Idioma original: Francês
Idioma de leitura: Português
Editora: Galera Record
Exemplar cedido pela editora.
No dia mais frio do mundo, Jack nasce e tem o seu coraçãozinho congelado por causa da temperatura. Então, a parteira e doutora Madeleine faz uma operação delicada, grudando um relógio ao coração do bebê para que ele sobreviva. Isso dá a Jack a oportunidade de viver uma vida quase normal. Seu coração faz barulho – porque é um relógio- e isso afasta inicialmente os primeiros casais que tentam adotá-lo e, depois, as crianças na escola e as pessoas da cidade. E é na cidade que ele encontra uma garotinha, quando ainda é pequeno, e se apaixona irremediavelmente.
Mas existem três regras para o bom funcionamento do coração dele:

Em primeiro lugar, não toque nos seus ponteiros. Em segundo lugar, controle sua raiva. Em terceiro, nunca, mas nunquinha mesmo se apaixone. Pois, neste caso, o grande ponteiro das horas transpassará para sempre sua pele no relógio de seu coração, seus ossos implodirão, e a mecânica do coração voltará a emperrar.

E é assim, meio com medo de que algo ocorra ao seu coração, meio ansioso para encontrar a sua amada, que Jack parte por uma expedição quase quixotesca pela Europa.

A Mecânica do Coração é uma das minhas primeiras experiências com um texto francês traduzido e, bem, aquilo que eu tinha suspeitas ao ver filmes e ouvir músicas foi confirmado na literatura. Há uma liricidade meio estranha em todas as coisas francesas em que coloco as mãos. Não sei descrever com palavras, mas Mecânica do Coração me deu o mesmo sentimento de Jeux d’Enfants. A leitura foi uma reviravolta de emoções, mas sempre pontuada por aquela surpresa e a estranheza.

Quando cheguei mais ou menos na metade, eu tinha certeza absoluta que o livro daria um ÓTIMO filme do Tim Burton. E quando cheguei no final, já tinha feito todo o casting dos personagens (um post sobre isso no futuro). A narrativa do livro é muito visual, cheia de metáforas que me auxiliaram a caracterizar os personagens melhores. Adorei como ele descrevia as pessoas comparando às vezes com pássaros, às vezes com coisas modernas que nem existiam na época em que se passa no livro. Além disso, achei interessante como a história é contada mais ou menos no presente, alternando os tempos verbais. Tem gente que não gosta disso, mas eu acho que dá uma riqueza para a história, dá uma sensação meio onírica, como se aquilo tudo fosse um delírio.

E Mecânica do Coração certamente parece um delírio. É uma história fantástica, então não quero ver ninguém lendo e dizendo que é “Sem noção”, recheada de absurdos deliciosos e de personagens caricatos. Além disso, o amor do nosso protagonista é bem visceral, físico até, e eu acho que é exatamente nessas partes que a narrativa atinge a sua liricidade máxima.

Esse é certamente um dos livros que vou comprar em francês para ler quando eu passar do intermediário! Um dos motivos pelo qual eu faço francês é porque eu acho o idioma muito poético e com umas construções curiosas. Tenho essa teoria que cada idioma foi feito para “fazer uma coisa” e, para mim, o francês foi feito para fazer poesia.

Enfim, o Mathias Malzieu é vocalista da banda Dionysos (que eu não conhecia até descobrir o livro, ano passado no México) e além do livro, lançou com a sua banda um album que conta a história de Jack e da sua Miss Acácia.

Eu recomendo o livro para todo mundo que quer uma leitura rápida de uma bela história de amor e uma montaha-russa de sentimentos conflitantes.

Classificação: Quatro óculos tortos e quebrados.