O que você está fazendo agora? É importante? Não? Independentemente do que é, largue agora mesmo, chame alguns amigos e vá no cinema assistir Scott Pilgrim. Ele entra na fila dos Filmes Ótimos que Ficam Pouco Tempo em Cartaz No Brasil – entre exemplos como (500) Dias Com Ela, Ponyo, Zumbilândia e Onde Vivem os Monstros. Olha pelo lado bom, poderia sair direto para DVD, como Whip It!. Então, aproveite enquanto ainda há tempo e vá ao cinema sem medo, porque no final do filme você ainda vai se sentir como se tivesse pagado pouco pelo ingresso, de tão bom que é.

 Eu nem sei o quanto eu estava esperando desse filme. Eu só sei que eu estava esperando um filme perfeito em todos os sentidos, divertido até a última gota, fiel ao livro… mas, ao contrário do que acontece na maioria das vezes quando a gente espera tanto assim de um filme, eu não me decepcionei. SIM, Scott Pilgrim é perfeito que (quase) todos os sentidos, é muito fiel e é extremamente divertido. Em outras palavras: é bom pra caralho. Na verdade, é tão bom que eu nem sei que pontos destacar. (Aconteceu algo semelhante na resenha de Percy Jackson e o Ladrão de Raios, mas naquele caso era tão ruim que eu não sabia que pontos destacar)
Acho que é uma das melhores adaptações que eu já vi na minha vida e é com certeza o melhor filme que o Michael Cera já fez – mas não por mérito dele, claro. Na verdade, a única coisa que eu trocaria no filme inteiro é o Michael Cera. O Scott Pilgrim NÃO É nerd. Para vocês terem uma noção, a Envy é mais nerd do que ele (o filme não mostra, mas ela teve uma fase otaku-geek-comedora-de-Pocky-leitora-da-Shojo-Beat antes do Todd aparecer). Ele é meio preguiçoso, meio infantil, largado, cool e com relativa facilidade com as mulheres. O único momento que ele fica meio nervoso é do lado da Ramona. Agora, eu pergunto: O Michael Cera transmite isso? NÃO. Ele vai ter 47 anos e ainda vai ter cara de dork espinhento, leitor da Marvel, neurótico e com medo de mulheres. Por isso ele é um ótimo Nick Twisp e um ótimo Paulie Bleeker, mas um Scott Pilgrim ruim. Eu vi Kick-Ass a pouco tempo, e também é uma masterpiece mas, se eu pudesse, eu trocaria o Aaron Johnson de lugar com o Michael Cera, e a vida faria muito mais sentido.

Enfim, tá perdoado, porque todos os outros atores se adaptaram perfeitamente aos seus personagens. Mantiveram a personalidade de todos eles – só o Stephen Stills teve uma pequena mudança justificável – e, o filme deu um destaque merecido para o Wallace, que está mais afiado do que nunca. Eu ri litros e litros (a coca que eu estava bebendo quase saiu pelo meu nariz) quando o Wallace rouba o namorado da irmã do Scott e todas as vezes que ele se esconde no banheiro para fofocar com ela – fofocar sobre o Scott, lógico. Eu fiquei muito feliz de eles terem mudado o design da espada do “Poder do Amor”, porque na HQ parece – E SEMPRE PARECEU – um grande pinto flamejante. (eu não acredito que eu disse isso, mas É A VERDADE.)   
O filme não perde o seu humor, sua esperteza, sua energia em nenhum momento. Foi brilhantemente dirigido. E existem piadas de todo tipo: piadas gráficas, trocadilhos e até piadas sonoras (?). Eu achei as onomatopeias geniais, e elas estão presentes em todos os momentos do filme. São incontáveis as referências a filmes, livros e HQs, é provável que em algum momento alguma pessoa do cinema vai estar rindo e você não vai saber direito porque. O filme é um bombardeio de referências pop, de informação e de recursos gráficos. É uma grande explosão, um filme extremamente hiperativo, que foi feito sobre medida para a geração atual. Eu particularmente, acredito que isso é um mérito e acho que é uma tendência aparecerem mais e mais películas nesse estilo – algo que eu chamo de ascensão do cinema hipster, mas isso fica para outro post.

Essa característica de Scott Pilgrim segmenta um pouco o seu público, acho difícil alguém acima de 35 anos gostar muito. Minha mãe não gostou nem de (500) Dias Com Ela, imagina de Scott Pilgrim. Ou seja: aquele seu tio chato fã de filmes franceses vai odiar.
Existem referências a Mortal Kombat, a estética dos mangás, a filmes de ação e até aquela claque de risadas de Seinfield. Todas as batalhas ficaram impagáveis, algumas mais do que outras – destaque para o do Patel e as suas demônias hipsters bollywoodianas, para o Lucas Lee (e a musiquinha da Universal que toca quando ele aparece) e para o Todd, o vegan mais burro do universo.
Eu fiquei muito impressionada com o Sex-Bob-Omb, porque eu jurava que eles eram péssimos, mas eles são realmente bons – para canadenses, lógico, haha. Eu li em algum lugar que o Beck (que também é canadense) tinha feito a trilha sonora.

De certa forma, é muito mais um filme de games do que um filme de HQ, por apresentar mais semelhanças estéticas com filmes de games do que com filmes de HQ. Por outro lado, pode ser uma comédia-romântica, porque é uma garota que move toda a história. Ou então um coming-of-age. Um filme muito difícil de definir, sem dúvida, mas muito fácil de assistir. Se você tem pouca familiaridade com esse mundo nerd-hipster ou não fala inglês, talvez você não aproveite 100% a sessão e fique um pouco perdido no meio de tantas tiradas, então leve um amigo geek a tiracolo para cutucá-lo quando surgir alguma dúvida. – só não faça isso o tempo todo, irrita!