O post sobre a origem do termo distopia aparentemente ajudou muita gente a compreender melhor o que é esse negócio. Dessa vez, vamos discutir as características que são dadas para enquadrar as obras dentro do gênero e tentar ver se a gente entende um pouquinho mais.

Existe um tipo “clássico” de distopia que é o mais fácil de classificar e, pessoalmente, se foge muito disso, deixo de considerar como distopia. Só que ela não se limita a isso. Por exemplo, tem gente que acha que distopia só pode existir no futuro ou que só pode ser ficção científica. Isso não é verdade, como vamos ver a seguir.

Eu sei que a Wikipedia não é o melhor lugar para tirar informações, mas vamos trabalhar com as características que estão presentes lá, porque são as de mais fácil acesso. Lá, nós temos:

A literatura distópica costuma apresentar pelo menos alguns dos seguintes traços:

  1. Tem conteúdo moral, projetando o modo como os nossos dilemas morais presentes figurariam no futuro.
  2. Oferecem crítica social e apresentam as simpatias políticas do autor.
  3. Exploram a estupidez coletiva.
  4. O poder é mantido por uma elite, mediante a somatização e consequente alívio de certas carências e privações do indivíduo.
  5. Discurso pessimista, raramente “flertando” com a esperança.

Até você?

Tentem se lembrar das obras distópicas que você conhece.  Todas elas apresentam pelo menos um dos elementos acima, não é? Mas se você parar para refletir um pouco, isso é muito abrangente. Por exemplo, ter conteúdo moral e projetar como seria o nosso cotidiano no futuro não é exclusividade das distopias. Ou ainda oferecer críticas sociais e apresentar as simpatias do autor ou explorar a estupidez coletiva. Se olhar só por esse lado, as obras da Jane Austen são distópicas.

A wikipedia brasileira não ajuda muito, mas se você for para a versão em inglês, verá que o artigo é muito mais extenso e detalhado. Ele explicita quatro características principais que acho importantes, embora não concorde muito com todas elas. (Percebam, eu não concordo muito com muitas coisas)

1. Histórias Anteriores

O que a Wikipedia diz: Distopias geralmente possuem um motivo para terem acontecido. Seja uma guerra, uma praga, o apocalipse, uma revolução, superpopulação… Sempre há uma explicação para o motivo para a aplicação de medidas extremas naquela sociedade. Segundo a wikipedia, como uma distopia se passa tipicamente no futuro, normalmente há uma tecnologia mais avançada do que a que existe no presente.

Comentários: Nem todos os livros tem uma explicação do surgimento da distopia. Para mim, 1984 não explica muito como o mundo se dividiu em Eurásia, Estásia e Oceania, só explicando o funcionamento do sistema. Sabemos que em algum momento o partido assumiu o poder para poder tentar controlar o Estado e só. Acho que faz mais sentido dizer que em distopias, foram coisas extremas que levaram a medidas extremas. Há uma pesquisa que mostra que durante crises e dificuldades, o povo tende a recorrer a políticos e posições políticas mais extremas. Lembrem-se da situação econômica em que a Alemanha se encontrava quando elegeu Hitler e as coisas farão mais sentido.

Outro ponto dessa descrição é a parte de se passar no futuro. Ele diz que nem sempre é assim, mas as pessoas normalmente ignoram essa parte. Não é verdade. Não Me Abandone Jamais (que está sendo sorteado aqui) foi escrito em 2005 e se passa na década de 80. Aliás, em Não Me Abandone Jamais também nunca é explicado exatamente como chegaram ali, mas sim o que levou até aquele ponto.

2. Herói

O que a Wikipedia diz: Ao contrário da literatura utópica em que um herói de fora conhece a sociedade, normalmente o herói da distopia é alguém de dentro do sistema. Um herói de fora iria ter um maior entendimento do que está errado numa distopia, subvertendo um pouco o objetivo da distopia. Um herói de fora não tem a assistência das pessoas que fazem parte da sociedade distópica, por ser visto como “diferente” (eles exemplificam com o herói de Admirável Mundo Novo).

Além disso, normalmente o herói é alguém que questiona a sociedade porque sente que há algo inerentemente errado nela e decide que vale a pena fazer algo para mudar. Às vezes, as visões dos heróis batem de frente com a das outras pessoas, mostrando que a fronteira entre utopia e distopia é basicamente de opinião. Eles também citam que outro arquétipo de herói é aquele que é de uma classe social alta, que consegue ver tudo que está errado no sistema e tenta mudar, sem muito sucesso.

Comentários: Esse eu achei bem redondinho, porque eles atacam direto os arquétipos. A maior parte das distopias opta por ter um heroi que é de dentro do sistema, porque assim é mais fácil explicar como ele funciona e mais fácil mostrar que, mesmo com toda a opressão, ainda existem pessoas capazes de pensar por conta própria e tentar mudar as coisas. Ainda assim, existem alguns livros em que o heroi é alguém de fora, como Admirável Mundo Novo, e, embora seja divertido ver a estranheza dele com o sistema, não tem o mesmo impacto de ser seu próprio povo/governo se voltando contra você.

No final, acho que devemos ter em mente que em distopia, o herói questiona a sociedade. Ele questiona como as coisas são feitas e tenta fazer algo para mudar (nem que seja sem querer, como a Katniss fez), sendo de fora ou de dentro da sociedade. Para mim, essa é uma das características principais de uma distopia.

3. Conflito

O que a wikipedia diz: Em muitos casos, o protagonista leva seus medos para algum representante da distopia que articula seus princípios. Normalmente há um grupo de pessoas que não está sob o completo controle do Estado e é nesse grupo que o protagonista geralmente confia para tentar ajudá-lo a mudar o sistema, embora na maior parte das vezes não tenha sucesso.

Comentários: Bem, o conflito central dos livros distópicos normalmente gira em torno do personagem questionar a forma o sistema e na tentativa do sistema de calá-lo. Sempre tentem lembrar de coisas reais quando forem achar características distópicas, porque elas são baseados em coisas que já aconteceram ou que acontecem ainda hoje. Na Ditadura Militar, aqui no Brasil, todo mundo que era contra o sistema (ou revolucionário) vivia com medo de ser pego e torturado, porque a tortura era a forma de fazer com que o medo os mantivesse calados. Aliás, o medo é uma ferramenta poderosíssima e alguns sistemas (ficcionais ou não) se sustentam basicamente em cima dele.

Sobre as pessoas fora da influência do Estado, nem sempre elas são organizadas. No caso de 1984, os proles (como ficou em português?) não estão cientes da hierarquia e das ações do Partido, mas são alienados pela política de pão e circo ao ponto de não questionar as decisões. Apesar disso, não estão sujeitos às mesmas regras que as classes acima deles. Em Admirável Mundo Novo, as pessoas de fora da sociedade são vistas como “selvagens”, quase como espécimes ameaçados de extinção. Já nos últimos distópicos juvenis que li, a resistência quase sempre é organizada. Não sei se isso deixa as histórias mais polarizadas (um lado é mau, o outro é bom) ou se mostra que existem coisas boas e ruins em todos os sistemas.

4. Clímax

O que a wikipedia diz? A história geralmente (mas não sempre) não é resolvida, mesmo que o herói consiga escapar ou destruir a distopia. Às vezes, a narrativa é lida com personagens que estão insatisfeitos e se rebelam, mas que não conseguem mudar nada efetivamente. Algumas vezes, o personagem muda para poder se adaptar às regras sociais. Esse tipo de narrativa leva a um senso de desesperança, como pode ser encontrado em 1984.

Comentários: Bem, a maior parte dos distópicos que li são bem assim mesmo. A distopia é um gênero pessimista por definição, com o objetivo de mostrar o quão ruim algumas atitudes podem ser. A maior parte delas são coisas plausíveis, algumas que acontecem realmente, mas são aumentadas ao ponto de nos causar choque. A ideia da distopia não é ser arco-íris e pôneis e sim, mostrar que existem coisas erradas. Eu estou lendo Fahrenheit 451 e a descrição de escola que Bradbury faz para a história, lá em 53 é tão assustadoramente parecida com o que temos hoje que chega espanta. Da mesma forma, você encontra paralelos de várias outras obras no seu cotidiano, porque eles tiraram isso de lá.

Uma das coisas que me fazem arrancar os cabelos é ver as pessoas comentando que vivemos numa distopia, sendo que a distopia é algo ficcional, criada justamente para nos alertar sobre as nossas ações. Na minha opinião, não podemos chamar de distópico algo real, da mesma forma como não podemos chamar algo de utópico. São dois temos que em sua essência servem para determinar coisas imaginárias, embasadas na realidade. A partir do momento em que se torna realidade, deixa de ser distopia. Da mesma forma como não chamamos tecnologias novas que se tornam realidade de ficção científica, não devemos chamar as posturas de distópicas.

De qualquer forma, essa citação de Handmaid’s Tale é extremamente relevante e descreve exatamente no que consiste o maior conflito das obras distópicas:

“Você não pode fazer um omelete sem quebrar os ovos, é o que ele diz. Nós achamos que poderíamos fazer melhor.
Melhor?, eu digo, com uma vozinha. Como ele pode pensar que isso é melhor?
Melhor nem sempre significa melhor para todo mundo, ele diz. Sempre significa pior para alguns.”

O que vocês acham? Tem algo a adicionar? Algo que discordam? Lembrando que os comentários são a minha opinião e quanto mais a gente discutir, mais aproveitamos sobre o assunto!

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