Este é um guest post feito pela Giu. Ela se apresenta e conta, na forma de uma historinha, como se dá a escolha de títulos em geral no mercado editorial. A cada semana, vamos começar com as historinhas dela e ter outros posts com outras opiniões e visões a cerca do assunto para que tudo fique mais completo! Pedi a ajuda de vários profissionais (e alguns estudantes) das áreas conexas para responder as suas perguntas. OK! Paro agora, porque vocês já devem estar ansiosos, né?
Com vocês, a Giu!
 

Oi, pessoal do NUPE! Aqui é a Giuliana Alonso, mais conhecida como Giu. Eu tenho 25 anos, sou formada em Produção Editorial pela UFRJ e trabalho há cinco anos no mercado editorial, com livros infantis, juvenis e YA. Já trabalhei na Galera Record e agora estou na Rocco.

A Bell me mandou mil perguntas que vocês fizeram sobre a produção de um livro, todas muito interessantes e ótimas, porque vocês são uns lindos! Mas, em vez de respondê-las no esquema “entrevista”, achei que seria mais legal comentar sobre a produção do livro do começo ao fim, e assim ir respondendo às dúvidas de vocês. O que vocês acham? Todo mundo concorda? Então vamos começar! \o/

Um belo dia do final de novembro, nosso amigo escritor — vamos chamá-lo de Steve —terminou seu manuscrito. Iei! Parabéns para ele… Agora é revisar, revisar, revisar. Quando nosso amigo Steve acha que finalmente seu livro está pronto para ser publicado, ele tem dois caminhos a seguir.

O primeiro é tentar direto com as editoras, que é o que a maioria dos escritores brasileiros faz. O ponto positivo dessa abordagem é que, caso seu livro seja escolhido para publicação, você terá controle direto sobre a negociação, contrato e tudo o mais. O ponto negativo é que as editoras (e quanto maiores forem as editoras, pior é essa situação) recebem MUITOS, repito, MUITOS originais a serem avaliados… Então, as chances do livro do Steve ficar numa grande pilha de originais não-solicitados por algum é bem grande, e é bem capaz que ele não seja lido completamente. Não diga que não te avisei, cara! Mas acredite, não é pessoal.

Como assim!?!? MEU ORIGINAL PERFEITO!!!

O segundo caminho que Steve pode seguir é o de tentar conseguir uma agência literária. Isso é muito comum, e eu diria que quase a regra, no mercado americano, assim como, imagino, no inglês. Nos outros países não sei dizer. O processo de avaliação de um agente literário é, de certa forma, parecido com o das editoras, mas como avaliar possíveis clientes é uma grande parte do trabalho do agente, é mais provável que o original do Steve seja lido e, talvez, até receba um feedback. Caso a agência ache que o livro está pronto para ser publicado, será a agência quem irá apresentar esse original às editoras, logo a possibilidade de ele ser pelo menos avaliado cresce consideravelmente.

As duas maiores agências literárias brasileiras são a Lucia Riff e a Karin Schindler, que representam tanto autores nacionais quanto estrangeiros. Mas também existem muitos outros agentes por aí! Como para tudo na vida, o Google é seu amigo.

Voltando ao Steve… Ele conseguiu um agente, TODASCOMEMORA.

Agora, o agente vai entrar em contato com as editoras, apresentar o manuscrito e tentar “vender o peixe” daquele livro — por que ele vai ser um sucesso, por que ele vai ganhar muitos prêmios, por que ele é o próximo Crepúsculo (NÃAAAAAAO!!!). As editoras vão ler (não se engane, Steve, mesmo com um agente é difícil alguém ter tempo de ler mais do que 100 ou 200 páginas do seu manuscrito… Mas, afinal, se as 100 primeiras páginas do negócio não são boas, quem é que vai aguentar ler, né?) e refletir…

Entra o editor. Vamos chamá-lo de Ed. Ed está sentado à sua mesa de trabalho, com uma pilha gigantesca de provas de um lado e seu chefe gritando de outro porque os livros estão atrasados. Ele acabou de ler as 100 primeiras páginas do manuscrito do Steve e gostou muito! Achou o ritmo bom, a trama é interessante e os personagens, cativantes. Tem algumas coisas a serem melhoradas — uma incongruência no roteiro aqui, uma personagem meio clichê ali — mas, no geral, ele gostou. Antes de apresentar o livro dele ao chefe, sugerindo aquele título para publicação, ele pensa: “Mas nós já não temos três títulos a serem lançados que falam de pessoas com superpoderes?” “Hum, esse livro tem um tema polêmico. É alguma coisa sobre a qual a nossa editora quer  se posicionar?” “É literário ou comercial? Se é literário, tem potencial para ganhar prêmios ou ser adotado por escolas?” “É uma série?” “Tem outras editoras interessadas nele?” Como vocês podem ver, o Ed tem muitas coisas a pensar. Se as respostas a essas perguntas forem favoráveis, ele vai chegar pro chefe e sugerir o valor a ser oferecido pelos direitos de publicação.

A questão do adiantamento é espinhoso, gente, nem te falo. O dinheiro que o Steve vai ganhar quando assinar o contrato de publicação é esse tal de adiantamento. O que isso significa? Significa que a editora acredita que aquele livro vai vender pelo menos aquele valor, e que ela vai recebê-lo de volta. Porque não se enganem: quando maior o adiantamento, mais tempo o autor fica sem receber direitos autorais referentes à obra. Ele só vai começar a receber o “lucro” quando o livro vender além do valor pago de adiantamento. Às vezes é possível que a editora, por mil motivos, queira publicar o livro mas que não queira pagar um adiantamento. Isso NÃO significa que ela não acredita no livro, e sim que ela prefere esperar para ver se o livro vai vender ou não. (Isso é incomum, mas acontece principalmente em casos em que o tema do livro é polêmico, difícil… Livros que podem vender muito ou ficar super encalhados.) O valor pago pelo adiantamento varia muitíssimo, de 4 a 7 digítos! E isso varia tanto no mercado brasileiro quanto no internacional.

De quatro a SETE dígitos? Tipo de 1000 a 1000000?

Mas acontece que o livro do Steve é o primeiro de uma série. Ele já tem os próximos cinco planejados, os três primeiros rascunhados. O agente do Steve pode virar para o Ed e falar: “Cara, tem outra editora interessada nessa parada… Você quer fazer oferta pra série toda?” É claro que essa seria uma grande aposta da editora, mas como o Ed simplesmente adorou o livro, e vai em frente e contrata os três primeiros volumes da série, e o Steve faz uma dancinha feliz com o gato dele em casa quando fica sabendo. O autor pode aceitar essa oferta, ou preferir esperar a oferta da outra editora. Agora que tem mais de uma editora interessada no livro dele, o Steve é o cara!

Go, Steve, Go!

Depois de algum tempo, Steve resolve começar outro projeto. Esse é totalmente diferente, para outro público, com outra linguagem. O agente do Steve como se costuma fazer: manda o livro pro Ed primeiro.

— E aí, cara! O Steve escreveu outro livro. É diferente daquela série que você gostou muito, mas veja se você está interessado.

O Ed para e pensa: “Meu, eu gostei tanto do primeiro livro do Steve! Vou levar essa parada pra casa e ler hoje mesmo!”

Mas, quando Ed chega na editora no dia seguinte, ele está triste. Não é que ele não tenha gostado do livro novo, não é isso. Mas é poesia/ fantasia/ livro de criança/ livro de adulto, ou qualquer outra coisa que não se encaixa na linha editorial da editora do Ed. Ou então o tema é espinhoso. Ou os outros livros parecidos com aquele que a editora já lançou não foram bem. Ou a editora já tem 293280871402184712847 outros livros de vampiro. Ou ele simplesmente achou ruim. Seja qual foi o motivo, o Ed conversa com o chefe, reflete, às vezes manda o livro para ser lido por outra pessoa e pede um parecer… Se ao fim e ao cabo a editora resolver não fazer a oferta, o Ed vai ter que ter aquela conversa complicada com o agente do Steve.

— E aí, cara… Então… Sabe o livro novo do Steve? Então, a gente acha melhor não fazer oferta para ele, pelo motivo X, Y ou Z. Mas a gente ainda ama o bom e velho Steve!

A partir do momento que o Ed abriu mão da preferência que ele tinha por ter sido o primeiro a publicar o Steve, o agente pode oferecer o livro para outras editoras, e o processo de negociação começa todo outra vez.

Esse cenário é um dos possíveis para explicar por que às vezes o mesmo autor é publicado por editoras diferentes, mas existem muitas outras possibilidades — não é sempre que a editora tem essa “prioridade”, o próprio Steve pode estar insatisfeito com o trabalho do Ed, o agente pode achar que outra editora vai pagar mais por aquele trabalho…

Para finalizar a parte de avaliação, compra e negociação de títulos, algumas coisas que não couberam na minha historinha:

  • Ter um blog literário ajuda a ser bem-visto por uma editora na hora da escolha publicação? Não necessariamente. Quanto mais informações a editora tem sobre o autor, melhor, e o blog entra nessa categoria. Um blog literário pode ajudar a compreender as influências do autor, o estilo, se ele sabe escrever… Mas não é um fator decisivo na escolha.
  • Os títulos estrangeiros só são adquiridos nas feiras internacionais? Não! Ao contrário — a maior parte dos negócios é feita antes das feiras. O mercado é muito competitivo, e hoje em dia muitas editoras vão às feiras com a maioria das suas “compras” já feitas.
  • Existe uma pesquisa junto ao leitores para saber quais livros eles desejam conhecer? Não é bem uma pesquisa oficial, digamos. Normalmente os editores são pessoas bem conectadas, que estão ligadas às coisas que estão acontecendo no mundo e com o seu público. Então é possível que, quando um livro comce a gerar um burburinho, as editoras se interessem por ele. Mas esse tipo de compra é com certeza mais incomum, pois em geral a editora recebe o livro para avaliar muito antes que qualquer leitor tenha acesso a ele!

Gente, essa foi a primeira parte da minha participação no especial de aniversário do NUPE! Espero que tenham gostado. Aguardem o próximo post!

Um beijo,

Giu