Bem gente, vocês já sabem o esquema. Mais cedo saiu o post da Giu sobre Tradução e Revisão, e agora é a parte das perguntas! ENJOY :D (sim, vou acabar dando pitacos aqui ou ali)

  • Regiane Winarski já traduziu Dezesseis Luas, Swoon e Insaciável, entre vários outros títulos. É formada em PE, mas nunca atuou na área.
  • Gui Liaga está fazendo um curso sobre o mercado literário e é agente literária e jornalista, além de fazer uns bicos como revisora por aí.
  • A Iris Figueiredo é autora de Dividindo Mel e dona do Literalmente Falando.

HEY, HO, LET’S GO!

Quantas vezes um livro é revisado, antes de ser publicado? (Amanda, Thaís, bilhões de outras pessoas)

Regiane: Acreditem se quiser, tem editora que nem faz revisão. Conheço pelo menos uma assim. Mas isso não é a regra. Em geral, pra livros traduzidos (que é o universo que eu conheço), são feitos um copidesque e duas ou três revisões.

Gui: Depende da editora, mas o usual é que tenha três revisões durante o processo de produção e com revisores diferentes, além da última lida do editor.

Por que mesmo depois de ser revisado, alguns livros vem com erros de digitação? (Amanda)

Regiane: Porque as pessoas que trabalham na revisão são humanas… Na verdade, quem revisa não é quem digita. Às vezes o tradutor erra, o revisor conserta, mas pode errar outra coisa, o digitador pode não entender direito ou não perceber uma emenda, e assim vai. Não é o que deveria acontecer, mas acontece. Por exemplo, no caso de trabalho meu como tradutora, já peguei erros no livro pronto que surgiram no processo de revisão, ou seja, depois que eu traduzi e entreguei pra editora. A gente precisa entender que essas coisas acontecem e que, de um modo geral, quem trabalha no livro procura fazer o melhor possível. E que, como em qualquer profissão, existem profissionais melhores e piores.

Gui: Primeiro porque ninguém é perfeito, erros acontecem. Segundo pela falta de atenção dos revisores e, principalmente, pelo editor responsável por aquele projeto. Uma editora sempre tem mais de um livro em produção ao mesmo tempo e isso pode atrapalhar, ainda mais se o prazo de tempo para a publicação é curto e fazem na correria. Contudo, erros grotescos de conjugação e regência verbal não devem ser ignorados e tiram o status de profissionalismo da editora responsável.

Iris: Porque é um humano que revisa e todo ser humano está passível de erros. Você acaba “acostumando” com o texto de tanto que vê e ele passa batido. É bem comum encontrar diversos erros numa primeira edição que passaram sem querer pelo revisor e copidesque.

Como o tradutor faz pra traduzir um livro? Quanto tempo leva? No caso de um livro de fantasia que tenha termos próprios, como ele lida com isso? Quem decide a tradução desses termos é o editor ou o tradutor ou os dois?  (Amanda, Thaís)

Regiane: Eu costumo ir lendo conforme vou traduzindo. Pra mim, isso faz com que o trabalho fique mais interessante, pois vou descobrindo o livro à medida que traduzo. Mas tem livros que não funcionam assim. No caso de White Cat, por exemplo, que tem uma terminologia toda sua e que deu um certo trabalho pra escolher, acabou sendo mais fácil ler o livro inteiro, debater com a editora e com duas amigas os termos que escolhi e depois sentar pra traduzir. (Mas o livro é tão bom que até a segunda e a terceira leitura, pra traduzir e depois pra revisar, foram tão boas quanto a primeira.) Em geral, a tradução dos termos de livros de fantasia é assim, o tradutor escolhe mas o editor ou o copidesque podem mudar. Eu, como sou perfeccionista e gosto de caprichar na tradução quando o livro tem uns termos bem específicos, costumo mandar uma cartinha junto com a tradução concluída pra explicar como fiz o processo todo e justificar minhas escolhas, pra ver se convenço o editor a manter o que decidi. Quanto ao tempo pra traduzir um livro, obviamente isso depende do tamanho do original, mas eu trabalho com uma cota diária (que eu decidi, pra manter meu ritmo) de dez páginas do original por dia, o que deixa o trabalho relativamente folgado quanto ao prazo da editora, me permite ter alguns dias de imprevistos e me dá tempo no final pra ficar uns dias afastada do livro antes de reler pra revisar. Pra mim, passar uns dias longe dele é fundamental pra eu reler com a cabeça fresca e detectar melhor os erros.

Como é escolhido a tradução de um título de um livro estrangeiro? (Margô Costa, Thaís)

Regiane: O tradutor dá palpite, mas quem escolhe é o editor, tendo em vista o apelo de mercado e se o título original é viável em português. Tenho certeza de que todo mundo prefere manter o mais próximo do original possível, mas nem sempre um determinado título funciona na nossa língua.

Quantas pessoas geralmente estão envolvidas no processo de revisão? (Thais)

Regiane: Um copidesque e dois ou três revisores, em geral.

Gui: Três revisores diferentes, além do editor chefe.

Iris: Geralmente são duas pessoas.

Sempre quis saber como são escolhidos os tradutores, e se existe algum tipo de especialização entre eles. Existem tradutores que só traduzem um gênero específico, como fantasia? (Larissa Cavalcante)

Regiane: Para todas as editoras que trabalho/trabalhei, fiz um teste de tradução, geralmente o primeiro capítulo de um livro que a editora tem para ser traduzido. Alguns tradutores acabam trabalhando sempre com um mesmo gênero, mas costumamos fazer de tudo um pouco, principalmente quando a grana aperta. Eu faço infanto-juvenil (YA), mas às vezes faço autoajuda e livros da área de saúde (mas não técnicos), e já traduzi romances. (No caso de tradutor técnico, costuma sim haver uma especialização por conta da terminologia técnica, bem mais específica do que no caso do tradutor de ficção.)

Gui: Tem empresa que possui tradutores já contratados, existem os que fazem como serviço de freelancer e alguns autores estrangeiros já possuem conhecidos no país e os indicam para que traduzam as suas obras. Tudo depende de que livro e editora estamos falando.

Eu gostaria de saber se os autores tem sempre alguém que os ajuda a separar o livro em capítulos e escolher o título. Quem é que faz a sinopse? O autor ou outra pessoa?  (Lana Miranda)

Gui: Bom, se o autor quiser mostrar para alguém seu texto e pedir ajuda, acredito que qualquer um pode auxiliá-lo na montagem do livro. Os agentes literários fazem isso quando contratados e o próprio editor quando seleciona um título para publicar em sua empresa o monta da forma como é o padrão da sua empresa. Sinopse, diagramação, produção, tudo isso é trabalho da equipe editorial.

Iris: Geralmente o autor que divide os capítulos – e ele resolve ou não escolher um título para o capítulo. O editor pode cortar ou pedir para que o autor adicione um capítulo, sugerir mudanças no título dos capítulos, etc. A sinopse pode ser feita pelo autor e enviada para a editora ou criada por alguém dentro da editora.

Um tradutor pode usar de seu ‘poder’ para mudar completamente o sentido de uma frase? Li uma vez que um tradutor havia mudado completamente a frase, e então essa é a minha dúvida, se ele pode realmente mudar livremente o que ele quer ou tem alguma regra obrigatória a seguir? (Camila Leite)

Regiane: Não, um tradutor não pode mudar sentido de frase. Se isso aconteceu, é possível que o tradutor não tenha entendido o texto original. O bom tradutor procura preservar o texto como é e manter a voz do autor, mas faz as adaptações necessárias para que o texto fique adequado à língua para a qual está traduzindo. A “liberdade” do tradutor é limitada. Mas, dependendo de como uma frase ou parágrafo é escrito, nós podemos mudar a ordem para deixar mais natural ao português.

Gui: Existe bom-senso. Tem casos judiciais onde tradutores são processados por terem alterado o teor de uma obra. Se o autor descobrir e não gostar, isso dá muita dor de cabeça. Mas algumas palavras ou expressões em outras línguas não existem na nossa, aí vai do tradutor conseguir a melhor tradução para que não fique sem sentido o texto.

Dayse: MORAL DA HISTÓRIA, um tradutor tem o poder de mudar o sentido de um texto, mas não DEVE fazê-lo. De um jeito ou de outro, tradução acaba sendo uma coisa pessoal, por mais profissional que a pessoa seja, porque tudo vai depender da familiaridade que a pessoa tem com o livro, o contexto em que a história do livro está inserida, a língua original do livro e a língua da tradução (no nosso caso, o português). Então não é só colocar o texto no Google Translator. Um tradutor tem que ralar e ler e estudar MUITO.

Qual é exatamente a função de uma pessoa que faz “preparação de originais”?

Gui: Analisa o texto para saber se ele faz sentido, se não existe palavras repetidas ou ‘comidas’, para ver se os parágrafos estão coretos e a pontuação também. Ele arruma todo o texto para que a sua produção possa ser iniciada.

Qual a diferença de um revisor para um copidesque? (Ju)

Regiane: O copidesque avalia a transposição entre a língua original e a da tradução. É ele que vai procurar possíveis erros de tradução ao comparar os dois textos. A pessoa que faz o copidesque precisa necessariamente saber a língua original. O revisor avalia gramática, ortografia, pontuação, erros de espaçamento, parágrafo, entrelinha, mas também acaba pegando pequenos problemas de texto, coerência, sentido de frase. São trabalhos distintos que se sobrepõem, porque quem está acostumado a ler o livro para avaliar, acaba observando tudo.

Iris: O revisor preocupa-se apenas com erros de português. O copidesque preocupa-se com o texto num geral: desde termos que não foram traduzidos, por exemplo, nomes trocados, furos na história, estrutura das frases, etc.

Algum escritor já teve que mudar o título do seu livro porque a editora não gostou? (Joelma)

Gui: Com certeza, vários já passaram por isso. O autor nem sempre é um conhecedor do mercado editorial, cabe a editora auxiliá-lo para que o seu livro tenha o título, a capa e o enredo mais vendável e receptivo pelo leitor possível.

Iris: Sim. O editor tem liberdade de sugerir um novo título que seja mais adequado a um livro ou que seja mais “apelativo” para o público.

Dayse: De todos os autores que eu acompanho, a grande maioria (e só não falo todos pra não generalizar demais) afirmam que o titulo da primeira versão do livro acaba mudando na hora das revisões, e eles são muito gratos por isso.

É ISSO GENTE! Semana que vem: Projeto Gráfico e Impressão!