Em 2007, eu participei de uma simulação das Nações Unidas, a Sinus, no Comitê de Direitos Humanos e o tema era Violência contra a mulher. Lá, nós discutimos diversos assuntos, de mutilação genital feminina à estupros que acontecem em campos de refugiados, por soldados. Um dos temas foi, obviamente, a Violência Doméstica e durante a minha pesquisa eu me deparei com dados que são meio chocantes para algumas pessoas. Foi para mim, com dezessete anos, e atribuo a essa experiência um pouco da descrença que tenho quando alguém diz que um país é “perfeito”.
Mas, ei, se essa é uma resenha sobre O Silêncio do Túmulo, qual a relevância desse parágrafo acima?
TODA.
“Porque o único poder que o homem violento tem no mundo é o poder sobre a mulher que é sua esposa, e esse poder é absoluto, porque ele sabe que ela não pode fazer nada. Ela é totalmente indefesa e totalmente dependente dele porque ele não só a ameaça, não só a atormenta apenas com o seu ódio e fúria contra ela, mas com o seu desprezo pelos filhos dela também, e deixa claro que irá machucá-los se ela tentar se libertar do poder dele.(…) E a vida dele se torna mera sombra da vida dele. A resistência dela diminui dia após dia e com ela o desejo de viver. A vida dela torna-se a vida dele e ela não está mais viva, está morta(…)”
Autor: Arnaldur Indridason
Tradutor: Álvaro Hattnher
Número de páginas: 320
Preço de catálogo: R$36
Tudo começa quando um estudante de medicina encontra uma criança roendo um osso humano e quando a polícia assume o caso, descobrem que é um esqueleto que deve ser mais ou menos da época da segunda guerra mundial. A partir daí, Erlendur, o investigador chefe, e seus parceiros começam a revirar o passado para tentar descobrir quem é o “Homem do Milênio” e como ele morreu. Alguns acham que é inútil, mas Erlendur acredita que eles devem dar algum tipo de paz para a pessoa.
Ao mesmo tempo, a vida pessoal de Erlendur vai de mal a pior e suas lembranças voltam a perturba-lo…
O Silêncio do Túmulo te prende desde o início, na primeira frase. Você quer muito descobrir o que aconteceu, quem é aquele esqueleto e como a vida de Erlendur chegou onde está. O livro mescla passagens no presente e passagens do passado para contar a história e você pode até pensar que é óbvio o desfecho e a identidade do osso, mas o autor acaba te surpreendendo.
Gostei muito das passagens no passado, detalhando uma história que é de importância vital para o desfecho do livro. Na minha opinião, é ela que dá o gás para a história, fazendo você se perguntar qual a relevância daquilo e qual a ligação dela com os ossos que são encontrados. Eu me apeguei aos personagens dessa parte da história ao ponto de em cada passagem torcer para que nenhum deles fosse o esqueleto que estava enterrado.
E, citando uma personagem, o Simon é um ótimo garoto.
No presente, Erlendur certamente é um dos melhores personagens, talvez por ser o protagonista, tendo falhas que o tornam mais palpável que os outros. Os seus ajudantes – Elínborg e Sigurdur Óli – são relevantes para a história, mas não são tão bem descritos como o protagonista. Aliás, Sigurdur Óli (repita 3 vezes o nome dele e tente não enrolar a língua, ahahah!) é um pé no saco e as partes em que ele aparece são irritantes. Elínborg é mais divertida e comprometida com o trabalho. E Erlendur é quem insiste para que continuem com a investigação, mesmo ela sendo uma investigação histórica, querendo dar uma identidade para o corpo. Achei muito digno e acho que foi aí que ele se tornou um dos meus personagens favoritos na obra inteira.
Além disso tudo que eu disse aí em cima, há a ISLÂNDIA, onde a obra se passa. Talvez o que torne a história tão interessante é o fato de se passar numa cultura que é tão pouco conhecida de nós, mesclando-se a fatos históricos e coisas que soam meio absurdas para nós, como a quantidade de pessoas que se perdem durante nevascas.
E há o assunto com que começamos a resenha: a violência doméstica. Não só a parte da história que se passa no passado trata disso como também a do presente, quando vemos a vida pessoal de Erlendur. Não, ele não pratica esse tipo de coisa, mas acaba passando por lugares em que os maus tratos com crianças e mulheres são visíveis. E não pude deixar de comparar isso com os livros da Série Millennium (também da Cia. Das Letras), que tem como o nome do primeiro livro Os Homens que não amavam as mulheres.
Embora sejam em graus completamente diferentes, ambos os livros são nórdicos e tratam mais ou menos do mesmo assunto. Isso me fez perguntar SE esse tipo de fenômeno é tão comum assim enquanto eu lia e a minha resposta foi dada por um dos personagens, que comenta que na época (da parte do passado da história), não se podia fazer muito sobre a violência doméstica e que hoje em dia isso não mudou tanto assim.
Aí eu parei e fiz

E fui buscar informações. Segundo uma pesquisa de 2010, na Islândia, 22% das mulheres disseram ter sofrido violência a partir dos 16 anos, sendo que 24% delas acredita que seus filhos testemunharam a violência. Atualmente, esse é um dos maiores problemas da Islândia e, embora o número de mulheres que denunciam esse tipo de violência tenha aumentado, o governo não tem nenhum plano específico para tentar diminuir esses dados. Além disso, outra pesquisa revela que 20% dos universitários acha que não tem problema em fazer sexo com uma pessoa que está inconsciente!
Não quero dizer que aqui no Brasil seja melhor (porque não é), mas é que nós normalmente temos essa mania de achar que países como a Dinamarca, a Noruega e, porque não, a Islândia são maravilhosos, sem nenhum problema. E é meio desesperador saber que certos tipos de informações não chegam a todo mundo e que tem gente que acha que é “normal” ter um relacionamento abusivo.
No Brasil, a Lei Maria da Penha só foi criada porque a Maria da Penha foi até a corte inter-americana para poder ver o seu ex-companheiro sofrer algum tipo de punição por tê-la deixado aleijada. Da mesma forma, quantas vezes uma mulher não vai buscar ajuda numa delegacia e tem que escutar que ela “merecia apanhar” ou alguma coisa do tipo? Quantas vezes uma mulher não é estuprada e a primeira pergunta que se faz é “que tipo de roupa ela estava usando?”, como se isso fosse fazer alguma diferença?
E eu acho que esse é um dos méritos da história. Além de ser um ótimo livro sobre investigação, me lembrando bastante do seriado Bones, ele trata de um assunto delicado que não recebe a atenção que merece. E o trata com uma sensibilidade ímpar, descrevendo aos poucos como uma mulher se vê vitima de um marido abusivo. Não é porque ela é fraca, não é porque ela é “idiota” de ficar com alguém que é violento… é porque se torna questão de poder. Como não acreditar na ameaça de alguém que te bate? Como se livrar do domínio de uma pessoa que ameaça matar os seus filhos (embora sejam deles também) sem apoio nenhum? Como viver sabendo que as pessoas SABEM o que você passa mas não fazem NADA para te ajudar?
Embora tenha um tema que é pesado, O Silêncio do Túmulo é uma ótima leitura, com um desfecho emocionante.
Porque, afinal, depois do inverno sempre chega a primavera.
Mesmo na Islândia.
Classificação: 4 pés de groselha.

























Ana Death Duarte
23 de agosto de 2011
Nossa, vc fez um tratado sobre violência doméstica hehehe =D
Ahhhh, eu achei o livro legal pra caramba, q nem o Bruno já tinha me convencido q era bom… mas tô querendo livros alegres e felizes, então acho q não se encaixa, né? rsrsrs
Beijinhos
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Bruno Varela
23 de agosto de 2011
Ótima resenha \o/
Gostei bastante desse livro, sério mesmo, espero que a Cia de Letras lance os outros livros com o Eelendur. E a cidade Rey-sei-lá-das-quantas tá me perseguindo O.o
Beijos
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Vívian Rezende
23 de agosto de 2011
Esse assunto é mesmo muito interessante! Fiquei curiosa pra ler o livro. Ótima resenha
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Tais
23 de agosto de 2011
Nossa, gostei muito dessa resenha, e agora estou morrendo de vontade de ler esse livro! Eu li a trilogia millenium e gostei muito, e se este livro for tão bem escrito e/ou abordar tão bem assunto quanto o do Stieg Larsson, já entrou para a minha lista…
bjs!
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Lilian
23 de agosto de 2011
Adorei a resenha e concordo com tudo o que vc disse.
Mas vc sabe que tem um outro lado? Algumas vezes, eu penso que as mulheres expostas a esse tipo de violência (não são todas, mas uma boa parte) desenvolvem uma espécie de dependência psicológica or something em relação a seus parceiros. Elas não percebem que o parceiro não irá mudar nunca e continuam a seu lado, sofrendo, apanhando e esperando.
Digo isso porque conheço quem trabalhe em delegacia de polícia, e a pessoa sempre me conta que é MUITO comum a mulher procurar a delegacia, ou a PM chegar lá com a vítima e o agressor, e quando a mulher descobre que o cara vai ser preso, ela SURTA. E chora e implora pra que ele não seja preso. A frase é sempre a mesma: 'mas eu queria só dar um susto nele'. Pois é.
Num desses casos a vítima chegou na delegacia com afundamento do esterno (o marido deu um soco tão forte no peito dela que o osso AFUNDOU). E quando a PM pegou a vítima no hospital e chegou com ela no plantão pra fazer o flagrante, ela fez o maior escândalo e desatou a chorar. Não queria que o marido fosse preso.
Como lidar com um comportamento desses, me diz?
Claro que não acho que a culpa é da mulher. Mas essa questão é tão complexa. Como é que possa haver quem não perceba o quanto isso é ruim é algo que eu realmente não entendo.
Voltando ao livro, ele deve ser ótimo! Quero ler quando puder.
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Gabriela (Bee (: )
30 de agosto de 2011
As histórias de violência contra a mulher sempre me embrulham o estômago :/
Esses dias fiquei abismada quando descobri que na Inglaterra até 2005 não havia nenhum tipo de lei que condenassem maridos que estupraram suas esposas, porque ela já tinha "concordado" por eles terem um relacionamento (!) assim como a polícia nada fazia em casos em que o estuprador é namorado da vítima.
E depois as pessoas falam que feminismo é perda de tempo e que tá tudo muito lindo só porque agora mulher pode separar e trabalhar fora. All riiiight…
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