Pode conter spoilers. Lido em inglês, a sinopse do livro é a da edição em português porque ela é melhor do que a da edição em inglês e estou com preguiça de fazer uma nova.

“Há muito tempo Mo decidiu nunca mais ler um livro em voz alta. Sua filha Meggie é uma devoradora de histórias, mas apesar da insistência não consegue fazer com que o pai leia para ela na cama. Meggie jamais entendeu o motivo dessa recusa, até que um excêntrico visitante 


É que Mo tem uma habilidade estranha e incontrolável: quando lê um texto em voz alta, as palavras tomam vida em sua boca, e coisas e seres da história surgem como que por mágica. Numa noite
noturno finalmente vem revelar o segredo que explica a proibição.

 fatídica, quando Meggie ainda era um bebê, a língua encantada de Mo trouxe à vida alguns personagens de um livro chamado “Coração De Tinta”. Um deles é Capricórnio, vilão cruel e sem misericórdia, que não fez questão de voltar para dentro da história de onde tinha vindo e preferiu instalar-se numa aldeia abandonada. Desse lugar funesto, comanda uma gangue de brutamontes que espalham o terror pela região, praticando roubos e assassinatos. Capricórnio quer usar os poderes de Mo para trazer 

de “Coração De Tinta” um ser ainda mais terrível e sanguinário que ele próprio. Quando seus capangas finalmente seqüestram Mo, Meggie terá de enfrentar essas criaturas bizarras e sofridas, vindas de um mundo completamente diferente do seu.”

***

Eu acabei fazendo o caminho inverso de todo mundo. Geralmente as pessoas lêem Coração de Tinta antes e depois lêem A Maldição da Pedra, e outros da Cornelia Funke. Na verdade, minha história com ela começou há algum tempo, na sexta série, quando eu peguei o Senhor dos Ladrões na biblioteca da escola, mas eu não tive tempo para ler (nunca funcionei com esse negócio de prazo de biblioteca) e fiquei com um tanto de preguiça para renovar o meu empréstimo.
Então, simplesmente deixei pra lá. Mas fiquei com essa vontade de ler algo dela. Então, no final do ano passado, a Cia. das Letras ofereceu A Maldição da Pedra para resenha e eu me APAIXONEI. Você pode ler a resenha aqui.

Então eu acabei comprando Inkheart na Livraria Cultura, e levei para ler na minha viagem para a praia. Como esse começo de ano foi MUITO atribulado pra mim (MAS EU TIREI 38 DE 40 NUMA PROVA DE ÁLGEBRA, FUCK YEAH), eu fiquei enrolando muito, mas mesmo assim, eu estava gostando. Depois que passou minha semana de provas, eu li as 400 páginas que faltavam em tipo, um dia.

É perfeito desse jeito, gente. E eu realmente não consigo começar dizendo qual é a parte que eu mais gostei. Assim como Maldição da Pedra, Inkheart é um livro de fantasia do jeitinho que eu amo. Infelizmente, esses elementos não estão TÃO presentes em Inkheart quanto em Maldição da Pedra, mas ainda possui aquela aura mágica tão encantadora. Ele é, por definição, um livro bookholic. O que importa mais são a relação dos livros com as pessoas, e eles são os protagonistas da história. Se você já suspirou lendo um livro, já varou a noite para terminar AQUELA história perfeita, Coração de Tinta é pra você. Você vai se identificar, e apesar da história ser sombria em alguns momentos, desejar que aquilo tudo acontecesse com você.

Aliás, me dói no coração não terem feito uma adaptação realmente boa desse livro, porque apesar de o  filme se manter fiel a várias cenas do livro, ele mudou completamente a sua essência. Aquele amor aos livros que é explícito na narrativa da Cornelia fica meio em segundo plano no livro. É uma pena, realmente.

Outra coisa: eu tenho impressão que em geral, livros infanto-juvenis da Europa costumam ser menos moralistas que os americanos. Digo, hoje em dia, porque Crônicas de Nárnia… né? Mas se você for reparar, até que faz sentido: Bússula de Ouro (motivos óbvios), Harry Potter (a J.K trata do luto e da morte de uma forma muito natural e vagamente traumatizante. POR QUE MATAR PERSONAGENS LEGAIS?)… enquanto outras séries americanas ótimas, tipo Percy Jackson, têm um pé atrás em tratar temas mais densos, e focam mais no humor. Mas, logicamente isso não é uma regra, afinal, temos Desventuras em Série pra provar o contrário.

De qualquer maneira, Coração de Tinta entra na lista dos livros europeus. Pra quem não sabe, a autora é alemã e o livro foi traduzido para o inglês.
A premissa, que pode parecer bobinha para algumas pessoas (não pra mim, obviamente), ganha contornos perigosos no livro. Na maior parte do livro, eu fiquei: “OH MEU DEUS, E SE TUDO DER ERRADO E A HISTÓRIA TIVER UM FINAL TRÁGICO?”, mesmo que eu já tivesse visto o filme. Não é raro um filme mudar o final da história original.
Algumas cenas são um tanto sombrias, principalmente quando os personagens estão presos na vila do Capricorn. Todas as implicações da existência dos personagens de Inkheart no “mundo real” ficaram bem verossímeis. No filme, se eu não me engano, só existiam dois silvertongues (pessoas que têm a habilidade de trazer personagens de livros para o mundo real lendo em voz alta), [spoiler SUPREMO]  o Mo e a Meggie, [/spoiler], mas no livro existe mais um. Isso explica como todos os outros personagens saíram do livro, já que o Mo só trouxe o Capricorn, o Basta e o Dustfinger.  Antes que você pergunte, Inkheart também o livro fictício de onde os personagens trazidos pelos silvertongues vieram. Sim, tem o mesmo nome do livro de verdade. Para diferenciá-los, eu vou me referir ao livro dentro do livro por “Inkeart”, entre aspas.

QUE CONFUSO! INKHEART-CEPTION!

Enfim, a Cornelia é uma autora cheia de sacadas geniais, e uma delas foi trazer o escritor do “Inkheart” para a história, ajudando os protagonistas. Ele fala que geralmente as pessoas não reparam nos escritores, porque depois que a história ganha vida, quem a escreveu deixa de ter importância. Eu concordo com ele.

O livro é cheio de personagens carismáticos, e todos tem o seu papel importante. A minha favorita com certeza é a Elinor, a tia da Meggie, uma colecionadora de livros que ama os exemplares da sua coleção como se fossem filhos. Uma certa cena envolvendo os livros dela é de partir o coração. Outro favorito é o Dustfinger, um homem trazido das terras fantásticas e pseudo-medievais do “Inkheart” para o nosso mundo barulhento e super-povoado. Ele morre de saudades de casa, das fadas e das florestas. Não me admira, porque o mundo do “Inkheart” parece ser perfeito. De qualquer maneira, ele se apaixona por umadas empregadas do Capricorn, que tem um segredo que vai partir o coração dele. SÉRIO, é muito triste. Me deu vontade de abraçá-lo e dizer que ele pode se casar comigo, se quiser. Sério, eu tenho uma crush muito enorme pelo Dustfinger, que não pode ser expressa racionalmente por palavras. Se eu tentasse verbalizar esse sentimento, provavelmente sairia na forma de grunhidos e guinchos tipo: “GWAAAH, AAHH, O AMOR”.

Como algum jornal importante falou na contracapa, Inkheart é basicamente um livro sobre aqueles que amam livros. É lógico que existem outras coisas, a fantasia, a aventura e ação, mas a essência é essa. E sobre como livros unem pessoas, não importando as circunstâncias. Um negócio que algumas pessoas falaram, mas que eu não concordei, é que Coração de Tinta é muito lento. Eu não sei se eu não tive essa percepção porque eu li devagar, ou porque a história me tocou de um jeito muito especial, só que eu realmente não achei isso. Pelo contrário, eu me senti mal de ter lido o resto tudo de uma vez, porque eu queria que o livro continuasse para sempre. Sim, a Cornelia virou uma das minhas escritoras favoritas.

Classificação: cinco silvertongues