Fahrenheit 451, Ray Bradbury

 No futuro, em vez de apagar incêndios, os bombeiros os iniciam. São, na verdade, uma patrulha designada para queimar livros e tirá-los do mundo. Guy Montag é um desses bombeiros, mas subitamente começa a se perguntar o que leva as pessoas a se agarrarem a aqueles tomos e chegarem ao extremo de serem queimados juntos com eles. O que os torna tão perigosos? O que os torna tão atraentes?

E é essa a premissa de Fahrenheit 451. O nome é referência à temperatura do ponto de ignição do papel queima (sério, gente, por que os Estados Unidos insistem em Fahrenheit? Em Celsius, é 232 graus) e a história gira toda em torno de ver o mundo pegando fogo. Seja no início, quando “Queimar é um prazer”, ou depois, quando Montag fica inconformado com o que vê ou ainda na última parte, que se chama “O Brilho Incendiário”.

Admirável Mundo Novo e 1984 retratam vários comportamentos que são parecidos com o que acontece hoje em dia, mas num sentido geral, não são exatamente sobre nós. Você reflete e vê semelhanças em algumas sociedades e fica chocado, mas Fahrenheit é sobre nós. Nós estamos a um passo de nos tornarmos as pessoas que estão sendo descritas lá. Cada vez mais, os livros, os filmes, a política e as notícias estão mais mastigadas porque as pessoas simplesmente não tem paciência. Elas não tem paciência – ou tempo – para pensar e dividem as coisas em espaços compartimentados. “Isso é útil, isso é inútil”. Por que ler um livro de ficção para refletir sobre ele? Qual o ponto de ficar horas discutindo sobre uma obra se você tem tanta coisa, tanta vida, tanto mundo? Qual o ponto de ter ideias quando podemos recebê-las todas regurgitadas, processadas e reprocessadas, direto na nossa garganta? Quem iria perder tempo com isso? Por que se importar se em cinco minutos outra coisa vai surgir e tomar o lugar?

Qual o ponto de um livro, se nada daquilo é real, se nada daquilo interage com você?

Fico frustrada, porque não adianta só ler. Não adianta passar os olhos por uma página, pegar a história e pronto. Você precisa pensar. Até o livro de entretenimento mais “fútil” tem ideias e você pode tirar coisas de lá, se parar para pensar sobre ele um pouquinho. Não tem nada de errado em discutir obras ficcionais, porque isso acrescenta detalhes na vida das pessoas. 

Além disso, no mundo de Fahrenheit 451, as coisas mais práticas tomaram o lugar das mais teóricas. O trabalho de vários pensadores virando cinzas, as ideias de centenas de anos pulverizada com um riscar de fósforo. E eu estou sendo pessimista para caramba, mas eu consigo ver um futuro assim. As pessoas não valorizam e não conseguem ver a relevância desses conhecimentos num mundo cada vez mais prático. Ou então elas não querem se deparar com questões existenciais, porque é muito mais divertido passar o dia no 9gag olhando piadas do que ler O Príncipe, de Maquiavel (por exemplo). É mais fácil passar uma imagem de revolta no Facebook do que começar a mudança no seu quintal.

Eu sei que isso virou um desabafo, mas o livro me fez ficar ainda mais frustrada. Coisas absurdas acontecem e Montag parece ser a única pessoa sã no meio de pessoas loucas, embora para ela pareça o contrário. Na busca pela felicidade constante, as pessoas se tornam tão infelizes e indiferentes ao ponto do protagonista e sua esposa sequer conseguirem se lembrar de como se conheceram! Ela fica o dia inteiro na sala, com seus telões 3D, interagindo com os seus programas e sequer se lembra o que acabou de assistir! E ver que isso acontece hoje em dia, que acontece comigo também… Eu acho que Fahrenheit 451 é a distopia que mais se aproxima do que nós estamos nos tornando.

Não quero ser indiferente. Não quero ficar no piloto automático, consumindo as coisas sem realmente me importar com elas. Não quero interagir com as pessoas por obrigação, quero interagir com elas porque me importo. Não quero entrar na internet e ver coisas sem sentido, que quero trocar ideias (Esse é um dos motivos pelos quais eu escrevo para um blog, comentando sobre as coisas que gosto).

Para não desviar totalmente o propósito desse post (posso chamar isso de resenha?), vamos falar um pouco sobre detalhes técnicos do livro: Bradbury tem um estilo de escrita muito interessante, que influenciou muito a Trash, que escreve para o blog. Flui muito rápido e a história é bem curta. Tem algumas ideias que não concordo inteiramente, mas, ei, vocês já viram que isso é uma das coisas que eu mais digo na vida. O livro é bem rápido, bem focado e na edição que eu li, de Bolso da Globo, tem duas notas no final do sr. Bradbury em que ele comenta os nomes dos personagens e a “patrulha” das minorias.

Sobre os nomes dos personagens, acho que Bradbury não fez de propósito, mas temos Montag e Faber, nomes de fabricantes de papel e lápis, respectivamente. O primeiro nome de Montag é Guy, que me lembra automaticamente de Guy Fawkes, o cara que tentou explodir o parlamento inglês e deu o rosto à máscara de V de Vingança. Mildred, a esposa de Montag, tem como significado “força gentil” e diz muito sobre ela. Por fim, Clarisse, uma personagem que aparece no início, significa “clareza” e trazer clareza é exatamente o papel dela na história.

Queria ler esse livro faz tempo e adiei, só decidindo passar tudo e ler agora para acompanhar o clube do livro da Nerdfighteria. John Green e Hank Green estão discutindo o livro no seu canal do youtube e ainda estão na primeira parte. Todo verão, eles fazem isso. Ano passado, foi com O Grande Gatsby (que é um dos meus favoritos).

Como a maior parte dos clássicos, Fahrenheit 451 virou filme em 1966  e já teve quatro adaptações da BBC. Ray Bradbury morreu mês passado e Fahrenheit 451 vendeu menos cópias desde seu lançamento do que Cinquenta Tons de Cinza no mês passado.

Parabéns para todos os envolvidos.

Classificação final: Cinco bibliotecas de Alexandria (e todo o seu conhecimento perdido)

Comentários
Bell

Codinome de Bárbara Morais, autora da Trilogia Anômalos. A quantidade de ideias que tem é inversamente proporcional ao seu tempo para fazê-las. Gosta de números tanto quanto gosta de letras - e jura solenemente não fazer nada de bom (enquanto estiver nesse blog).

  • Rebeca Cabral

    Meu irmão me deu o dvd alguns verões passados. Foi aí que comecei a me interessar por distopia e obviamente peguei primeiro Admiravel mundo novo e 1984. Só depois peguei Fahrenheit 451. O livro é curto, mas é um livro a ser pesado, pensado. Com um conteúdo muito extenso e sim, talvez as pessoas não queimem livros no futuro, mas esquecer deles não é muito diferente. Cada vez mais as pessoas dão menos valor e você tem de ouvir comentários do tipo: "Por que você perde tanto tempo lendo? Não leva a nada." de gente que perde os domingos vendo Faustão e que só aceita o que lhe falam. Isso me deixa triste. Parece um futuro bem plausível e eu queria fazer de tudo para escapar dele. Amei a sua resenha. Como já gosto muito do blog. E é bom saber que pelo menos ainda existem umas poucas pessoas dispostas a lutar contra esse futuro previsto.

  • Maria Fernanda

    Depois desse post, fiquei com muita vontade ler esse livro. Vi muito das minhas próprias frustrações e idéias nessa resenha-desabafo, porque as pessoas estão passando por um processo de estupidificação e parecem nem notar. É só percorrer a internet e ver os comentários em matérias super interessantes que poderiam dar origem a discussões bem legais reduzidas a "nem li, lol", "que perda de tempo", "o que isso vai mudar minha vida?", etc. Ou seja, qualquer coisa que não traga satisfação material imediata deve ser sumariamente rejeitada, desacreditada e esquecida...

  • Bell

    Pra mim, tl.dr é o resumo do que está errado na internet, ahahaha. Tipo, a pessoa não leu e ainda tem o despeito de comentar isso??? Por favor! Acho que você vai gostar muito desse livro. Ontem conversei com a minha amiga e ela disse, com todas as palavras, que não quer ver filme para pensar e se não for mastigado, ela não entende e nem se esforça para isso. Eu tinha acabado de ler o livro e fiquei toda "É ISSO! ISSO QUE ELE DIZ NO LIVRO.". Vou dar o meu para ela ler, ahahaha.

  • Trash

    ESSE LIVRO!! (Não faço mínima ideia de como você lembra que gosto dele, HIHI. IMAGINO QUE FALEI DEMAIS SOBRE) (É TÃO BOM!) (FICAVA RELENDO NA ESCOLA E SUBLINHANDO PARTES, UM NEGÓCIO MEIO DEPRIMENTE QUANDO UM LIVRO TRISTE SE TORNA SEU COMPANHEIRO, mas--) (ENFIM) AAAH, A prosa é tão linda, cara. Engraçado que antes de ler o livro eu associava ficção científica com algo mais, hm, rígido, e aí me veio F451 e, oooh, UM MAR DE CONCEPÇÕES FOI SUGADO POR UM GRANDE RALO. Não é purple prose - aliás, é meio seco até, mas mesmo assim um tanto poético? SEI LÁ, CARA, FEEEELINGS. ... ARGH, queria um comentário meu que fizesse sentido - YOU KNOW, PRA VARIAR - mas fico ainda menos sã quando é pra falar sobre algo que amo. ENTÃO. BEM. FIQUE COM ISSO: "ÓTIMA RESENHA XDDDDDD VISITA MEU BLOG http://façospamnoblogdosoutros.blogspot.com xD BJS!"

  • Bruno

    Adorei a resenha/desabafo. To terminando o livro ainda, mas concordo plenamente... O livro é MUITO frustrante de se ler por causa da estupidez dos personagens, a forma com que eles se fecham pra qualquer coisa que os faça pensar, duvidar, ou ficarem tristes... E esse é o pior em ler distopias. Não dá pra fechar e dizer "UFA, que bom que isso não acontece." Porque você fecha o livro olhando ao seu redor e notando como quase tudo que tá ali pode se concretizar e potencialmente ESTÁ se concretizando.

  • Miriam, Booker Queen!

    Eis o meu problema com distopias... a gente sai revoltado por 1) a história não ser aquela lindeza (meus personagens preferidos simplesmente........morrem) e 2) conseguirmos enxergar claramente os pontos em comum com nossa sociedade. Sinto um sentimento de incapacidade enorme! Já não assisto tevê (só alguns seletos telejornais) e tenho me distanciado um pouco do computador, porque notei essa alienação. Este é um dos meus preferidos! Quando li, o autor ainda estava vivo, e eu tinha esperanças de encontrar com ele um dia. As notas que ele deixou no final, sobre adaptações de livros e tudo mais, são a transcrição do que sempre pensei - e tento convencer as pessoas.

  • Suzanna

    Antes de tudo, preciso contar a minha história com o NUPE: eu visitava o blog quando encontrava o link em outros blogs, massss, por algum motivo idiota, eu nunca lembrava do endereço HUASHAUUHS e então, magicamente, há uns 3 meses (aproximadamente, a minha noção de tempo é terrível) achei o blog de novo e desde então visito diariamente. Sério, foi lindo quando eu achei o blog de novo, fiquei um tempão lendo os textos antigos e vendo os vídeos haha Eu já tinha lido sobre Fahrenheit 451 e parece ser bem interessante, a sua resenha-desabafo me deixou com ainda mais vontade de ler o livro. Ah, eu adoro isso de nomes pensados, muito mais legal do que nomes aleatórios. beijoss

  • Giu Caires

    E esse é o tipo de resenha que faz você pensar, e te deixa sem palavras. Imagina só como deve ser o livro. Fiquei MUITO ansiosa pra ler agora!

  • Lorran Feital

    "Fahrenheit 451" está na minha lista "vou ler" do Skoob há tanto tempo, que às vezes até esqueço dele. Depois dessa resenha, Guy Fawkes e tudo mais, acho que volto a ele com força. ;)

  • Liége

    Sempre quis ler esse livro, esse post me deixou com mais vontade ainda. Certamente vou ficar muito angustiada quando for lê-lo, porque esse tipo de coisa que você ressaltou e que eu também sinto que está acontecendo comigo me incomoda muito. Agora, fiquei mesmo embasbacada de saber que esse livro vendeu menos desde seu lançamento do que o tal 50 tons de cinza *_*.

  • Cíntia Mara

    Esse livro está na minha lista há anos, mas nunca compro. Prometo que um dia darei minha contribuição para que mais um exemplar seja vendido. Não que faça diferença, mas, whatever, é uma pena que ele seja pouco conhecido (eu mesma só ouvi falar depois que comecei a interagir com blogs literários).

  • Mônica

    "Ray Bradbury morreu mês passado e Fahrenheit 451 vendeu menos cópias desde seu lançamento do que Cinquenta Tons de Cinza no mês passado." Que conclusão, clap clap clap Vi o filme uns anos atrás, numa oficina sobre literatura, e quando algumas pessoas comentaram que "né, ficção, isso não aconteceria", a moça que tava ministrando mostrou notícias sobre lugares que queimavam Harry Potter (foi na época que os livros ainda saiam e tinha sempre notícia sobre isso), então todo mundo ficou com cara de "é, né, então...". Também me sinto muito frustrada em ver que as pessoas em geral estão cada dia menos interessadas em discutir ideias e que de vez em quando eu sou um carneirinho (ôw) indo atrás e fazendo o mesmo. A refletir...

  • Patrícia

    Primeiramente, Bell você é uma ótima escritora. Gosto muito dos seus textos. Fiquei com uma vontade enorme de ler o livro agora. Já me interessava por ele, mas não dá pra ler tudo que queremos, né? Gostei muito da sua resenha, porque foi bem além de um simples texto sobre um livro.

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *