Você tem 14 anos. Está na sua aula, tranqüilo (a), provavelmente pensando no que vai fazer assim que chegar em casa se a sua mãe não te obrigar a ficar de babá com os seus irmãos mais novos. A aula se arrasta, o tempo nunca parece passar. Até que, de repente, você ouve um barulho de surpresa e olha para o quadro, onde o professor deveria estar.
Deveria.
Um dos seus colegas de classe comenta que o professor sumiu, mas ninguém realmente acredita. Outro se levanta e vai até o corredor e, depois de alguns instantes, chama todos para fora. No corredor, estão vários outros alunos, parecendo preocupados. Será aquilo uma brincadeira de mal gosto da escola? Como todos os professores sumiram de uma vez?
Alguém repara que alguns alunos estão faltando. Todos os alunos que já tinham completado 15 anos.
E então há um grito, seguido de uma discussão. Você não presta muita atenção, porque está tentando imaginar o que pode estar acontecendo. Aí você ouve as palavras mágicas:
- Ninguém atende.
- Tenta o 190.
- Ninguém atende lá também.
Há algo de errado acontecendo e a primeira coisa que você faz é sair correndo atrás da sua irmã de sete anos. O prédio dela é na frente do seu e, ao sair na rua, você vê dois carros batidos. Alguns instantes depois, o barulho de alarmes e do sinal da escola transforma o mundo num inferno. Você entra na escola fundamental e a primeira coisa que repara é o choro. Corre até a sala da sua irmã e a vê tentando acalmar os ânimos de alguns colegas. As crianças se aproximam de você, falando todas ao mesmo tempo, perguntando mil coisas, mas você sabe tanto quanto elas.
- Se acalmem. É só uma brincadeira de mal gosto. – você puxa a sua irmã do meio das crianças e a abraça.
- O que nós vamos fazer? – pergunta um garoto mais velho que sua irmã, provavelmente da quarta série.
Você não sabe como responder. Não tem idéia do que está acontecendo. Espera que, ao chegar em casa, sua mãe esteja lá e fique chocada com o fato dos professores e da central de emergência terem parado. Provavelmente era uma greve relâmpago, ou algo assim.
- Todos vocês sabem chegar em casa? – você pergunta. – Vão para suas casas. Se não acharem ninguém lá, vão para a praça.
Alguém argumenta que tem que atravessar ruas para chegar em casa. Você argumenta que não tem carros. Isso parece ser o suficiente para convence-los e você e sua irmã saem da escola. Na sua cabeça, você só pensa no seu irmão mais novo, de pouco mais de dois anos. Por algum motivo bizarro, seus pais não o deixam na creche então ele provavelmente está em casa.
A julgar pela condição dos carros que você encontra no meio do caminho, não quer imaginar o que aconteceria se sua mãe tivesse decidido dar um passeio e tivesse desaparecido.
É, ao ver a desolação e o abandono das casas, os carros batidos, você tem certeza: sua mãe não estará em casa. Nenhum adulto parece ter sobrado. Isso faz de você uma das pessoas mais velhas da cidade.
Talvez do mundo.
Você tem um mantra: Não entre em pânico. Não entre em pânico. Sua irmã faz perguntas irritantes que ecoam seus medos e você é grosso(a) com ela, porque não quer ter que lidar com a realidade agora. A única coisa que interessa, no momento, é achar o seu irmão bebê e o seu cachorro.
Sua irmã está prestes a chorar quando chegam em casa e ela se solta da sua mão, correndo para dentro, subindo as escadas, chamando por sua mãe. Ela não tem como responder se não estiver em casa, você pensa, mas não diz nada. Além da ausência dela, não vê sinal nem do seu irmão nem do seu cachorro e sente uma ânsia de vômito. Será que eles estavam andando de carro?
Você ignora os gritos e o choro da sua irmã e corre para a garagem, ficando satisfeita ao ver o carro da sua mãe ali. Pelo menos isso. Você volta para dentro de casa, o choro da sua irmã despertando algo próximo de desespero dentro de você. Mas não, você é o(a) mais velho (a), você não pode entrar em pânico. Se você entrar em pânico, é o fim do mundo. Se você entrar em pânico, sua irmã vai surtar mais ainda. Se você entrar em pânico, não vai conseguir procurar seu irmão e vocês vão se despedaçar.
Você se lembra de algo que seu pai lhe dissera algum tempo antes.
- Se qualquer coisa acontecer com a gente, você tem que tomar conta dos seus irmãos. Vocês são uma família. E ser uma família é cuidar um do outro.
E depois a havia mostrado como abrir e entrar no abrigo anti-atômico que ele tinha preparado no porão. Era um paranóico, sua mãe dizia. Mas… e se ele estivesse certo?
Você tenta acalmar a sua irmã, dizendo palavras cuidadosas. Vai ficar tudo bem. Temos que ficar juntos. Precisamos achar o nosso irmão. Por favor, não chore tanto. A mamãe vai voltar. O papai ainda deve estar no trabalho, nós podemos ir lá depois.
Quando finalmente consegue acalmá-la, vocês se dividem para procurar seu irmão pela casa. Ela vai para o quintal, você para o andar de cima. Procuram cuidadosamente, vasculham cada lugar e o encontram no porão.
De alguma forma, ele e o seu cachorro estão sentados num degrau, um encostado no outro, de olhos fechados. Quando você presta atenção, vê uma mancha de sangue no chão. Você segura seu irmão no colo, vendo que ele tem um corte no ombro, que não sangra mais. Ele acorda e entra no choro intermitente de uma criança com dor.
Ao ver o ferimento, sua irmã também volta a chorar, chamando pela sua mãe.
Você não tem ideia do que fazer.
Nem tem noção do que pode estar acontecendo.
Bem vindo ao LGAR.
Todas as pessoas de 15 anos ou mais desapareceram, restando só as crianças e os adolescentes mais jovens. É do nada, sem aviso, deixando todos surpresos. Ninguém tem noção do que está acontecendo e você, leitor, também não tem.
Imagine o que pode acontecer com os bebês. Imagine o que pode acontecer com as crianças que estavam em um carro em movimento junto com um adulto. Imagine o que pode acontecer se o fogo estiver ligado.
Há ainda um agravante: se todas as pessoas de 15 anos ou mais sumiram, o que acontece quando você COMPLETA 15 anos? Imagine só, viver no limite, pensando que pode sumir a qualquer instante? E imagine saber que pode sumir, mas não fazer ideia de para onde nem como nem por quê. Sumir é igual a morrer? Você vai para o céu depois? Ou você vai para um lugar onde estão todas as pessoas com mais de 15 anos? Há alguém te esperando por lá?
Nós seguimos pelo livro tão cegos quanto os personagens, se perguntando exatamente as mesmas coisas. E a resposta para algumas dessas perguntas não é tão agradável quanto você gostaria de pensar. Ao final do livro, a coisa que você mais quer é agarrar o próximo e ver se você vai descobrir um pouquinho que seja, responder um pouquinho que seja das suas dúvidas.
Sobre os personagens, eles são muito bem desenvolvidos. Tanto os principais quanto os protagonistas. São pessoas plausíveis, na minha opinião. Sam Temple, o personagem principal, é um garoto de ação, conhecido como “Sam do Ônibus escolar”. Ele é prático e tem o pulso de fazer o que deve ser feito, na hora que deve ser feito. As crianças naturalmente se viram para ele quando ele acaba fazendo outro salvamento, mas ele se recusa a tomar a responsabilidade de ser o Herói. Sam é assim, ele não quer ser herói (provavelmente porque ele sabe que um herói sempre acaba morto) ao mesmo tempo em que não consegue ficar parado quando alguém precisa de ajuda.
Quinn é seu melhor amigo e não é nada como ele. De alguma forma, os opostos de atraíram, mas, em situações extremas, nós vemos que isso não é bom de forma alguma. Astrid, a menina gênio (óbvio, porque sempre tem uma menina gênio), é responsável e preocupada, além de ser uma pessoa que consegue entender facilmente o que se passa na cabeça dos outros. Edílio é um imigrante de Honduras que é ainda mais prático que Sam: faz o que tem que ser feito com precisão e sempre tem uma boa ideia.
Todos eles tem 14 anos. Por ser um livro em que o personagem mais velho tem 14 anos, 11 meses e 2 semanas, nós vemos um ângulo que pode ter sido esquecido pelas pessoas mais velhas. Nós vemos que com 14 anos você é sim capaz de fazer coisas que nós consideramos de “adulto”. Com 14 anos, você não é uma criança. Com 14 anos, você é capaz de fazer maldades e bondades, é capaz de escolher qual caminho deve percorrer. Você erra, é claro, mas não quer dizer que por ter 14 anos você seja incapaz. O mesmo se aplica a crianças mais novas que isso. É claro, no início é difícil, mas com o tempo, você aprende a se virar.
O livro ainda aborda vários outros conceitos interessantes, principalmente do ponto de vista científico e do sociológico (quem foi que disse que livro YA é “bobo” mesmo?). Mutações e aberrações, a lei da sobrevivência, a vivência em sociedade… tem tudo isso no livro.
O mais impressionante é a forma como o Michael Grant nos conta tudo isso. Em terceira pessoa, ele oscila a visão pelos personagens e não deixa de descrever nada. Fraturas expostas? Sim. Queimaduras de décimo terceiro grau? Sim. Espancamentos até a morte? Sim. Pessoas com distúrbios alimentares, crianças assassinas, uma criatura indescritível que quer destruir os humanos? Tudo isso.
Lembre-se que estamos falando de um mundo governado por pessoas de 14 anos. Um mundo que se assemelha assustadoramente à escola, em que os valentões se sobrepõem facilmente aos outros, em que os mais ricos dominam facilmente o resto. Um mundo que, em sua diminuição, se parece assustadoramente com o nosso.
Tem exatamente a mesma crueldade.
Esse ano eu li livros muito bons, mas posso chegar ao fim dessa resenha e dizer para você que, junto com Jogos Vorazes e Game of Thrones, esse foi o melhor. Pela crítica, pelo desenvolvimento, pela história e, principalmente, pelo fato de que eu não odeio NENHUM dos personagens…
E olha que é só o primeiro de uma série de seis livros! Está esperando o quê para ir correndo ler?
Classificação Geral: Cara, já deu 5 páginas do word. Eu fiz uma historinha. Você realmente quer que eu classifique?
Tudo bem. Vai lá: cinco barrinhas de poder, cinco Peters… por aí vai!
Obrigada por lançar livros tão legais!


























Livs
2 de outubro de 2010
Ai Peter, que fofolete
Sim, esse livro é muito, muito, muuuuuuuito bom!
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Anonymous
2 de outubro de 2010
Essa sim é uma resenha que não POLPA comentários bons sobre o livro!!!
ADOREI a resenha Bell!!
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Alba
2 de outubro de 2010
Comprando loucamente!!
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KaahCullen_
2 de outubro de 2010
adoooooooooooooooooooorei a resenha
to LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOUCA pra ler
bjaao
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Karlinha
2 de outubro de 2010
Nossa, eu quero ler esse livro sim, sabe?
Mas não tá na minha lista de maissssssssssssssss desejados. Mas quero.
Adorei a resenha, Big resenha^^
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Liv
2 de outubro de 2010
Série de seis livros! D:
Isso desafia minha recente meta de não iniciar séries de livros por tempo indeterminado.
Preciso ler Gone, sério, mas preciso me controlar também (ou não). Tenho muita curiosidade com a história. Só gente de 14 anos pra baixo cuidando de tudo… tenso.
Resenha maravilhosa!
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Agathe
3 de outubro de 2010
Eu vi essa resenha de vocês e gostei tanto da história que eu joguei o nome do autor no (overpowered)Google. Aí eu descobri que eu tinha lido uma série de livros que ele escreveu junto com a esposa.
Preciso dizer que a série é simplesmente genial? Que é uma das melhores séries que eu já li na minha VIDA? Acho que não, né?
E eu descobri essa maravilha literária que merece mais crédito do que tem na BIBLIOTECA DA MINHA ESCOLA!!! Sim, bibliotecas de escola estadual de ensino médio do rio de janeiro tem livros bons (eu pensava que não)!!!
A série se chama Animorphs, e é sobre cinco crianças que descobrem que uma raça de alienígenas está invadindo a terra. E os alienígenas são insetos que entram na cabeça das pessoas para controlar as mentes delas!!!
E eles ficam sozinhos para lutar contra uma invasão inteira, porque se eles contarem, ninguém acredita.
Mas: eles ganham o poder de se transformar em animais!!!!!!
Eu sempre, sempre, SEMPRE disse a todo mundo que me perguntasse que essa série não recebe o crédito que merece aqui no Brasil (Como várias outras séries boas).
P.S.: Eu me empolguei um pouco (nem dá pra perceber, né?)
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TháVieira
7 de outubro de 2010
Simplesmente amei a resenha!!
quero ler a coleção inteira!!! e to curiosa para saber o que aconteceu..com os adultos!!
Mto bizarro!! rs
Bjos bjos!
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lilian
15 de agosto de 2011
eu realmente gostei de Gone. A história envolve muito. Muito boa sua resenha. Se eu não tivesse lido, com certeza eu leria
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