Vou começar pelo fim. Que nem a autora. Que começa contando que a “amiga” (com cujo nome a autora faz um trocadilho no título do livro, Alice/Beautiful Malice) está morta.

Não fui ao enterro de Alice. (…) Não, eu a odiava naquele momento e estava satisfeita com a morte dela. Era Alice quem tinha arruinado minha vida, tomado a melhor coisa que eu já tivera, para estilhaçá-la irreparavelmente em um milhão de pedaços. Eu não chorava por ela, mas por causa dela.

Ainda bem que o final do livro foi relativamente feliz. Bonito, mostrando o quanto Katherine evoluiu depois de todos os terrores pelos quais ela passou, antes e depois de conhecer Alice. Porque todos os horrores que ela passou antes de ter que se mudar de cidade e de nome foram lamentáveis o bastante, e, de certa forma, foram o que a deixou tão cega quando a garota bela, popular e aparentemente simpática e meiga, resolveu ser amiga dela.

Eu teria estranhado alguém aparecer do nada e julgar “necessária” a minha amizade. Isso tem cheiro de stalker, não é? Porém, uma pessoa fragilizada, como Katherine, acaba, mesmo com todos os sinais de que algo estranho e fedorento está no ar, sendo atraída pela possibilidade de uma nova amizade, de um novo amor, enfim, de algo novo em sua vida, ainda mais depois de uma experiência tão traumática como a que ela teve e da qual sobreviveu.

Katherine isolava-se. E tinha motivos para fazer isso. Motivos sérios. Como ela mesma diz:

Estou me escondendo, sei disso, estou sendo covarde, mas neste exato momento preciso ser invisível, ser o tipo de pessoa que não desperta nenhuma curiosidade. De modo que eles nunca precisem descobrir quem eu realmente sou ― nem o que aconteceu em Melbourne.

Mas não vou dar detalhes demais da história, para não dizer, quase nenhum. O que vocês podem saber, que não vai estragar as surpresas, é que Alice não é tão bela por dentro quanto é por fora. Aliás, ela é uma pessoa horrível. Quando eu soube o motivo pelo qual ela fez todas as atrocidades que fez… fiquei com mais nojo dela ainda. E foi uma pena ela ter morrido, na minha opinião, ela merecia algo bem pior do que isso.

Ela ri. É uma risada asquerosa, fria, sem humor.

Essa é a autora, Rebecca James. Olha a carinha simpática dela!

Eu adorei o estilo de escrita da Rebecca James (e esse é o primeiro livro da autora, vendido para 35 países! Ieeeei!), e, especialmente a forma como ela escolheu estruturar Bela Maldade: os capítulos são intercalados entre o que houve antes de Katherine ter que mudar de cidade e deixar sua vida para trás, os eventos que se desenrolaram desde que ela conheceu Alice, todos os terrores perpetrados por ela, não só contra Katherine, como também com as pessoas de quem ela gosta, e como ela está hoje, mais velha, e não só refletindo sobre os acontecimentos que ela viveu entre os 15 e 17 anos, como também contando o “final” de sua história que, se é muito triste e tétrica e tensa (t-t-t), também é uma lição de vida de que dá para se dar muito mal na vida e ainda ser feliz. Não basta ser uma sobrevivente. É preciso viver também.

Os próprios trilhos foram arrancados debaixo de mim, despregados do chão, destruídos.

A narração em primeira pessoa é feita com os verbos no presente – uma escolha delicada por parte de alguns autores que foi usada com maestria por Rebecca James, e que faz com que nos adentremos nas situações, que sintamos todo o drama (e, às vezes, entremeado com momentos felizes, bem felizes, só para depois ficarmos comendo as unhas, sabendo que aquela felicidade toda não vai durar, pois também sabemos, logo de cara, que o pai da filha de Katherine, assim como Alice, também está morto =/)

Será que tenho que me sentir mal para sempre? Minha vida inteira? Será esse o meu castigo por estar viva?

Um thriller psicológico daqueles que fazem com que a gente não queira fechar o livro, dividido em capítulos curtos que nos convidam a virar mais páginas e lermos mais um, e mais um… sem parar. Li o livro em 2 dias, e só parei, no primeiro dia, para “digerir” algumas das cenas mais tensas narradas por Katherine. Fechei o livro e fui dormir… triste com a constatação de como seres humanos podem ser baixos, hediondos, e usarem como desculpa aquela velha história de “a sociedade me fez assim”. É triste.

Ele segurou a brasa do cigarro deliberadamente contra mim e gritei.

As consequências de uma única má escolha podem ser devastadoras. Vivo com elas todos os dias.

Os aprendizados, as reflexões, a beleza da escrita da autora, o encanto e o desencanto com as “pessoas” más do livro… tudo isso faz com que o sofrimento valha a pena. Digo, o sofrimento que nós leitores sentimos ao “testemunharmos” as maldades sendo realizadas, uma atrás da outra.

Há algo fácil entre nós, algo quase mágico, e quando olho nos olhos dele, tenho uma sensação que só posso descrever como familiaridade. É seguro estar com ele. Como voltar para casa.

A história… é chocante. Terrível. Mas nos leva a refletir sobre muita coisa e, uma delas é que culpa é algo muito relativo. Não existe isso de “e se…?”

A culpa se espalharia por todos os lados, atingindo todo mundo… como um veneno.

Eu me lembro sempre de uma música do The Cure, especialmente da parte em que o Robert Smith diz que “there is no if, just and…” E é isso mesmo. Não existe “e se?” É algo aconteceu “e” temos que lidar com isso. E essa é uma das mensagens principais desse livro, de que não adianta se remoer com o que poderia ter sido feito, e sim com o que se pode fazer agora que as coisas ficaram feias, deram errado. Que alguém morreu…

E, sim, talvez todos os envolvidos sintam de fato algum remorso, perguntem a si mesmos se as coisas teriam sido diferentes se tivessem feito isso ou aquilo. Mas uma má decisão não transforma uma pessoa num assassino.

No contexto, essa quote é mais perfeita ainda, mas talvez vocês só cheguem a entender mesmo a profundidade dela no livro, porque a verdade é tão distorcida na história pela personagem psicopata (Alice), que Katherine muitas vezes chega a considerar-se culpada por uma morte que ela não causou. Uma sequência de eventos e decisões infelizes não torna Katherine uma assassina. Não.

Além disso tudo, apesar de o livro lidar com temas pesados, a autora conseguiu deixar sua escrita leve, então sentimos a tensão pelo que acontece, às vezes parece que estamos ali, do lado das personagens, e dá aquela vontade de gritar: “Cuidado! Não, não, não aceita as desculpas dela e-“

Estou me divertindo demais para dar ouvidos à vozinha de advertência que começa a soar em minha cabeça.

Esse livro é um excelente thriller psicológico. Em diversos pontos, ele deixa o filme Mulher solteira procura no chinelo. Eu me sinto de forma similar a como me senti lendo esse livro com a série de TV Ringer, que também trabalha muito bem o thriller psicológico e então esse livro só me fez ter certeza de que adoro o estilo! Porém, por ser um livro, e muito bem escrito, por sinal, a gente sente as emoções muito mais intensamente do que do que ao ver um filme ou uma série.

Só não recomendo esse livro a quem realmente passa mal, tipo, fisicamente mesmo, ao ler algo muito forte, porque eu digo e repito, os temas abordados são pesados. Tristes, tétricos tensos e intensos. Mas, depois de várias tragédias e atrocidades, ao menos tem final feliz :)

Nota: 5 recortes de jornal enviados pelo correio por uma psicopata!

Extras:

Ah, sobre a capa. Ela brilha, é linda. Fui pesquisar as capas, e tem várias versões. Parece, pelo que li, que essa nacional é a mesma usada na Inglaterra. E tem uma versão rosinha dela, muito bonitinha também (bonitinha demais, hehe, que nem a maldita da Alice! O.oo), como vocês podem ver ao lado.

 

 

Booktrailer de Beautiful Malice

Mas eu achei esse booktrailer italiano muuuuuuito mais bonito! O que vocês acham?

Beautiful Malice Book Trailer from Lorenzo De Palo on Vimeo.

 

Ana Death Duarte escreve no IcultGeneration e é tradutora.