Você acredita em fadas? Valerie, a heroína do livro da Holly Black, também não acredita. Fadas não passam de criaturas diminutas e aladas, que abrigam os livros do Peter Pan e as fábulas antigas. Porém, depois de ver seu namorado transando com sua própria mãe, Valerie resolve fugir de casa, para morar NY. Como se fosse um dos Meninos Perdidos da Terra do Nunca, ela começa a morar no metrô, junto com mais alguns adolescentes sem-teto – Lolli e os irmãos Dave e Luis.

Mas logo Valerie descobre que os seus novos amigos são mais esquisitos do que ela pensava – parecem acreditar em fadas! Sabendo que não pode voltar pra casa, ela continua no metrô, mas aos poucos vai descobrindo que seus amigos não estão tão errados assim.
Fadas existem, e elas dominam NY. Divididas entre as Bright Courts e as Dark Courts, para elas humanos não passam de ratos.

Lolli conta que Luis trabalha para um troll chamado Ravus fazendo entregas e que Luis rouba dele uma substância mágica chamada Never, que dá aos seres humanos os poderes de fada. O tempo passa, Valerie fica viciada e também começa a trabalhar para Ravus, cada dia se tornando mais diferente daquela menina que fugiu do New Jersey. E quando todas as outras fadas acusam Ravus de assassinato, Val se vê obrigada a ajudá-lo…

Esse foi o segundo livro da Holly Black, e é surpreendente como uma escritora com tão pouca experiência foi capaz de escrever um livro tão bom. Eu não achei nenhuma falha de narração, e a história flui num ritmo incrível. Não é um livro difícil, mesmo em inglês, e você se vê sugado para dentro desse universo mágico, tão desamparado quanto a mocinha.
Não querendo comparar com Mortal Instruments, mas mesmo assim comparando, a Holly Black conseguiu escrever um livro muito mais legal do que a Cassandra Clare, com uma protagonista muito mais cativante. Não existe o excesso de informações de Mortal Instruments, os elementos são introduzidos lentamente, como numa história de suspense. O universo de Holly Black é vibrante, mas ao mesmo tempo sombrio. Os humanos que se envolvem com as fadas são condenados à mais pura loucura. Os garotos do metrô – Lolli, Dave e Luis – são perturbadores, e eu não podia deixar de sentir calafrios toda vez que eles injetavam o tal do Never.
A Val é uma das heroínas mais incríveis que eu já conheci. Ela é forte e corajosa, sem falar que ela mesma que salva o príncipe no final. Na verdade, a Val mais parece um príncipe de contos de fada do que uma princesa, porque em nenhum momento ela espera que alguém salve ela, parecendo sempre mais interessada em salvar alguém. Ela chega até a pegar algumas aulas de esgrima com o Ravus. Uma das coisas mais interessantes do livro inteiro é a transformação da Valerie, de garota tímida de NJ para uma sem-teto com valores morais questionáveis. Em algumas partes – normalmente as que envolviam danos a propriedade alheia e furtos -, eu duvidava que ela ia conseguir se adaptar ao mundo real de novo. Todo esse dilema da Valerie ofusca um pouco o mistério do livro, que se torna de alguma forma secundário. Você saca bem rápido quem é o culpado, qual foi o motivo, e talz.

O Ravus, o moço bonito – que não é nada bonito, diga-se de passagem - da história, é uma grande surpresa. O Ravus não lembra os Edwards, os Jaces e os Patchs da vida, mas mesmo assim você vai acabar se apaixonando perdidamente. Eu mencionei que ele é um TROLL? Ou seja, ele é VERDE, com olhos AMARELOS e com PRESAS DE JAVALI. Mas mesmo assim, eu acabei me apaixonando pelo jeito grande-bonzinho-desajeitado dele. E se você também pensou nisso, siiiim, ele é igualzinho ao Fera!

Se eu pudesse definir Valiant, eu diria que é um mix de Peter Pan, Bela e a Fera, e mais alguns contos de fada, tudo isso usando o tom de uma HQ da Vertigo. Os personagens são impecáveis, bem-construídos e super cativantes, é uma leitura imperdível para você que está cansado do YA padrão. A Holly Black não tenta dar moralzinha no final, não subestima o estômago dos leitores e nem acredita que os seus leitores são santos. Nós vemos sexo, uso de drogas, conflitos familiares pesados e loucura tratados de uma forma realista e única, sem nenhum retoque.
Pela qualidade da obra, eu acho que ela devia ser muito mais reconhecida. Eu acho que a editora no Brasil devia ter divulgado mais, ter feito uma capa atraente, colocado um preço mais acessível… Valiant merece ser tão (ou mais) celebrado como outros YAs, tipo Mortal Instruments, Feios, Vampire Academy…

Talvez se fosse uma série, e não livros avulsos que se passam no mesmo mundo, Valiant seria um pouco mais famoso. Eu particularmente acho que isso é uma vantagem, porque eu não aguento mais ficar presa em séries ENORMES e sem objetivo.
Eu recomendo Valiant para todo mundo, tanto para aquele leitor que não é tão chegado em YA quanto para aquele é viciado. É um conto de fadas cru e contemporâneo, nos velhos moldes dos Irmãos Grimm e do Hans Cristian Andersen. Impecável.