A Regiane e o Paulo foram assistir o filme na pré-estréia, na terça-feira, e eu obriguei pedi gentilmente que eles fizessem resenhas para nós. O filme é a adaptação americana do primeiro livro da série Millennium, Os homens que não amavam as mulheres. O filme estréia amanhã em todo o Brasil e eu realmente recomendo que vejam!
O interessante da resenha dos dois que é a Regiane leu o primeiro livro e o Paulo não. São duas visões diferentes sobre o mesmo filme.
Além disso, no domingo eu provavelmente farei a minha resenha, porque li os três livros e vi o primeiro filme sueco. Na minha, em vez de falar sobre o filme, pretendo focar nas diferenças entre eles.
Estão prontos!?!?!

Antes de começar a falar do filme, quero contar que ganhei o ingresso pra pré em uma promoção no Facebook da Companhia das Letras. Pois é. Eu, que sempre enchia a boca pra dizer que não ganho nada, consegui descolar DUAS prés de filmes na mesma semana. \o/ (A outra foi pro Tintim.)

Faltavam umas 150 a 200 páginas pra eu terminar o livro no dia em que ganhei o ingresso, então me joguei na tarefa de terminar antes de ir ver o filme, achei que valia a pena. (Vale dizer que meu tempo pra leitura de lazer é curto, mas li TODAS as páginas que faltavam de uma tacada só.) Terminei o livro apaixonada pelos personagens e curtindo muito a história, mas fui pro cinema meio apreensiva por ter ouvido algumas pessoas dizendo que eu devia ter visto o filme sueco primeiro.

Pra começo de conversa, a abertura do filme já é uma porrada na cara. A música é pulsante e intensa e as imagens são lindas, meio confusas e fascinantes. Como o título em português virou um tremendo spoiler, a gente já sabe que tem agressão a mulheres na história, e a abertura deixa isso bem claro.

A história (simplificada) é mais ou menos assim:  Mikael Blomkvist é um jornalista e dono de revista que publica um artigo detonando um magnata industrial, mas como não consegue provar o que publica, se ferra e é condenado a pagar multa por difamação. (Isso fica meio enevoado no começo do filme, mas depois a gente acaba entendendo.) A carreira dele e a revista ficam meio acabados por conta disso, e ele fica deprê e quer se afastar. Nisso aparece um coroa, Henrik Vanger, com uma proposta tentadora: que ele escreva a história da família Vanger (que ele alega ser a família mais doida e com as piores pessoas do mundo) e, paralelamente, investigue o desaparecimento/assassinato de Harriet Vanger, sobrinha dele, quarenta anos antes. Ele hesita, mas não tem muito pra onde correr e acaba aceitando. Se muda lá pro fim do mundo e começa a ler e estudar tudo sobre a família e o fatídico dia.

E onde entra a garota tatuada? Ela foi a pessoa que investigou a vida de Blomkvist e fez um dossiê sobre ele para o advogado de Vanger. A partir dessa investigação, Vanger teve certeza de ter feito a escolha certa. A garota, Lisbeth Salander, é introspectiva, inteligentíssima e pessoa de poucos amigos, mas acaba sendo recrutada para ajudar Blomkvist na investigação, a partir do momento em que ele começa a ter algumas ideias sobre a história de Harriet.

Juntos, eles formam uma dupla genial. São opostos que se complementam, uma equipe que funciona melhor por um aceitar o outro como é e entender as qualidades que cada um tem a oferecer para a investigação. Paralelamente, conhecemos um pouco da história de Lisbeth, e já aviso logo que quem gosta de um toque “girl-power” vai curtir muito essa personagem. Eu adorei, tanto no livro quanto no filme, e achei que o trabalho de caracterização ficou super bem-feito.

A trama em si precisa de alguns atalhos pra ser resolvida. Com um livro enorme como ele (522 páginas na edição da Companhia das Letras que tenho em casa, a da capa vermelha), é preciso fazer certas escolhas pra tentar dinamizar o filme, que já é longo pra caramba. De um modo geral, não achei esses atalhos ruins, mas se você for ao cinema e gostar do filme, compre o livro e leia. Você não vai se arrepender e nem vai encontrar exatamente a mesma história. Não há dúvida de que a solução gradual do escritor funciona melhor.

Sei que algumas pessoas  vão ver o filme e achar que a Rooney Mara trabalha mal. Mas é justamente o contrário: ela age exatamente como a personagem é descrita no livro, contida e explosiva, indiferente e intensa. Achei que ela ficou perfeita como Lisbeth Salander. Senti falta de mais Dragan Armansky no filme (porque achei um personagem super legal) e achei que a cumplicidade do Blomkvist com a Erika ficou muito superficial. E lamentei a pouca atenção que deram à questão dos quadros com as flores secas.

No fim das contas, o maior problema é a sensação de ”tudo muito rápido” que o filme passa. Eu até gostaria de saber de quem viu o filme sem ter lido o livro se a sensação foi essa também e se pareceu confuso. Conforme as coisas iam acontecendo, toda hora eu pensava: “mas já?” Ainda assim, minha avaliação foi bem positiva. Gostei de o filme se ambientar na Suécia e dos detalhes suecos, apesar dos atores americanos e da língua inglesa (acho o fim quando refilmam e transferem os eventos pra Nova York, sei lá). E achei a caracterização dos personagens excelente. Eles estavam praticamente todos de um jeito que encaixou perfeitamente com o que visualizei ao ler o livro (menos uma, quem leu e vir o filme vai saber qual).

Pra quem tem coração fraco, vá preparado: o filme tem cenas fortes, mas nada gratuitas. O enredo em si é forte, e a verdadeira história por trás do desaparecimento de Harriet Vanger é cruel e sórdida. E, na minha opinião, o pano de fundo da história pela qual Blomkvist é condenado por difamação acaba se perdendo um pouco frente à intensidade da investigação e da garota com a tatuagem de dragão.

Minha avaliação? Quatro tatuagens grandonas e uma pequenininha e meio escondida.

 

Uma vez eu li um post do autor brasileiro Eduardo Spohr sobre como ler seu primeiro livro (“A Batalha do Apocalipse”) e em um dos tópicos ele dizia que se você colocar muita expectativa poderia estragar um livro ou filme. Desde que li esse texto passei a controlar um pouco a minha expectativa porque sempre que eu leio comentários positivos a respeito de um livro/filme ela vai nas altura e na maioria das vezes eu acabo me decepcionando. Mas com “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” não consegui segurar, pesquisava várias informações sobre o livro, os filmes suecos, o filme hollywoodiano e a expectativa cresceu ad infinitum e o medo de me decepcionar também.

Esse medo só durou até… a abertura do filme. Sério, só aqueles minutos iniciais ao som de um cover de Immigrant Song interpretado por Karen O. já valia pelo filme todo, hahaha.

Não posso fazer comparações com o livro nem com a versão sueca do filme, mas uma coisa posso dizer: Estou completamente apaixonado por Millennium. A história é bem diferente do que costumo ler/assistir já que não sou, ou melhor, era muito fã de histórias policiais. Mas Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander se mostraram personagens muito cativantes e foram interpretados perfeitamente por Daniel Craig e Rooney Mara, respectivamente. (Falando na Rooney, achei a indicação dela ao Oscar de Melhor Atriz muito digna, agora é esperar e ver se ela ganha ou não)

Em todos os comentários que li sobre o filme sueco o fato de não terem “amenizado” as cenas de violência era mencionado e, a partir daí, criei um pensamento de a versão hollywoodiana deixaria essas cenas fracas e/ou subentendidas.  Meu pensamento estava erradíssimo. David Fincher, o diretor, não se importou em amenizar as cenas de violência e acredito que isso tenha sido um fator importante. Mesmo sem ter lido a obra literária, sei que Stieg Larsson queria passar o ‘choque’ da violência sexual e se isso não tivesse sido incluído de forma explícita no filme talvez tivesse tirado a essência da história original.

Uma coisa que me incomodou muito foi o final do filme. Não pelo rumo que a história tomou, mas porque achei que foi um pouco corrido. Depois que o caso Harriet Vanger foi resolvido ainda tinha uma outra história a ser resolvida, o do processo que Mikael sofreu. Não sei se no livro também foi assim, mas o desenvolvimento da história que estava em segundo plano me pareceu muito corrido.

Tirando esse detalhe final o filme foi perfeito é daqueles filmes que você PRECISA assistir, independente de gostar de histórias policiais ou não. Um aviso: tomem cuidado com as crianças assistindo esse filme.

 Classificação: Cinco tatuagens de dragão

A Regiane Winarski colaborou com a gente no Como se faz um livro e é tradutora. O Paulo Vaughan é leitor do NUPE faz tempo e agora tem um blog super legal, o Conversa Cult.

Se você quiser ver a tão falada abertura, você pode clicar nesse link aqui. (Eu confesso que vi e MEU DEUS DO CÉU. Não me canso de ver. Mas mais palavras sobre ela na minha resenha)