Pode conter spoilers leves.

Título: A Bússula de Ouro
Autor: Phillip Pullman
Editora: Objetiva
Preço: R$47,90(versão normal), R$24, 90 (versão de bolso)

O primeiro volume da trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman, se passa em um mundo muito parecido com o nosso – mas com algumas curiosas diferenças. Ciência e religião se confundem. Todo ser humano possui um daemon, um animal inseparável que na infância toma várias formas. E existe um raríssimo objeto que aponta a verdade, mas ninguém sabe fazê-lo funcionar. Lyra é uma menina levada que vive na tranqüila cidade universitária de Oxford, na Inglaterra. Lá, crianças começam a desaparecer. E quando seu grande amigo Roger, some, Lyra parte em sua busca, disposta a desafiar seus próprios temores. Na paisagem árida do Norte, onde tenta encontrar Roger, Lyra enfrenta uma terrível conspiração que faz uso de crianças-cobaias em sinistras experiências. Entre ursos usando armadura e bruxas que sobrevoam as sombrias geleiras, Lyra terá que fazer alianças inesperadas se quiser salvar o amigo de seu trágico destino.

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Não é exagero falar que fazem alguns anos que eu quero esse livro. Tipo, tudo começou quando eu tinha uns 11 anos e comecei a gostar de ler. Sabe, bons tempos de Artemis Fowl, Desventuras em Série, Vampiratas, Discworld… nessa época, eu ouvi falar de Fronteiras do Universo, acho que foi na época que o filme lançou. Eu lembro que até hoje, eu não vi o

filme esperando o livro. SE PASSARAM QUASE CINCO ANOS. After all this time?

Ok, isso foi muito mais dramático do que deveria ter sido, mas vocês entenderam o espírito!

Tá, agora é a hora que você se pergunta “Por que você não leu isso antes?” e eu choro dizendo: “EU NÃO SEI.” Ele meio que se perdeu entre os milhares de livros que eu conheci nessa época, e então veio Percy Jackson, e Agatha Christie, e a Sra. Meg Cabot e a Montanha Enorme de YAs de “menina” que eu li na faixa dos 12-14 anos.  Tipo, a linha que separa o YA e o middle-grade é praticamente invisível, mas hoje em dia eu posso falar seguramente que amo livros que eu AMO middle-grade estilo “aventura e fantasia” mais do que outro… gênero (é um gênero?). Até os livros que eu estou terminantemente enjoada que uma garota esquisita ficam mais mágicos quando tem aquele ar de infância, mesmo que os personagens não tenham de 12 a 15 anos.

Tipo, eu AMO YOUNG-ADULT, eu também amo livros para gente adulta, mas middle-grade me toca de um jeito que é meio impossível de definir. Me lembra aquela época que eu estava descobrindo a leitura, é ágil, animado, cheio de ação e OHH! É lindo. Em geral, eu sou atraída por aqueles livros de aventura e fantasia, é paixão mesmo. E se você também é viciado em fantasia, quase com certeza nós temos um gosto em comum: Crônicas de Nárnia.

É acertado: 90% das pessoas que são viciadas em fantasia têm Crônicas de Nárnia como parte importante da infância/pré-adolescência. É lógico que tem outros, tipo Senhor dos Anéis, mas Crônicas de Nárnia em geral vem cronologicamente antes na vida da maior parte das pessoas. Então, a parte legal é que Crônicas de Nárnia é importante não só na vida de nós, pobres mortais, como também na vida de autores incríveis tipo o Neil Gaiman, a J.K Rowling e… O PHILLIP PULLMAN, autor da Bússula de Ouro!

Quer dizer, eu só estou supondo, mas ALÔ, ele mora em Oxford, aquela cidade respira Tolkien/C.S Lewis/Lewis Caroll e fantasia [e eu vou pra lá em Julho! TODAS SE EMOCIONAM!]. E apesar de eu não gostar de comparações, existe muita inspiração narniana em Bússula de Ouro… agora eu cheguei no aspecto mais legal do livro. Quando eu lia, eu só ficava imaginando ele lendo A Última Batalha e ficando irritado com aquele final. O Phillip Pullman tem a mesma obsessão do C.S Lewis com o conflito entre o bem e o mal, a infância vs. a vida adulta. O problema é que o Lewis enxergava nisso uma oportunidade de inserir morais cristãs na história inteira. O Phillip Pullman decidiu construir uma história para crianças que subverte vários valores e te faz pensar, assustado: “ISSO É PRA CRIANÇA?”. Só para dar um exemplo: ele desconstruiu totalmente aquela idéia do pai e mãe que amam os filhos acima de tudo. Um trecho de partir o coração é quando a Lyra vira para o dimon dela, o Pantalaimon e pergunta: “Por que esses adultos odeiam tanto as crianças? O que nós fizemos para eles?”

Uma parte interessante da história é como o autor lida com a religião. São poucos os livros que abordam a religião sem serem tendenciosos para qualquer lado. É estranho ver que a protagonista não tem ABSOLUTAMENTE ninguém para guiá-la. É verdade que os adultos ajudam ela várias vezes durante os livros, mas são ajudas esporádicas. Na maior parte das vezes, a Lyra só se salva graças à própria astúcia e esperteza. É interessante/assustadora essa falta de proteção que ela tem, não existe uma figura maior e mais sábia para protegê-la contra todas as ameaças do cruel mundo lá fora. Não existe um Aslam, um Dumbledore, um Obi Wan. Em outras palavras, não existe Deus no livro. É lógico que você pode interpretar esse Deus no lado mais católico e tradicional da coisa, masse você for parar para pensar, a figura de Deus existe em praticamente todas as obras do mundo. Parece raciocínio de “Como achar Jesus em Harry Potter”, mas está tão subentendido que a gente nem repara. Em aventuras em geral, sempre existe aquela figura protetora, que está acima de tudo e zelando pelo protagonista. Eu nomeei alguns lá em cima, mas eu acho que o Aslam é o mais óbvio. É por isso que de vez existe o chamado Deus Ex Machina, quando esse personagem maior aparece e salva o herói de uma Morte Certa e Terrível. O negócio é isso não existe em a Bússula de Ouro. É a coisa que eu achei mais chocante no livro. É a ausência absoluta de um adulto bondoso para falar “vai ficar tudo bem”.

 De certa forma a religião foi explorada nessa falta de, só que o aspecto mais visível é o jeito que o autor retrata os católicos como vilões. Os “cientistas” (chamados de teólogos no livro, só para você ter uma noção), representados pelos Catedráticos, podem até não ser um exemplo de ética, mas a Igreja no livro sequestra e corta criancinhas. E ainda fala que é para um bem maior. Percebe a sutileza? É lógico que criança é inteligente e não se deixa levar por essas coisas, mas se eu fosse uma mãe texana ultra-cristã, talvez eu fcasse ofendida.

Eu sinto falta de livros que retratem o cristianismo como algo que pode ou não pode contribuir com a sua vida, e não como  a) a resolução de todos os seus problemas ou b) um mal terrível que só afeta gente ignorante. Não que o Philip Pullman faça exatamente isso, mas dá para perceber que ele não se esforçou e nem vai se esforçar para dar um papel mais simpático para a Igreja.

Enfim, a parte mais adorável do livro com certeza são os dimons. Eles são uma representação física e animal das pessoas, e todo mundo tem um. Durante a infância, eles assumem várias formas conforme a vontade dos seus donos, mas depois da puberdade e da formação da personalidade do dono, eles param de mudar. Os dimons são os companheiros das crianças, mas em A Bússula de Ouro deu a entender que quando você vira adulto, seu dimon vira um fardo. Como aquela parte da sua personalidade que você insiste em negar. O conflito do livro é justamente movido por esse incômodo, já que o dimon representa a parte animal das pessoas, que a tal Igreja-vilã do livro quer tanto se livrar. Vou parar por aqui, porque senão…

A única crítica realmente séria que eu tenho ao livro, que virou um dos meus favoritos, é que a princípio, as coisas são meio mal-explicadas. O autor te joga no universo dele sem pedir licença. Ele simplesmente assume que você já sabe. Como a Tata do Psychobooks disse, o dimon se materializa assim que a pessoa nasce ou sei lá, vem um dimon-cegonha entregá-lo?

Apesar disso, o livro é ÉPICO. É demais mesmo. É o tipo de livro que pode facilmente ser encontrado em sebos, ou até mesmo na livraria. Só que na livraria provavelmente vai ser com a capa do filme, que muita gente não gosta. Acho que eu finalmente entendi o motivo de ele estar na lista da BBC de livros para ler antes de morrer. Quer dizer, Fronteiras do Universo não é muito hypado aqui no Brasil, mas parece ser muito popular na Inglaterra. Eu acho que isso meio que frusta os meus planos de bater na casa do Phillip Pullman em Oxford e pedir para ele autografar a minha… vida. (não fez muito sentido, mas quem liga?)