Não sei por que cargas d’água eu estou escrevendo sobre esse livro agora, mas eu estou. Considerem isso uma seção nostalgia da minha parte, mas eu não podia contribuir pro NUPE e deixar de falar a respeito desta história cedo ou tarde.
Eu sei, é nome de romance de banca. EU TENHO VERGONHA ALHEIA DESTE NOME, mas o que importa não é isso. Quem vê capa não vê boa história. Este é precisamente o caso do livro.
Só pra dar uma situada na idéia geral da história:
Nas florestas da Escócia do século XII vive um jovem misterioso. Seu nome, Tam Lin, é pronunciado com cautela.
Jenny, filha do visconde de Avenel, tem razões de sobra para odiar Tam Lin: ele ocupou Carter Hall, pequena propriedade à beira da floresta, o único dote da moça, sem o qual não pode pensar em casamento. Mas ao conhecê-lo ela percebe que ele não é um usurpador, mas um homem preso entre dois mundos.
Bem, essa é a sinopse oficial do livro e sinceramente ela não diz muita coisa. Começamos a história com a Jenny e a irmã mais velha dela, Isabel, sentadas jogando xadrez. Enquanto Jenny se veste com roupas próprias de uma dama bem nascida, Isabel se veste com roupas feitas para penitentes, despida de qualquer luxo, ou qualquer adorno além de seu rosto bonito, simplesmente porque algo aconteceu e levou a jovem à desgraça.
O papel de dama da casa, antes desempenhado por Isabel com maestria, passa agora a recair sobre Jenny, a garota que foi criada meio sem rédeas, correndo e subindo em árvores, e que não leva o menor jeito para donzela recatada. Falta à ela o talento da irmã, mas ela ama a família que tem e as terras em que cresceu. Seu único dote para um casamento futuro seria Caster Hall, uma propriedade pequena e meio destruída que fica dentro das terras do pai da moça.
O pai das duas aparece pra interromper a partida de xadrez das duas para dar um único aviso. “Não cheguem perto da floresta. Tam Lin anda por lá”. E ai você fica meio que pensando “QUEM DIABOS É TAM LIN?!”.
Tam Lin é o neto de um nobre importante da região, mas o garoto havia desaparecido a anos e mesmo depois de voltar DO ALÉM não reclamou seus direitos de herdeiro do avô. A única coisa que o cara fez foi ocupar Carter Hall, o dote da Jenny.
Rola uma grande especulação a respeito do sumiço do rapaz, mas o fato que todos concordam é que ele não é lá muito normal. Reza a lenda que ele é um espectro, um fantasma, ou simplesmente um garoto que foi raptado e criado pelas fadas. Isolado, ele vive nos arredores da floresta, caçando e ocupando o dote de Jenny, o que só serve pra deixar a guria puta de raiva e dá a ela motivos de sobra pra desobedecer o pai e se aventurar pelas bandas de Carter Hall.
E é quando os dois se encontram que se dá a bagaceira e você se deixa levar pela narrativa gostosa e mágica da autora. Sério, é um livro que te deixa de alma leve, te faz rir, te faz suspirar um pouquinho e te faz gostar de ler.
O Tam Lin é um personagem legalzinho, sabe. Não é um puta galã e talz, mas ele passa a idéia de um menino perdido, aqueles do Peter Pan. Ele é daqueles que você vai conversando, conversando, ele vai te enrolando e no meio do caminho…Ops! Foi! Não é um Clark Gable, não é um Hamphrey Bougart , não é um George Clooney, mas é um Tam Lin.
E eu adoro a Jenny! Ela parece uma pilha duracel. Não para. Tá sempre as voltas tentando tecer alguma coisa que preste (o que nunca dá certo), tentando ser uma dama (quando não leva o menor jeito pra isso), tentando ter algum talento notável que nem a irmã que conseguia cantar e administrar a propriedade como ninguém, mas a única coisa que a guria consegue é se meter em confusão e caçar briga com as fadas. Ela até é bonitinha, mas não é uma beldade.
Também adoro a Isabel. Na verdade eu tenho pena dela por toda culpa que ela carrega. Apesar da austeridade que ela apresenta, ela é uma boa pessoa, uma pessoa que está cheia de vida e não consegue colocar isso pra fora por causa do passado misterioso.
Sem mencionar o Cospatrick (acho que é esse o nome)*.*
A história toda é baseada numa antiga balada escocesa The Ballad od Tam Lin. A parte que diz respeito à Isabel vem de outra balada que eu não me recordo o nome.
Esse não é um livro que vai consumir sua vida social, seus pensamentos, sua capacidade de conversar sobre outros assuntos, mas quando acabar de ler ele deixará um vazio. Algumas histórias têm esse poder. Te preenchem completamente, te fazem pensar em magia, te fazem sonhar com os campos verdes, com as florestas, com a corte das fadas, com cavaleiros em armaduras e ainda que não faça nada disso, elas te deixam feliz por um período de tempo e quando o livro acaba você deseja que ele não tivesse acabado nunca. Sobra o vazio e o livro na sua estante, pedindo para ser lido até suas páginas desmancharem.
Quem me apresentou esse livro, nos idos tempos felizes do meu ensino médio, foi a Ina e não existe uma pessoa melhor pra me indicar um livro de fadas do que ela. Às vezes eu tenho a impressão de que a Ina saiu de um, com aquele sorriso imutável e sua travessa de cookies mágicos. Esse livro marcou essa época nas nossas vidas, mas como faz um bom tempo que eu não o leio, sugiro que os caros leitores façam isso e tirem suas próprias conclusões.
Pra quem se interessar, ai vai a letra da balada, mas já aviso: SPOILERS!
I forbid you maidens all that wear gold in your hair
To travel to Carter Hall for young Tam Lin is there
None that go by Carter Hall but they leave him a pledge
Either their mantles of green or else their maidenhead”
Janet tied her kirtle green a bit above her knee
And she’s gone to Carter Hall as fast as go can she
She’d not pulled a double rose, a rose but only two
When up there came young Tam Lin says “Lady, pull no more”
“And why come you to Carter Hall without command from me?”
“I’ll come and go”, young Janet said, “and ask no leave of thee”
Janet tied her kirtle green a bit above her knee
And she’s gone to her father as fast as go can she
Well, up then spoke her father dear and he spoke meek and mild
“Oh, and alas, Janet,” he said, “I think you go with child”
“Well, if that be so,” Janet said, “myself shall bear the blame
There’s not a knight in all your hall shall get the baby’s name
For if my love were an earthly knight as he is an elfin grey
I’d not change my own true love for any knight you have”
Janet tied her kirtle green a bit above her knee
And she’s gone to Carter Hall as fast as go can she
“Oh, tell to me, Tam Lin,” she said, “why came you here to dwell?”
“The Queen of Faeries caught me when from my horse I fell
And at the end of seven years she pays a tithe to hell
I so fair and full of flesh and feared it be myself
But tonight is Hallowe’en and the faery folk ride
Those that would their true love win at Miles Cross they must buy
So first let past the horses black and then let past the brown
Quickly run to the white steed and pull the rider down
For I’ll ride on the white steed, the nearest to the town
For I was an earthly knight, they give me that renown
Oh, they will turn me in your arms to a newt or a snake
But hold me tight and fear not, I am your baby’s father
And they will turn me in your arms into a lion bold
But hold me tight and fear not and you will love your child
And they will turn me in your arms into a naked knight
But cloak me in your mantle and keep me out of sight”
In the middle of the night she heard the bridle ring
She heeded what he did say and young Tam Lin did win
Then up spoke the Faery Queen, an angry queen was she
Woe betide her ?ill-fought? face, an ill death may she die
“Oh, had I known, Tam Lin,” she said, “what this knight I did see
I have looked him in the eyes and turned him to a tree
Nota: Três vestidos de folha e um falcão perdido.
Desocupadas
3 de setembro de 2011
IMAGINE 5 PESSOAS MUITO LOUCAS E COM PERSONALIDADES TOTALMENTE DIFERENTES NO MESMO LUGAR!
O QUE ACONTECERIA?
DESCUBRA EM WONDERLAND!
//welcometowonderlandclub.blogspot.com
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Kathy
5 de setembro de 2011
Você me ganhou no momento que mencionou que a história se passa na Escócia e é baseada em baladas escocesas. Agora ja sei que preciso desse livro para ontem!
Ótima resenha!Eu não conhecia essa balada e adorei!
Beijos,
Kathy
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