eu gostaria de ser gostar mais, mas pra mim, parece que a maior parte das distopias, na essência, são muito parecidas, porque abordam as mesmas questões, como a perda de liberdade e de voz política. E eu não gosto disso de chamar qualquer livro já escrito de distópico, só porque ele possui um elemento ou outro dessa categoria vasta. Isso pra mim, faz parte dessa mania recente de romantizar a distopia,  o que na minha opinião, é terrível. Não é legal viver num mundo sem liberdade, com um governo repressor,  e querer viver num mundo assim está além da minha compreensão. O nosso país viveu uma situação similar a essa na Ditadura Militar. Se você tem pais ou avôs que vivenciaram essa época e tiveram a liberdade controlada, você deveria perguntar para eles se eles gostavam de viver naquela situação.
Agora, v0ltando a Caminhos de Sangue: Saba, a protagonista, não luta voluntariamente contra o sistema em si, mas o destrói quase sem querer. Para salvar o seu irmão, ela se junta a uma gangue de bandidas revolucionárias, as Gaviãs da Liberdade que são super importantes na luta da resistência contra o governo absolutista do livro. (não considero isso spoiler porque está na orelha do livro). Pra mim, o defeito do livro foi não ter dado enfoque no que acontece depois do final. É um livro bem curtinho, com 350 páginas, mas com uma história que daria para muito mais.
Eu fechei o livro com aquela sensação incompleta, sem saber o que acontecia depois. Sabe qual é a pior parte? A continuação só sai em outubro nos Estados Unidos.
E eu PRECISO saber o que acontece. Já estou roendo as unhas.

Um oferecimento de Editora Intrínseca.

Classificação: cinco corvos

  Off-topic: Vocês viram que o Brasil, junto com o México, é o país da América Latina com mais jovens leitores? Até mais que a Argentina, que tem o hábito de leitura.