Ano: 2009
Língua: Português/Inglês
Editora: Intrínseca (português)/Hodder&Stoughton (inglês)
Autor: David Nicholls
Nome Original: One Day
“David Mayhem e Emma Morley se conhecem em 1988. Ambos sabem que no dia seguinte, agora que se formaram, deverão trilhar caminhos diferentes até porque eles não poderiam ser mais diferentes um do outro, mas depois de um dia juntos, não conseguem parar de pensar um no outro.
Os anos se passam e Dex e Em levam vidas isoladas – vidas muito diferentes daquelas que eles sonhavam ter. Porém, os dois se tornam amigos e mantém uma relação de amizade e amor que nem eles mesmo sonhavam ter um com outro. Algo deveria ter sido apenas um dia, se alonga durante os vinte anos seguintes, onde flashes do relacionamento complexo entre eles são narrados, um por ano, todos no mesmo dia: 15 de julho. Dexter e Emma enfrentam disputas e brigas, esperanças e oportunidades perdidas, risos e lágrimas. E, conforme o verdadeiro significado desse dia crucial é desvendado, eles precisam acertar as contas com a essência do amor e da própria vida.”
[Resumo retirado do site da Intrínseca - com modificações]
Tudo começou quando eu e meus amigos fomos ao Pier 21 (shopping de Brasólia) assistir qualquer filme da vida. Para passarmos tempo, entramos na livraria Leitura e a Bárbara viu as edições de “Um dia”, ela pegou um dos livros na estante e perguntou se eu gostaria que ela pedisse esse livro para a Intrínseca para resenha. Nem pensei duas vezes, já tinha a resposta na ponta da língua: “Não, pega outro. Parece idiota”, e assim, a vida continuou.
O engraçado é que ao mesmo tempo que pensei que o livro seria idiota, eu estava esperando ansiosamente um filme com o Jim Sturgess e a Anne Hathaway desde que anunciaram que eles seriam os protagonistas. Quando lançaram o trailer do filme, simplesmente amei e pensei comigo mesmo, “Esse filme vai ser sensacional!”, mal eu sabia que ele era baseado no livro que chamei de “idiota” e não tinha nenhum interesse em ler. Nem lembro como descobri esse fato e não importa de qualquer maneira, o negócio é que ao descobrir a relação entre Um dia e o filme com o Jim e a Anne de mesmo nome, pirei e liguei para a Bárbara na hora, perguntando se ainda dava tempo de pedir o livro. Ainda não sei dizer se dei sorte, ou não, por eles o terem enviado (continue lendo, os motivos não são os que vocês imaginam). O início do livro me prendeu, mas não tanto quanto pensei que o faria, acho que o fato de eu ter lido com a Bia (Cherry_B) o primeiro capítulo num dia quente enquanto esperava entediada nossa modelo do blog, Bárbara, tirar fotos nao ajudou em nada. Depois disso, só peguei no livro na semana seguinte por forças da natureza (Bárbara: “Sabe, a Patrícia disse que só vai enviar o livro que estou querendo há eras DEPOIS que você fizer a resenha. E queria TANTO lê-lo, mas ALGUÉM está empacando. ME EMPACANDO.”) e não sei o que aconteceu, foi mágico, sei lá, porque uma vez que fui para minha cama e o peguei para ler e só interrompi a leitura por conta de uma certa briga envolvendo a frase “Quem sabe faz, quem não sabe ensina” e questões fisiológicas (sono), mas principalmente por conta da briga, porque tive que parar para respirar e me preparar, já que estava sem estrutura emocional para continuar a leitura. Na verdade, nem sei como li tanto em poucas horas, considerando que Um dia, apesar de ser um livro bem-humorado e bem escrito, ele é tão emocional e tão cheio de dilemas, desilusões e desencontros (DDD – não presto, eu sei, mas não resisti… 8D) que acaba consumindo muito e é de tirar o fôlego de tão próximo da realidade que ele é.
“Ele queria viver uma vida de tal forma que se de repente uma foto fosse tirada, ela seria uma fotografia legal.”
No início do livro, você percebe que Emma e Dexter, que acabaram de ser formar na faculdade, estão cheios de sonhos e esperanças – ela quer mudar o mundo ao redor de si, mesmo não sabendo como, e ele já sabe que quer ser rico e ter muitas mulheres, apesar de não saber o que fazer para ficar ganhar tanto dinheiro -, mas a cada ano que passa, eles percebem o quão difícil é mudar o mundo ou ficar rico e de tempos em tempos, eles se perguntam o que está acontecendo, o que está fazendo tudo tão complicado para eles que agora só estão experimentando desilusões. Como a minha mãe diria nessas horas, “A vida acontece, Valéria”. E eu sei que parece ser uma resposta injusta, mas quando você para para pensar, ela é muito válida.
O mesma complicação acontece no relacionamento de Dexter e Emma, que ano após ano, vai se degastando e ficando mais forte, passando por altos e baixos… E o pior de tudo, é você ler e saber que eles se amam não apenas como melhores amigos, mas de uma forma muito mais profunda e intensa que isso, e ainda assim, eles se encontram e se desencontram através dos anos. Enquanto lia o livro, não pude deixar de pensar no filme “Jeux d’enfants” (resenha aqui), onde os personagens principais são melhores amigos e se amam, mas se encontram e desencontram o tempo todo.
” – Então… O que aconteceu com você?
- A vida. A vida aconteceu.”
Tudo o que acontece em Um dia com e entre Emma e Dexter é muito triste, engraçado, irônico e real demais. Na parte de trás da capa da edição brasileira, eles colocam um elogio feito por Álvaro Pereira Junior, da Folha de São Paulo, no qual ele diz, “Eu não seria capaz de descrever quanto é excelente e quanto adorei Um dia“. E, sinceramente falando, assim como ele, eu não tenho as palavras para descrever esse livro expressando o quanto o amei, o odiei e me emocionei com ele.
O David Nicholls faz uma abordagem bem diferentes do que estamos acostumados ao nos apresentar apenas um dia, ano após ano, na vida dos personagens principais durante os vinte anos em que eles se conhecem. E apesar de ter estranhado no início, simplesmente achei genial o que ele fez e em certa hora, me peguei filosofando que um dia em nossas vidas não acontece nada, mas ao mesmo tempo acontece tanta coisa… É muito mágico e bonito, não é?
“Aqui é onde tudo começa. Tudo começa aqui, hoje.”
Se vocês prestaram atenção no que falei no início da minha resenha, devem estar se perguntando porque fiquei pensando se dei sorte ou não com esse livro, se o elogiei tanto. O negócio é que a revisão da edição lançada pela Intrínseca, me desculpem a frase, estava completamente cagada e me fez questionar se também foi traduzido direito. Sério, para ter noção do drama, cheguei ao ponto de quase comprar a versão original (em inglês) e tacar fogo na edição disponibilizada pela editora Intrínseca.
No início, pensei que poderia ser apenas erros de digitação que passaram despercebidos, mas depois, percebi que existiam erros tão grotescos de revisão que não tinham como ser ignorados, palavras que mudavam uma letra . Um dos pontos máximos foi quando os irmãos de uma das namoradas do Dexter estavam enchendo o saco dele e fizeram o um “F” de “fracassado” na testa com uma mão só. Não pude deixar de imaginar que os três entendiam libras perfeitamente bem, se eu não soubesse o alfabeto em libras e visse uma pessoa fazendo esse símbolo na testa, me perguntaria se aquilo era algum sinal secreto de alguma organização secreta ou se eles eram apenas problemáticos mesmo. Acho que um grande nicho brasileiro sabe que um “L” na testa significar “perdedor” ou “fracassado”, mesmo não sabendo porque o símbolo é um “L”. Eu acredito em nota de tradutor/revisor/editor/o-diabo-à-quatro e acho que é de suma importância falar que “L” é de “loser” e informar o significado da palavra em português para não tirar algo da cultura do outro país e acabar estragando o livro.
Outro ponto alto dos horrores da edição brasileira foi tão bizarro e feio que merece que eu fale a página e coloque a frase.
- Para ser honesta, sempre achei que você forçava aquele sotaque. Uma forma de afetação sabe?
- O quê?
- O seu sotaque. Você sabe… Os “r” mais carregados, Guat-e-mala, essas coisas…
P. 268
Porque, vocês sabem, “Guatemala” é uma palavra cheia de “r”, acho que contei uns cinco. Não sei se foi erro de digitação ou o quê, mas com DOIS revisores, o mínimo que eu esperava é que isso não passasse despercebido como passou.
A Editora Intrínseca é uma das minhas favoritas e não sei o que aconteceu e espero que algo assim nunca mais aconteça, porque senão a minha lista de editoras brasileiras vai ficar ainda menor e finalmente vou poder contar em uma mão às que valem à pena. Enfim, até que eles arrumem isso, recomendo que se você tiver acesso e consegue fazê-lo, leia a edição original em inglês para não passar raiva como passei.

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