Gaia é uma parteira do terceiro distrito de Wharfton com uma cicatriz terrível. No mundo em que vive, existe a Enclave, uma cidade em que nada falta e tudo é bom, e o lado de fora, Wharfton, onde as pessoas vivem na miséria e na pobreza. Muitos anos antes, as pessoas da Enclave conseguiram sobreviver aos desastres naturais e as secas e, por “piedade”, ajudaram as outras pessoas, que agora compõem Wharfton.
Cada parteira de Wharfton tem que dar os três primeiros bebês saudáveis que traz ao mundo para a Enclave, onde eles serão adotados por famílias ricas e viverão uma vida que nunca seriam capazes de viver do lado de fora. Isso é, teoricamente, um favor que fazem, e as grandes compensações e benefícios dados para as famílias são uma recompensa e um incentivo. Mas que mãe em sã consciencia gostaria de se livrar da sua criança?

Quando Gaia volta do seu primeiro parto, encontra um soldado na sua casa e descobre que seus pais foram levados para a Enclave para serem interrogados. Mas o que eles fizeram? Logo seus pais, cidadãos tão corretos, logo sua mãe que havia dado dois filhos antes dela para a Enclave sem questionar e cumpria todas as quotas…

E é na tentativa de soltá-los que Gaia descobre coisas horríveis sobre o Enclave e os bebês que ela envia…

Esse livro é um distópico muito legal que veio parar aqui pelo booktour organizado pela Baunilha. Quando eu li a sinopse oficial (que não é essa aí em cima), eu fiquei com um pé meio atrás, mas que mal teria? O máximo que poderia acontecer era eu não gostar e parar de ler, como aconteceu com XVI.
Mas me surpreendi. A história nos mantém presa, com reviravolta atrás de reviravolta e, embora alguns pontos tenham sido bem previsíveis para mim, o final é inesperado. Aliás,o desenvolvimento também é meio inesperado, porque as coisas que foram previsíveis eram as identidades de alguns personagens e não o que aconteceria com eles.
Para mim, em um distópico, tem que haver a conciliação de construção e explicação do mundo com o andar da história e Birthmarked conseguiu executar isso com fluência. Em nenhum momento achei que o livro ficou enfadonho e terminei de lê-lo em um dia, porque queria descobrir logo o final. O mistério do motivo pelo qual os pais de Gaia foram presos é um dos motores principais do livro. A história utiliza recursos interessantes para dar a estrutura para as revelações que faz e os que eu mais gostei foram as memórias. Gaia frequentemente se lembra de coisas da sua infância ou coisas que seus pais a ensinaram, o que além de dar mais profundidade ao personagem, demonstra o extremo afeto que a família tem. A família basicamente define quem Gaia é e é só quando algo acontece com eles que ela é empurrada para a ação. Alguma semelhança com a nossa Katniss?
Além disso, o romance é quase nulo. Há, óbvio, um interesse amoroso que eu gostei muito, mas os dois são mais aliados do que qualquer outra coisa. Quando ele aparece, você já sente que vai acontecer algo entre os dois, o que é um sinal que eles tem química! Mas não tem aquele desespero de “OH, SERÁ QUE ELES VÃO FICAR JUNTOS?”, porque o desespero maior é outro completamente diferente…
Percebo cada vez mais que a “fórmula” inclui inserir o interesse romantico como “guia” ou companheiro e isso me agrada imensamente! Não aguento mais quando o interesse é o protetor e a mocinha, burra/chata/inútil.
Um ponto que achei muito interessante no livro é o seu tema principal. Por que diabos a Enclave precisa dos bebês da população de fora?
Enquanto lia, imaginava vários contextos. As pessoas do lado de dentro eram inférteis? Eles usavam as crianças como servos e escravos? Como cobaias científicas?
No final, não é nada tão macabro quanto isso, mas é interessantíssimo. Não vou dizer porque, né, não se entrega o ouro assim tão fácil, mas digo que para mim, que quase fui bióloga, foi uma coisa muito legal. Só tenho a dizer que apesar de todos os benefícios e louros que a Enclave clama ter, eles são muito desorganizados. Será que não existem arquivologistas lá?
No final, Birthmarked é um livro muito bom. Os personagens são cativantes e bem construídos, a ação é bem feita e a história é muito bem amarrada, além de ter doses iguais de explicação sobre a formação do mundo e de ação no presente. Recomendo para quem quiser ter boas horas de leitura prazerosa.
A Larissa me perguntou, enquanto eu lia, porque o nome é Birthmarked. Eu achava, quando comecei a ler, que era porque a Gaia tinha uma cicatriz no rosto e que provavelmente isso era de nascimento, mas não. Acho que esse é um dos melhores nomes de livro, porque significa tanto para a história sem dar spoilers para quem não leu. E, sim, ser “marcado ao nascer” é um ponto importantíssimo da história… E o código, na classificação acima, tem um duplo sentido MUITO legal no contexto da história.
Aliás, o livro terá uma continuação (bem merecida!) chamada Prized que será lançado nos EUA dia 11 de Novembro. Não acho que haja previsão para lançamento dele no Brasil nem que alguém tenha comprado os direitos.
Classificação: Quatro pontinhos bem discretos no calcanhar