Sam é aquele tipo de garota popular que todo mundo conhece: vai a todas as festas, namora o carinha de um time esportivo, não desgruda das amigas, faz parte da parte mais alta da cadeia alimentar na escola. Só que ela morreu.
Simples assim.
E em Antes que eu Vá, acompanhamos o seu último dia antes de morrer. Várias vezes. E em cada uma das vezes, ela tenta corrigir alguma coisa para que no dia seguinte, não acorde novamente no mesmo dia.
A ela foi dada uma segunda chance. O que ela fará?

Ok, a sinopse feita por mim não ficou tão legal assim, mas Antes que eu Vá é um livro maravilhoso. Não esperava menos, sendo da Lauren Oliver (eu amei Delirium). Pelo que percebi, o negócio dos livros dela é pegar você na unha e te fazer refletir sobre a vida.

Eu demorei muito para engatar na leitura. Sam personificava tudo o que eu mais odeio e agia de formas que eu não concordava de forma alguma – desde comportamentos ilegais (como dirigir bêbada) a tratar as pessoas mal só porque é popular e para ser legal e cheguei ao ponto de pensar “Essa menina totalmente mereceu morrer” durante o primeiro dia. E é exatamente nesse ponto que ela fala:

Mas antes que comece a me acusar, permita-me fazer uma pergunta:  o que fiz foi realmente tão ruim? Tão ruim que eu merecia morrer por isso? Tão ruim que eu merecia morrer assim?
O que eu fiz foi realmente tão pior do que o que todo mundo faz?
É realmente muito pior do que o que você faz?
Pense a respeito.

O que foi um tapa na minha cara, de verdade. Nós normalmente estamos tão presos aos tipos de comportamento que os outros tem e tão prontos para julgá-los que acabamos nos comportando exatamente da mesma forma que criticamos. E depois do primeiro dia, eu estava vidrada na história.

É incrível como, a cada dia, Sam faz uma coisa diferente e acaba mudando o desfecho do dia. A cada dia ela experimenta algo novo, passando da descrença e do medo a aceitação completa do que está acontecendo com ela. Ela passa a compreender vários lados da história e, apesar de se passar repetidamente no mesmo “cenário”, o livro não tem nada de repetitivo e os seus personagens são muito mais ricos do que de alguns livros com muitas outras situações e outros dias. Lauren Oliver tem aquele dom, sabe, de falar com os sentimentos do leitor e fazê-lo torcer pelos personagens e amar cada um deles.

O livro me lembrou muito Efeito Borboleta. Tenho certeza que já leram outras resenhas comparando as duas obras, mas não tem como não falar. Toda essa consciência de que o que você faz modifica o seu futuro está lá, toda essa coisa de que por mais que você tente, você não tem domínio do seu destino… E o mesmo tom melancólico. Por mais que você saiba que no outro dia ela provavelmente vai acordar exatamente no mesmo dia, você se pega torcendo para que, por favor, por favorzinho, se há alguma justiça no mundo, que ela acorde no dia 13 de fevereiro. E cada novo dia acaba se tornando tão frustrante para você quanto para ela, mas lá estão vocês dois novamente, torcendo para que dessa vez dê certo.

Eu me peguei adorando Sam lá pelo meio do quarto dia e torcendo para que ela acabasse se redimindo. Eu, assim como a personagem, acabei percebendo que há muito mais nas pessoas do que as suas ações e que as pessoas tem as suas motivações. Não existem pessoas boas ou ruins em Antes que eu vá, assim, preto no branco. Elas são pessoas comuns, com falhas, com dores, com segredos, com medos e desejos. Não há como não se identificar em algumas das situações e nem sempre são das pessoas que você se identificaria de cara.

A maior questão do livro é o bullying, mas ele não é retratado como uma chaga da sociedade, um sinal de que todas as crianças são psicopatas malucas. A sensibilidade da Lauren para temas delicados é incrível e a forma como ela nos faz compreender que algumas coisas são muito mais complexas do que parecem também é incrível. Além disso, a forma como ela retrata os laços de amizade me deixou tocada. Eu não sei se ando lendo os livros errados, mas em YA, em geral, é muito difícil ver uma amizade tão sólida quanto a que Sam tem com as suas três melhores amigas.

No fim, Antes que eu vá é um daqueles livros que são essenciais, por ter uma história incrível, bem elaborada e dar material para pessoas de qualquer idade refletirem. Para o seu público alvo, então, nem se fala. Eu tenho essa teoria que durante a adolescência somos muito mais fechados e mais propensos a julgar os outros com base no que vestem, ouvem, gostam e por onde pertencem, esquecendo que não são essas coisas que FAZEM as pessoas.

Classificação: Cinco rosas com bilhetinhos de “Nunca é tarde demais”